O sono dos bébés e crianças é um tema muito falado pelos pais, os pais dos pais, os amigos dos pais, por aí fora. Mesmo antes de nascerem, toda a gente recomenda à futura mãe que durma enquanto grávida, porque depois é para esquecer. Lembro-me de, nas aulas de preparação para o parto, quando a enfermeira pediu que falássemos sobre as expectativas na paternidade, quase todos falaram nas noites sem dormir.

De facto, no início e mais por causa da necessidade de alimentação de 3 em 3 ou até às vezes de 2 em 2 horas, o sono dos pais altera-se por completo. E depois, como prometemos a nós mesmos descansar quando eles estão a dormir e nunca o cumprimos, andamos a bater mal e com olheiras e cansados. E depois há aquelas crianças difíceis para dormir, ou que dormem muito bem de dia e à noite é um tormento, ou têm cólicas a partir das 8 da noite e só param passadas 4 horas. E é aí que os pais desesperam e começam a procurar ajuda, conselhos, palavreado na net, fóruns, blogs e outras referências.

Este tema é delicado. Eu não pretendo ser um exemplo, longe de mim, mas o que eu sei é que tive duas ao mesmo tempo, criadas da mesma maneira e que tinham perfis de sono absolutamente diferentes. E que portanto, às vezes, as dificuldades em adormecer ou dormir não têm a ver com os pais, mas sim com as crianças, indivíduos com necessidades diferentes. Vou contar-vos como foi e é comigo.

Na maternidade, onde estive 12 dias, felizmente com elas sempre ao pé de mim, foi tudo um mar de rosas. Acordavam à hora certa para o leitinho, tratava da higiene, um bocadinho de colinho e miminho, berço com elas e pegavam novamente no sono. Lindo! Chegadas a casa, tudo mudou. Aqui a mãe vinha naturalmente ansiosa, porque é natural que assim estivesse. E elas estavam a entrar na 3ª semana, e eis que a sô dona cólica tomou conta da barriguita da minha J. E o génio da minha L veio ao de cima, com toda a força.

Depois tinha uma avó a azucrinar-me os ouvidos com aquele palavreado do costume “não as adormeças ao colo, olha que depois quando ficares sozinha é muito complicado”, mas ela ficava de plantão ao lado do berço, a abaná-lo para a cachopa L sentir o movimento e imaginem só, achar que estava ao colo. Really?? Mãezita, eu sei que não era por mal, mas só me deixava ainda mais stressada. Avózitas desta país, fáxavor de não dizerem isto a recém-mães cheias de hormonas saltitantes, sim?

Depois tinha duas miúdas para tratar ao mesmo tempo e de facto, os primeiros meses com gémeos, são DIFÍCEIS cumó raio, não há que meter paninhos quentes: estamos sempre ao serviço, quando acabamos com uma, está logo a outra a precisar, tomarmos banho é tarefa para demorar dias a ser novamente feita, enfim…mas estou a perder-me.

A J sempre adormeceu sozinha na cama dela, ficava lá, entretida; mesmo quando acordava de manhã, ficava a ouvir-nos dormir, a olhar para as coisas, não era problemático. Muito cedo, acho que aos 2 meses fez 6 horas seguidas de sono à noite. Um mimo! Mas as cólicas foram muito lixadas, mesmo muito. Experimentei várias coisas, vários remédios. Sabem o que resultou mesmo? COLO, muito colinho e muita paciência…ao mesmo tempo que ouvia e cantava esta música e fazia massagens na barriguita. Aos 3 meses passou, milagrosamente. Depois, sempre foi um anjo para dormir. Mesmo que me apetecesse adormece-la ao colo, ela não era muito fã. Aos 18 meses, passou-se e chorava baba e ranho quando a metia na cama; era horrível, não queria a cama e também não queria o colo. Um dia, desesperada, quase que a atirei para o sofá e ela adormeceu imediatamente. Na noite seguinte, deitei-a na cama que tinha no quarto delas para os nossos turnos a dormir ao pé delas quando estavam doentes, e voltou a adormecer imediatamente. Até que decidimos tirar uma das grades de lado, colocar um colchão no meio das camas e ela nessa noite, parecia que tinha voltado ao que era antes. Adormeceu sozinha na cama dela e desde aí, sempre assim foi. Percebi que ela se sentia mal na cama de grades, enfiada lá em baixo e concluí que é preciso tentar perceber as crianças.

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A L desde cedo que fez perceber que colinho era com ela, e muito, que isto de estar lá só um bocadito para arrotar, não lhe chegava. E claro que, como mãe de primeira viagem, tinha aquele sentimento de culpa que a estava a adormecer ao colo, e ai meu deus que estou a criar uma mimada e uma miúda irritante, e nunca mais vai dormir sozinha, e blábláblá. E depois colocava-a no berço e ela desatava imediatamente a berrar e eu dizia como muitas mães “a cama tem picos”. Até que comecei a pensar pela minha cabeça e sobretudo a sentir que se a adormecesse ao colo e ao mesmo tempo eu dormisse também, era perfeito. Tantas noites que ela adormeceu no meu ombro e eu também, e depois acordava e metia-a na cama e ela já ficava (confesso que cheguei a aquecer a cama com um saco de água quente para ela não sentir a diferença de temperatura…e resultava!).

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Outras vezes adormecia na espreguiçadeira na sala, a ouvir-nos falar. Ela sempre foi miúda de muito contacto físico, muita presença, nunca foi de estar muito sozinha. Entretanto, perto da entrada para a creche que no caso delas só aconteceu aos 7 meses, comecei a preocupar-me com o facto de ela não adormecer sozinha na cama. E começámos a deitá-la lá, aos poucos, a contar histórias, a fazer miminhos, a cantar e ela aos poucos foi chorando menos e habituou-se àquele ritual, mas sempre ficámos ao lado dela. Haviam de ver, a L a berrar alto e bom som e a J ao lado a dormir profundamente, aliás ela adormecia sozinha com a irmã a berrar (o pediatra disse-nos que se ela quisesse dormir, nada a afectaria, nem a irmã a chorar e foi verdade). Desde essa altura que ela gosta das festas que nós chamamos “o narizinho”; ainda hoje pede para fazer. Neste campo, há aí um método que dizem que resulta; eu li um bocado e achei logo que eu não ia ser capaz, que não era para mim. Aliás, ao mês de idade comprei este livro e adorei, não concordo com tudo, mas no geral o baby wearing faz muito sentido para mim e então, com gémeos, se queria fazer alguma coisa, tinha mesmo que “usar” alguma delas.

Continuando com a cerejinha L. A partir daí as coisas foram melhorando e as noites começaram a correr bem; ela acordava algumas vezes de noite, punha a chupeta e voltava a pegar no sono. Por volta dos 18 meses, em que já andava bem e já tínhamos tirado uma das grades, ela acordava pelas 2 ou 3 da manhã e queria ir brincar. E um de nós levantava-se, ia para a sala e ela ficava ali, uma ou duas horas a brincar com as bonecas, os puzzles (eu dizia que a essa hora é que lhe vinha a inteligência, porque resolvia os puzzles todos e dizia palavras novas…àquela hora!!!), e eu ou o pai, deitados no sofá, com um olho aberto e outro fechado. Quando achava que era demais, chamava-a para ler uma história e ela voltava a acalmar e ficava no ponto rebuçado para voltar a adormecer e às vezes, até era ela que ia sozinha para a cama. Uma coisa nunca fizemos: ligar a televisão. Uma das minhas amigas, ao saber disto, disse-me “isso não é normal, já falste com o pediatra?”. Não achei que fosse preciso, era uma fase, a garota tem imensa energia, tinha descansado um bocado e estava sem sono, tal como os adultos. Ao início ainda lutei contra isto e forçava-a a adormecer, e era berreiro pegado e cansaço e nervos e desisti. Ela brincava e depois voltava para a cama. Simples. Hoje em dia adormece sozinha, dorme a noite toda; há noites em que pede para ler livros ou brincar um bocadinho, mas são raras as vezes. Ela é assim, pronto.

Portanto, são as duas criadas ao mesmo tempo, completamente diferentes; aceitei as diferenças e foi muito melhor para mim, eu descanso, elas também, é o que interessa, é o que for mais eficaz para toda a gente descansar.

Ora isto leva-me a outro tema: dormir com os pais ou em modo moderno “co-sleeping”. Qual a minha opinião? Sou a favor, precisamente pela razão que apontei antes: é o que for mais eficaz para toda a gente dormir. Elas adormecem na cama delas e às vezes vão ter à minha a meio da noite, há noites em que é a J e na outra noite é a L, às vezes são as duas ao mesmo tempo, às vezes não é nenhuma, às vezes é só de manhã. Não acho nada que esteja a criar miúdas inseguras, que não tenham auto-controlo, que esteja a pontenciar caprichos. Acho que lhes estou a dar segurança ao saberem que eu estou lá quando elas precisam, que às vezes basta uma palavra sussurrada ou um miminho para se acalmarem, porque podem simplesmente estar a ter um sonho mau. Eu sou assim, não me importo, não vejo mal nenhum e não interfere nada na vida de casal. Claro que às vezes, durmo pior porque, principalmete a J, esbraceja muito e mexe-se e dá voltas e sei lá mais o quê; e a L dá uns pontapés e espeta os joelhos cá com uma força!!! E nessas vezes, agarro nelas e volto a pô-las na cama, sem dramas. Aliás, se tudo for feito de forma natural, sem sentimentos de culpa, sem pressões, sem ligar aos bitaites da sociedade, tudo corre melhor. Se estivermos seguros que estamos a fazer o melhor pelas nossas crias, tudo corre bem. Não há famílias iguais e muito menos crianças iguais; regras e métodos hiper estruturados podem resultar…mas eu duvido. Eu não me meto, acho que cada um sabe de si. Procuro informação, sim, é verdade, mas depois decido por mim e pela minha família. Por exemplo, gosto do que este senhor diz, mas isto sou eu, entenda-se.

E sabem uma coisa: perguntem aos vossos pais como é que vocês eram para dormir. Vão gostar muito de descobrir várias coisas. A minha mãe disse que, até aos 3 anos, eu acordava a meio da noite a berrar com as goelas todas abertas e que depois, de repente, passou. Ainda hoje berro muito, ahahahaha.