A malta é jovem. A malta encontra uma casa porreira, um T3 duplex num terceiro andar, o último do prédio, com vistas, com espaço e sem elevador. A malta não se importa nada com isso, é jovem, está feliz, tem força nas canetas, paga menos de condomínio e não pensa, não se lembra, das milhentas situações em que viver num terceiro andar sem elevador pode ser desesperante. A vizinhança bem dizia que ia custar, mas eu pensava que era “inbeja” do espaço que eu tinha…pois, pois.

estendal

Começaram por ser as compras. Carregar aquela sacalhada toda, escada acima, ter que voltar a descer e a subir tudo para levar o resto, custa muito. Mas no início, a malta era jovem, bebia um copo de água e parecia que não tinha sido nada com ela. Depois nascem as crianças e esta parte foi resolvida com os hipermercados online. Entretanto, descobrimos os encantos de um hipermercado mais baratinho e voltámos a carregar com tudo. Custa um bocado, mas olha, é a vida, meu amigo.

Depois foi a lenha. Nem os cestos comprados na feira da Espinheira, muito jeitosos, minimizam aquele sofrimento de carregar todos os dias com lenha para cima. Agora os cestos ficam cá em cima e carrega-se a lenha com aqueles sacos fortes dos hipermercados. Custa menos um bocadinho.

Entretanto, com a idade e outras maleitas, a minha mãe começou a acusar o desgaste de subir tanta escadaria. Devagarinho, lá vai conseguindo. Havia outra pessoa que quase tinha que ser reanimada quando chegava cá acima: o senhor do círculo de leitores. Eu acho que ele até pedia aos santinhos que eu não tivesse nenhum pedido, só para não subir isto tudo. Eu até me dispunha a descer, mas ele insistia em subir e prestar o serviço…mas amargava.

Mas o que foi mesmo, mesmo, mesmo muito difícil foi carregar com as cerejinhas até elas começarem a andar e a subir escadas pela mão. Juro que se tivesse filmado algumas das vezes, tinha batido recordes de visualização no youtube…vá…também não é caso para tanto…pronto, vá, meia dúzia de visualizações que ninguém tem interesse nenhum por isto de sobreviver a um terceiro andar sem elevador com gémeas.

No primeiro mês foi fácil. O pai cerejo estava em casa, a gozar a licença e cada um carregava o seu ovo. Era pesado e tal, mas a malta ainda era jovem e tal. Mas depois, ó pá, foi cá uma saga e em cada etapa da vida das cerejinhas, eu fui cada um destes tipos de mãezinha:

A balança – Rezar para ter lugar mesmo à porta do prédio. Entrar. Olhar para as escadas com ar vitorioso, respirar fundo, pegar nos ovos com as cerejinhas lá dentro, um de cada lado, e avançar sem medos. Parar a meio, pousar os ditos, não praguejar, respirar fundo e continuar a subir a outra metade. Beber água, resistir à tentação de jurar que não volta a sair de casa sozinha com elas, espreitar se há vinho para o jantar e relaxar.

balanca

A maratonista – Rezar na mesma para ter lugar à porta do prédio. Entrar. Pousar os ovos naquela reentrância que há no patamar do prédio e que não dá para ver de fora. Rezar para que estejam a dormir. Escolher uma, ao calhas, e subir os três andares com o ovo, o mais depressa que conseguir. Entrar em casa. Pousar o primeiro ovo num sítio seguro. Rezar para que esta se mantenha a dormir. Descer os três andares a correr. Rezar para que a que ficou abandonada na reentrância, continue a dormir. Subir outra vez tudo, o mais depressa que conseguir, pousar o ovo, beber água, beber mais água, olhar para a vista da varanda para não ter a tentação de ligar para a imobiliária, telefonar ao marido a perguntar quando chega, tirar as crianças do ovo e começar a dar a sopa às miúdas.

Disney-Cartoon-Goofy-Wallpapers19-160x160

A maratonista maluquinha – Rezar mais uma vez para ter lugar à porta do prédio. Entrar. Pousar os ovos na reentrância. Escolher a que está menos calma, a chorar, ou aos berros como se não houvesse amanhã, meter a carteira a tiracolo, tirar a garota do ovo e dizer à outra que “é só um bocadinho, a mamã vai só lá acima deixar a mana e volta já, já a seguir”. Subir os três andares com ela ao colo sempre a falar com a que ficou lá em baixo abandonada, cada vez mais alto à medida que se afasta e chega a casa. Entrar em casa. Deixar a garota num lugar seguro, o parque ou a cama de grades. Virar costas sem hesitações, descer as escadas o mais depressa possível, sempre a falar com a que ficou lá em baixo dizendo coisas como “a mamã está a chegar, está tudo bem, estou a caminho”…cantar também pode dar jeito. Tirar a outra garota do ovo que olha para nós com aquele ar de quem pergunta “que raio se passa contigo que estás toda suada e corada?”, agarrar no resto da tralha que também ficou lá em baixo, subir depressa com ela ao colo e rezar para a outra não ter escolhido aquele dia e aquele momento para subir as grades da cama e esbardalhar-se no chão. Meter esta última miúda na cama junto com a outra, dar-lhes um brinquedo qualquer e ir beber água, beber mais água, beber ainda mais água, sentar-se no sofá e fingir que não as ouve a engalfinharem-se uma na outra. Avisar o marido que os ovos ficaram lá em baixo na reentrância e rezar para que ninguém estranho entre no prédio e pense em gamar os ovos.

A halterofilista das ancas – Estacionar em qualquer lugar. Meter a carteira a tiracolo e atirá-la para as costas. Nunca esquecer de tirar as chaves de casa da carteira e metê-las num bolso de fácil acesso. Enfiar o sling. Desapertar os cintos dos ovos das garotas. Tirar uma e sentá-la no lugar vago dos bancos de trás. Escolher a mais pesada e enfiá-la no sling, na anca, meter-lhe a chupeta para ela não ir a espernear. Agarrar na outra, a mais leve, por um braço e metê-la ao colo, do outro lado, na anca. Tirar as chaves do bolso, subir os três andares sempre a conversar e rezar para que não desatem a espernear ou a embirrarem uma com a outra. Entrar. Meter as miúdas no chão, beber água pela garrafa para conseguir andar atrás delas, esticar um bocado as costas, verificar se há analgésicos e outros remédios para as costas em casa e não estar muito tempo a pensar “quando tempo faltará para elas subirem as escadas sozinhas?”.

A caracoleta – Estacionar por lá. Meter a carteira a tiracolo e enfiar lá dentro tudo o que tenha que levar para cima. Tirar uma da cadeira e sentá-la no lugar vago. Dar a volta ao carro, tirar a outra, voltar para o outro lado, meter a primeira no chão entre ela e o carro, tirar a outra e dar as mãos a cada uma. Entrar no prédio e explicar que “não pode haver colo, porque a mamã já não consegue, vamos fazer um esforço e subir as escadas sozinhas, de mão dada com a mamã e vamos conseguir”…cantar costuma ajudar. Ter feito xixi previamente e não chegar a casa à rasquinha, é essencial, que isto é coisa para demorar uns minutos largos ou mesmo um quarto de hora. Sentar um bocadinho a meio, respirar fundo, começar a cantar outra canção do panda e subir o resto das escadas. Tirar um curso de negociação com gémeas pode ser útil para conseguir ganhar a batalha “hoje sou eu a ir ao colo!!!!!”. Entrar em casa, deixá-las ir à vida delas, beber água sentada na cozinha, pensar que cada vez vai ser mais fácil e sorrir.

beyka.es

Cada uma destas fases não foi premeditada, foi por tentativa e erro, na base do “deixa cá ver se resulta”. Os pormenores foram conseguidos depois de muito falhanço e hoje, passados quatro anos, gozo um bocado com a situação…as minhas costas é que não acham piada nenhuma.

Agora, com o moranguito, sou só uma mãe a subir um terceiro andar sem elevador com um ovo e uma mochila às costas e depressa passarei para o estadio da anca que o garoto aguenta-se bem. Mas, talvez seja da idade, custa-me muito subir isto tudo com o ovo…é um peso doido. Ainda assim, gosto muito do meu terceiro andar sem elevador.