No final do ano passado fui operada a uma hérnia umbilical e à diastase abdominal, resquícios de duas gravidezes, uma delas gemelar e também de alguma flacidez acumulada ao longo dos anos. A recuperação tem custado muito, agora já consigo ter mobilidade, mas se soubesse o que sei hoje, tinha adiado por mais um ano. O moranguito ainda era muito pequeno e seis meses sem pegar em pesos, é muito tempo para uma mãe de três!!!

Mas não vos quero falar da cirurgia em si, nem dos pormenores da recuperação, nem do resultado final, nem nada disso.

Quero falar-vos do medo doido que tive de morrer ou de acontecer alguma coisa má durante a cirurgia e deixar os meus três filhos sem mãe. Foi mesmo assim, sem floreados. Tive um medo absolutamente irracional de não os voltar a ver. Juro-vos! Foi das sensações mais difíceis de controlar da minha vida inteira. O medo de não acordar foi assustador.

Começou uns dias antes, talvez dois. Aos poucos foi crescendo, olhava para os meus filhos e tinha vontade de chorar, até já tinha saudades. Aguentei sem desabafar com ninguém um dia inteiro. Porque no fundo achava que estava a ser parva. Mas eu estava apavorada. Não tinha medo da cirurgia nem das dores. Tinha medo de deixar os meus filhos sem mãe. Tive tanto medo!

Na véspera, decidi finalmente desabafar e fui procurar uma amiga que não estava e, em vez de conforto, levei com observações sobre ter tantos cabelos brancos e saí de lá a correr. Procurava esperança e levei com considerações sobre a cor do cabelo e como pareço mais velha. Suspirei e fui buscar as meninas. Encontrei uma amiga à porta da escola, ela chamou-me, desejou que tudo corresse bem e deu-me a mão. Eu suspirei e ela sentiu logo o estado de pânico em que estava. Disse-me “ó rapariga, vai correr tudo bem, tens que te acalmar senão quando acordares da anestesia, vais acordar neste estado de taquicardia e não é bom”. Caí em mim e disse-lhe “ai é?”. Não sabia que tendemos a acordar da anestesia com a mesma sensação com que adormecemos e esta foi a primeira ajuda para começar a acalmar-me.

Já em casa, onde a minha mãe já tinha vindo para ajudar a passar a recuperação com o menos esforço possível, em colaboração com o pai cerejo, tentei brincar com os miúdos, eu e as meninas definimos conjuntos de roupa para os três dias que iria estar fora, colocámos em saquinhos, etiquetámos com o dia e o nome de cada um, li-lhes uma história para adormecer, preparei as minhas coisas e fui-me deitar. Consegui acalmar-me seguindo a dica de uma amiga que, quando viaja de avião ou para qualquer lado, visualiza-se a regressar e a contar às filhas como foi, imagina-se a entrar em casa e a receber abraços, imagina que tudo correu bem. E fiz o mesmo! Imaginei-me a receber a visita das meninas no hospital, a telefonar ao pai cerejo a contar que tinha tudo corrido bem, a voltar para casa e assim consegui ter confiança que tudo ia correr bem, e deixei de sentir aquele medo doido.

Agradeço muito, e ao pai cerejo também que me apoiou muito, a estas minhas duas amigas terem sido a minha tábua de salvação sem o saberem. Obrigada C e C!

No dia da cirurgia, já deitada na maca à espera para ser levada para o bloco, entra a companheira de quarto que iria ser operada mais tarde. Olhei para ela, disse bom dia e ela suspirou fundo com um ar muito aflito. Trocámos nomes e motivos para estarmos ali. E ela, apenas um minuto depois de me conhecer, diz alto e bom som: “tenho tanto medo que nos deixem morrer na operação!”. Nos?????? Eh pá, eu já estava bem, eu estava calma e agora vem esta e leva-me com ela??? Nos??? Ó pá, vai sozinha!

Respirei fundo e tentei acalmá-la, dar-lhe confiança que tudo ia correr bem, que isso hoje em dia já é muito raro, que eram médicos muito experientes e ia ser operada a uma coisa simples, que tentasse pensar em coisas boas e positivas.

Caneco, eu ali a recuperar de vários dias de pânico, já calma, a acreditar que tudo ia correr bem e vem uma desconhecida e tenta, sem o saber, voltar a deixar-me cheia de medo de morrer!!!!! Na, nem pensar!

Quando acordei, tive dores horríveis e pensei que não ia aguentar. Foi muito mau, mesmo! E juro-vos que parecia uma agarrada, que só pedia drogas, morfina e primperan, muito!

Agora, cinco meses depois, recordo com ligeireza aqueles dias. Mas no fundo estou muito grata por estar com uma cicatriz enorme, mas vivinha da silva para ver a minha miudagem crescer, crescer e crescer, serem bailarinos, canalizadores ou médicos, cineastas, carpinteiros ou designers, enfermeiros, escritores ou secretários, sonhadores, investigadores ou educadores, estou muito grata por estar cá que eu gosto mesmo é de VIVER!