Há coisas que as futuras mães não dizem alto, que só revelam a algumas pessoas, que deixam ficar em segredo. Não dizem se preferem menino ou menina. Dizem “tanto faz, é indiferente, o que interessa é que venha com saúde”. E é quase sempre verdade. Ou não.

Há coisas que as futuras mães idealizam e outras que nem elas sabem explicar, que sentem apenas, que nem sabem qual a razão, mas que preferiam assim.

Sempre disse que preferia ter meninas. Não sei explicar bem porquê. Sentia assim, imaginava-me mãe de meninas. E da primeira vez, calhou-me bem, de acordo com a minha preferência, e logo a dobrar.

Não sou uma pessoa feminina, não fui uma miúda coquete, em pequena era muito maria-rapaz, de saia e alcinhas, mas completamente destravada e enérgica. Não sou adulta de me maquilhar e de andar toda compostinha, gosto de ter as unhas pintadas, mas aborrece-me esperar que o verniz seque, gosto de ter roupa fixe, mas não tenho pachorra para conjugar coisas, gosto de calçado, mas opto sempre pelo que é confortável. A preferência por meninas não era para me rever nas filhas, não era para poder transmitir-lhes formas de estar femininas.

Não sou pessoa de actividade física regular. Gosto de andar de bicicleta e de patinar. Odeio correr. Frequentei ginásios e só gostava de step…o resto aborrecia-me, não tinha pachorra para estar ali a esforçar músculos. Sou mais de exercício para espairecer e não para sofrer…mas também sei que, hoje em dia, os ginásios têm imensas modalidades fixes e que já não há só aquela coisa irritante da aeróbica e dos glúteos, abdominais e pernas…um horror! Lá me estou a perder.

Ter meninas, na minha cabeça de grávida de primeira viagem, significava ter menos probabilidades de andar feita doidinha a correr atrás dos filhos, de poder brincar às profissões, aos teatros, às coreografias, de fazer penteados, de ter mais opções de cores na roupa, de ter filharada meiguinha, de ter aquela união mãe-filha, um laço difícil de descrever em palavras, de sorrir muito por coisas simples. E também era poder ver crescer duas meninas do papá, como eu fui, e que lhes faz tão bem, mas tão bem.

Ter meninos significava, nessa tal minha cabeça, ter que aprender a gostar de futebol, dos power qualquer porcaria, de ver desenhos animados com maquinetas parvas e feias, de ter que correr atrás do filho por que é menino e tem mais energia, de embirrar com a falta de opções nas cores da roupa, de usar ganga em bébé. E também de ter um menino da mamã com medo que fosse um adulto irritante, sempre debaixo das saias da mãe.

Há coisas que as mães não admitem. Há ideias feitas que as mães têm e que não gostam de falar delas. E eu tinha muitas. Até dizia que em geral os meninos quando nascem são um bocadito feítos, que os bébés meninas são sempre mais bonitos que os meninos.

Hoje que sou mãe de meninas e de menino, tenho que bater na boca e penitencio-me um bocado por ter tido estes preconceitos.

Quer dizer, até há algumas diferenças entre ser mãe de menina ou de menino.

A roupa para menina é muito mais diversificada, com muito mais cores, padrões e modelos. Para menino é quase tudo azul e vermelho, castanho ou bege, uma seca…padrões com letras ou números, calças ou jardineiras, camisolas ou pólos, e quando se quer investir em modelos e padrões diferentes, só em marcas caras, porque assim naquelas baratas e aos montes, ou é tudo básico ou piroso.

Costumo dizer que não sei dar prendas a meninos, acho sempre tudo tão pavoroso, feio e violento. Opto quase sempre por uma lanterna de explorador. As meninas também brincam com carrinhos e bolas. Mas será que os meninos brincam com bonecas? Ainda não sei…

Também me fazia impressão, muita confusão, aquela parte de puxar a pilinha para trás…isto tem um nome técnico, mas estou com preguiça de ir pesquisar…entretanto, fiquei contente e aliviada por saber que isso já não se faz…

Limpar meninas é muito mais fácil que meninos; neles há muita prega, é preciso levantar bem os tintins para não ficar nenhum restinho de cócó (vá, não se vão já embora, não consigo falar disto sem ser descritiva, não há cá florerados nesta parte). E quando há xixis de fralda aberta, nas meninas fica-se por ali e nos meninos parece a fonte luminosa da Figueira.

Ser mãe de meninas é saber que podemos ter aquela relação de melhores amigas mesmo ali ao lado, a toda a hora. É adorar todas as cantorias e danças. E derreter-se com cada expressão de senhorinha. É amar para além do que se julga possível.

Ser mãe de meninos é saber que podemos ter sempre aquela adoração gigante por nós, a mãe, a toda a hora. É adorar cada conquista física. É derreter-se com os mimos e com as brincadeiras brutas ao mesmo tempo. É amar para além do que se julga possível.

É diferente ser mãe de meninas ou de meninos. Só o amor louco pelos filhos é que não muda consoante o género. A paixão pelos filhos é igual, quer a casa esteja povoada com bonecas, vestidos e ganchinhos, quer tenha carrinhos e bolas espalhadas por todo o lado.

Preferia ter meninas.

Agora prefiro ter muitos filhos, meninos ou meninas, tanto faz.