Não sei o que é ser gémea. Não sei o que é ter um irmão desde o primeiro segundo da nossa vida, lá dentro, ainda na barriga da mãe. Não sei o que é partilhar desde tão cedo o lar com um irmão. Só comecei a ter essa sensação aos 6 anos de idade. E sei, tenho a certeza, que ter irmãos faz bem.

É ter sempre alguém com quem brincar. E também com quem implicar.
As cerejinhas adoram-se. Se lhes perguntarmos “quem é a tua melhor amiga na escola?”, respondem sempre “é a mana”. Quando recebem algo, pedem sempre também para a mana. Quando acordam, perguntam sempre pela mana. E agora também perguntam pelo mano.
Às vezes, as cerejinhas não se suportam. Sai daqui, larga os meus brinquedos, não quero que estejas a olhar para mim. Muitas vezes fazem queixinhas uma da outra: “ó mãe, a mana tirou-me a boneca”, “a mana está a chatear-me”, “a mana bateu-me”, “está a dizer que eu sou má”. Julgo até que um dia vou ouvi-las dizer “ó mãe, a mana está a respirar para cima de mim” de tão fartas que ficam uma da outra…mas não dura mais que um minuto, pois logo a seguir ficam com saudades.
Ter irmãos é ter sempre alguém em quem pensar e com quem se preocupar.

A cerejinha J adora acordar o mano, o moranguito. Senta-se ao lado dele, chama-o, sorri, conversa, pergunta se dormiu bem, mostra-lhe os bonecos dela e derrete-se com os sorrisos dele. Deixo-os muitas vezes, os dois, sozinhos, a brincar. Um dia, ele guinchou e chorou. E ela chorava compulsivamente e só dizia “desculpa, desculpa, desculpa” com o ar mais aflito que algum dia lhe vi. O braço tinha escorregado e caiu com a cabeça em cima da testa do Joaquim. Abracei-a antes de ver como estava o mano. Ela estava mesmo muito aflita. Ele tinha só uma mancha vermelha e um galaró. Fiquei de coração cheio.

A cerejinha L é, em geral, muito mais física que a mana. Quando chegamos a casa, ao fim do dia, depois de muitas horas de brincadeira no jardim-infantil, chegam cansadas. E às vezes não lhes apetece subir as escadas todas (como as percebo!) e há birra, e pedem colo…quase sempre é a cerejinha J que faz isto. Um destes dias, a L saiu do carro e a J não queria sair, pedia colo, eu dizia que não podia dar colo, que dava depois em casa, insisti e ela começou a fingir que estava a dormir. E a L já à porta de casa a ver a cena. Nisto, fiz aquela coisa tão típica de virar costas e dizer “tchau, vou-me embora”. A cerejinha L desata num pranto, aos berros, a pedir “nãoooo, não deixes a mana no carro”. O desespero dela era tanto, cheia de medo que eu abandonasse a irmã. Abracei-a e tentei explicar-lhe que nunca iria embora sem a mana, que era a brincar, que não era a sério. E pensei que nunca mais farei tal coisa…difícil de entender por uma criança de 4 anos, nunca mais. Pondo-me no lugar dela, talvez seja a coisa mais assustadora que poderia ver e ouvir, a minha própria mãe a abandonar a minha irmã no carro….nunca mais. Voltei para trás, peguei na outra ao colo até à entrada do prédio e ela lá aceitou subir o resto sozinha. Fiquei de coração partido.

Diz-se por aí que a melhor prenda que se pode dar a um filho é um irmão. Tenho a certeza que sim.

image

image