Hoje faço anos. 41. E hoje faz 15 anos que este dia deixou de ser apenas o dia do meu aniversário. O meu pai morreu no meu dia de anos. Assim, a meio da manhã, depois de quase 9 meses de luta contra um cancro nos pulmões. Foram dias e semanas complicados. Há um pai que se perde, uma mãe que fica sozinha e um vazio muito grande, porque aos 26 anos um pai ainda faz muita falta. Fará sempre falta, aos 26, aos 41, aos 60, sempre.

Deixei de festejar os meus anos. O meu pai sempre adorou dar-me os parabéns, fosse porque fazia anos, fosse porque tinha boas notas, fosse porque a peça de teatro da escola tinha corrido bem. Era um homem positivo, muito bem-disposto, cheio de pinta e muita vontade de viver. Não era perfeito, tinha defeitos, talvez muitos, mas era o meu pai. E adorava-o. Tanto que a angústia que tenho por as minhas filhas não terem conhecido o avô, nunca deixará o meu coração. Tenho muita pena.

O meu pai ensinou-me muitas coisas. A nadar, a andar de bicicleta, a resolver as coisas a conversar, a não mentir, a ajudar, a ser alegre, a escrever bem português, a dar-me com os amigos dele, a ser o pai mais fixe para os meus amigos, a ter orgulho nos filhos, a viajar, a adorar fotografar e filmar. Ensinou-me a aproveitar o ar livre, a praia, os rios da Beira, a neve, os piqueniques. Mostrou-me que sou muitas vezes teimosa. Trazia um recuerdo sempre que ia passear. Levava-me muitas vezes a trabalhar com eles, muitas vezes porque era preciso ajudar, outras vezes porque eu é que não queria ficar em casa a apanhar seca. Incentivou-me a ir para a Universidade. Tinha orgulho em mim. E ficou doente.

Às vezes, lembro-me dessas imagens, da doença, do funeral. São raras, as vezes. Mas lembro-me muito mais das gargalhadas, do aperto de mão forte, das brincadeiras, de ser o Branco de Neve na praia de Monte Gordo com 7 miúdos, todos primos, que eram os 7 anões. De passar tardes a jogar dominó comigo, de entrarmos em Lisboa e começar a dizer os nome das ruas, umas a seguir às outras, tanto que hoje sei dizer de cor o seguimento das ruas desde a rotunda do relógio até à praça do comércio. De me ter levado pela primeira vez à discoteca. De nunca me dizer que não quando era preciso boleia com os meus amigos para algum lado. De ser muito amigo da família. De estar sempre disponível.

Não sei como seria o meu pai como avô. Talvez fosse igual. Talvez fosse um avô babado. Talvez. Nunca saberei. E tenho tanta pena.

Reconciliei-me com a minha data, 10 anos depois. Atendia telefonemas, recebia os parabéns, mas não havia festa, nem bolo, nem velas, nem parabéns cantados. Não me apetecia. A minha data deixou de ser apenas o meu dia de anos. E passados esses 10 anos, apeteceu-me comemorar o meu aniversário. Nada de especial. Chamei alguns amigos para aparecerem no Atenas depois de jantar, levei um bolito, abrimos um champanhe e cantámos. E foi assim, simples. Na altura, tinha estado uma década sem comprar bolos e nem sabia que era isso dos cake-designers. Fui ali a uma pastelaria encomendar o bendito bolo e quando o vi, tive uma epifania: parecia que o tempo tinha parado 10 anos, o bolo era daqueles com a palavra parabéns em creme de manteiga dourado, com aquelas bolinhas de açucar prateadas espalhadas pelo bolo, coberto com creme de ovo amarelinho, com um debruado cor-de-rosinha velho às ondinhas, um mimo, um amor. Não me custou assim tanto voltar a ouvir os parabéns. Mas também não senti necessidade. A partir daí, houve anos em que me apeteceu festejar, outros em que não me apeteceu. Sem pressões. Agora com as cerejinhas, fazemos sempre um bolo e cantamos os parabéns, serenamente.

Recordo muitas vezes o meu pai, o que mais me lembro é a presença física dele, as festinhas, o humor e as frases feitas.

Tenho saudades tuas, pai.

pai+bebe

pai+eu+serra

pai+eu+cristorei

pai+eu+quarteira

pai-a-filmar