Quem tem gémeos passa a vida a responder a imensas perguntas, algumas das quais sobre qual é a mais sossegada, a mais irrequieta, qual dorme melhor, qual come pior. As pessoas tendem naturalmente a ter curiosidade por gémeos (dos outros, ahahah) e inevitavelmente a compará-los. Mesmo que não sejam verdadeiros, mesmo que sejam o dia e a noite como as minhas, as comparações surgem naturalmente.

Quando me comecei a deparar com isto de educar gémeas, pensei muitas vezes se ia conseguir não as comparar e tratá-las como seres únicos, indivíduos com personalidades diferentes. E essa também sempre foi a minha batalha nas escolhas de escola: elas não são as gémeas, mas sim a Laura e a Júlia. Apesar de ter isso em mente, eu própria dou por mim muitas vezes a compará-las, a observar as diferenças e às vezes, a pensar que, caramba, não precisavam de ser tão diferentes…é que assim tenho muito mais trabalho, muito mais.

Outra coisa que me preocupava, era se ia cair na tentação de ter uma das filhas preferidas, porque quando se tem só um filho, é esse o nosso preferido, não temos mais nenhum para comparar. Mas quando se é mãe de múltiplos, há pelo menos dois filhos que nasceram no mesmo dia, com a mesma idade para serem o filho preferido da mãe. E agora a malta da psicologia e pedagogia e o diabo a sete vai-me cair em cima: eu tive uma das gémeas preferida em vários momentos do crescimento delas. Foi inevitável! As cerejinhas são tão diferentes em tanta coisa que as diversas etapas do desenvolvimento correram melhor ou pior com uma ou com a outra e, naturalmente, eu ligava-me mais a uma do que a outra. E nem sempre foi com a mesma. Nos primeiros três meses liguei-me mais à L, porque ela só adormecia ao meu colo. Até ao ano, adorava a J, porque ela era muito mais sorridente e castiça do que a mana. Pelos 14 meses estava mais ligada à L que já andava e falava que se desunhava. Pelos dois anos a cerejinha J era mais carinhosa e fazia mais festinhas. A minha filha preferida foi mudando de acordo com a vivência da altura. Tentava contrariar isto e não o dizia à boca cheia, mas sentia-o, sentia que tinha uma filha preferida. E uma mãe de gémeas não pode ser condenada por sentir isto. Acontece. É natural. Desde que não se torne doentio ou duradouro, é natural. Também cheguei em determinadas alturas a dizer ao pai cerejo que ele também tinha uma filha preferida. Não gostou nada de ouvir isto…mas lá reconheceu. E também é natural.

Hoje em dia já não tenho esse sentimento, não tenho um filho preferido. Talvez tenha caracterísitcas preferidas e outras que não gosto mesmo. Há traços de personalidade de cada um dos meus filhos que eu adoro e há outros que detesto e que me envervam. Por exemplo, adoro a capacidade de empatia da cerejinha L, mas irrita-me que seja trapalhona. Adoro a capacidade de inventar histórias da cerejinha J, mas irrita-me que se isole e fique no mundo da lua a toda a hora. Adoro a simpatia do moranguito, mas irrita-me que esteja sempre a precisar de me ver.

A cerejinha L é muito mais sociável do que a J, que se isola um pouco e não gosta nada de confusões. Mas que quando consegue estabelecer ligação com alguém, é um doce e super-querida. A L tem mais momentos de bater o pé e ser teimosa, mas com jeitinho consegue-se domar. A J tem muitos momentos em que chora, porque diz que não gostam dela, ou encuca qualquer coisa, ou diz que está triste. E digo-vos que este tipo de personalidade me preocupa muito mais do que a outra ser respondona e teimosa, porque acaba por ser mais decidida, dominadora, controladora das situações e…da irmã. E esta é outra preocupação para uma mãe de gémeos, quando um deles é dominador sobre o outro e digo-vos que é uma chatice, esta coisa da competição entre irmãos a toda a hora é uma seca, é difícil de contrariar…

Temos tentado, em conjunto com a educadora, que a cerejinha J se comece a emancipar…mas ela é naturalmente tímida e mais lenta nas decisões. Em casa, por vezes, tenho que fazer com que seja a Jú a primeira a falar ou a escolher as coisas para não ser influencida pela irmã, e também porque gosta pouco de ter trabalho (ela é um bocadito preguiçosa). E temos tentado que a Laura dê espaço à irmã (e a toda a gente que ela leva tudo à frente…é tão mãezinha, jasus!) e respeite as escolhas e decisões da mana. Andamos nisto, de tentar que a cerejinha J seja mais participativa e a L mais calma…E quando chegar a altura de fazer trabalhos de casa de duas ao mesmo tempo com carradas de trabalhos para fazer e ritmos diferentes, jantar e coisas para orientar, e um irmão mais novo e uma cadela…a sério, MEDO!!!!!

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Tadinhas, só têm 5 anos e eu já ando com estas coisas de pensar como é que vai ser na escola primária…enfim! Mas a verdade é que tenho lido vários testemunhos de mães de gémeos que os separaram na escola e que correu tudo bem. E de outras que os filhos precisam de continuar juntos para ter rendimento escolar. Tinha pensado pedir a opinião de mães de gémeos sobre este assunto, de educadores e professores, psicólogos e terapeutas, mas o tempo não é elástico e eu ando cansada. Vai daí, comentários abertos à vossa experiência, contem-me tudo: separaram os gémeos na escola ou não? Porquê? Está a correr bem ou estão arrependidos? Eles é que pediram? O que dizem as teorias? Há tratamento para uma mãe à qual lhe falta ainda um ano e meio e já anda com estes pensamentos?
Obrigados!

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