Parte II – A maternidade e as despesas

Para escrever esta parte da minha opinião sobre o incentivo à natalidade (antes já botei faladura sobre o trabalho e a maternidade), andei às voltas…começo por onde? Pelas minhas ideias? Pela reforma do IRS anunciada para 2015? E depois fez-se luz: o cerejal é uma família normal, com despesas normais. Começo por dizer quais são as despesas que esta família tem e depois então parto para as medidas de apoio à natalidade, tendo em vista a redução das despesas. Então cá vão:

  • crédito à habitação (há uns dias a cerejinha L perguntou “quem comprou esta casa?” e eu respondi “foi o papá e a mamã” e estive para acrescentar que, apesar disso, a casa não era nossa, mas sim do banco…achei que era melhor poupar a miúda a estas questões do crédito bancário…)
  • seguro da casa (obrigatório também quando se faz o crédito)
  • seguro de vida associado ao valor do crédito à habitação (incrivelmente, aumenta apesar de o valor em dívida estar a diminuir…e incrivelmente, temos que ser nós a pedir aos senhores para fazerem o favor de fazerem a actualização…enfim, seguradoras…)
  • IMI (já se foi a isenção…portanto, eu compro a casa, pago o valor da casa que já tem impostos, pago juros, pago, pago e pago, e ainda tenho que dar dinheiro à câmara para usar essa casa…enfim, a fiscalidade é um novelo!)
  • condomínio (este ano conseguimos poupar nisto…fazemos assim)
  • gasóleo (a carrinha gasta pouco e um depósito dá quase para um mês…e isto não é um luxo, um carro hoje em dia é também um instrumento de trabalho…e só não gastamos mais, porque não temos dinheiro para passeatas)
  • seguro do carro
  • IUC (fico tão enervadinha quando tenho que pagar isto…compro um carro e pago impostos e depois ainda tenho que pagar para o gajo circular…mais um novelo)
  • revisões do carro + inspecção periódica (o que vale é que fazemos poucos quilómetros…e as revisões são espaçacadas)
  • luz (temos tarifa bi-horária e compensa qualquer coisita; agora quando nascer o moranguito, voltamos à tarifa normal, porque vamos estar em casa todo o dia)
  • gás (é só para cozinhar e para os banhos, porque raramente usamos o aquecimento central; mas esta despesa, aliás, este bem essencial junto com a luz, são taxados a 23%!!!!! e, por isso, é sempre uma pipa de massa por mês)
  • água (gastamos pouco, somos poupadinhos)
  • tv+net+telemóveis (uma pessoa vai à procura dos melhores preços e diz que sim, que se fideliza durante dois anos. E nesses dois anos aparecem concorrentes com melhores preços, mas como está fidelizada, não convém mudar…e o fiel depositário dos meus euros diz que também não pode baixar o preço…a concorrência em Portugal é uma anedota!)
  • lenha (uma carrada por ano, cem euros para o Inverno todo)
  • mensalidade do jardim infantil (são duas…não há volta a dar, é aquilo e aquilo é)
  • comida e higiene (aqui temos mudado muito os nossos hábitos: vejo as promos à 3ª-feira, comparo preços ao cêntimo, só compro em determinados sítios quando há desconto e passei a achar o Lidl o paraíso…muita coisa boa e barata; carne, peixe, fruta e legumes é tudo na praça)
  • fraldas (eu tenho uma consciência ecológica muito grande e durante muito tempo, as cerejinhas gastavam de fraldas biodegradáveis…mas com a mudança de vida, a minha carteira não se deu bem com a consciência, a tal, a ecológica, e como depois do desfralde, só se gastam praticamente fraldas para dormir, as de marca branca são muito boas…pingo doce, mais precisamente)
  • roupa e calçado (quase não compramos roupa. Casacos compro, sim, dois tamanhos acima para durar dois anos. Meias tem que ser e cuecas também. Sim, gostava que andassem com roupa actual e na moda, com roupa escolhida para condizer…mas seria um desperdício não aproveitar toda a roupa emprestada e usada que nos dão, eheheheh. Calçado é que tem mesmo que ser…até dói. Mesmo assim, e com a ajuda do meu sapateiro de eleição, recupero algum calçado emprestado e fica impecável)
  • medicamentos e saúde (não é muito, mas a minha asma leva-me alguns euros; a cerejinha L tem pele atópica e tenho que ir variando de creme, entre o barato e o caro, que a pele dela deixa de reagir aos cremes; a cerejinha J faz muitas vezes bronquiolites e temos que ter sempre o básico mais o anti-histamínico e broncodilatador; o pai cerejo usa óculos e vai à revisão uma vez por ano; quando nascer o miúdo, já terei mais despesas entre consultas no pediatra – não temos médico de família, estamos na lista dos “sem médico” – e vacinas)

E são estas as principais despesas. E as medidas:

  • redução da taxa de IRS do agregado por cada filho (parece que sim, que para 2015 este cálculo já vai ser feito…) sem limite de descendentes (ter dois não é o mesmo que um, ter três não é o mesmo que dois, quatro não é o mesmo que três…e por aí fora, é fazer as contas)
  • aumento do montante a deduzir à colecta contabilizando cada filho e sem tecto, mas aqui talvez esteja a ser muito idealista, mas eu gostava; igual para casais ou para famílias monoparentais (parece que não será bem assim, o que é injusto, porque uma família que fica monoparental por questões de viuvez ou divórcio, não pode ser prejudicada…os filhos estão lá na mesma para criar)
  • deduções em juros de crédito à habitação ou renda da casa, porque esta é a grande fatia das despesas da maioria das famílias, despesas de saúde, despesas de educação, despesas com alimentação e higiene infantil, parte dos seguros de vida, e aumento do tecto máximo de dedução para estas despesas, bem como para as pensões de alimentos.
  • redução de tarifas para famílias com 2 ou mais filhos na luz, água, gás, seguro automóvel, IMI e imposto de circulação quer o carro seja de 5 ou 7 lugares (a minha carrinha é de 7 lugares, mas podia ser de 5 que cabíamos lá todos na mesma…e o imposto é igual), generalizado a todos os municípios.
  • redução do IVA para 6% da luz e do gás (só aqui poupava um dinheirão).
  • redução do imposto sobre os combustíveis para que aconteça uma descida efectiva e notória do preço do combustível (esta medida beneficia não só as famílias, mas também as empresas e o próprio estado e as empresas públicas, todas gastam combustível…é assim tão difícil?).

Diz que na reforma do IRS para 2015, deixam de contar os juros do crédito à habitação e as rendas nas deduções ao IRS, bem como as despesas com educação, mas que podemos ter uma bolsa de despesas familiares onde pode ser deduzido 40% de qualquer compra de bem ou serviço, desde que se peça factura com contribuinte. Parece muito bom, não é? Pois, as despesas com educação transitam para essa tal bolsa, muito de acordo. Ora, eu para atingir os 800 euros de juros que pago todos os anos pela casa que poderiam dar desconto à colecta, tenho que comprar muita coisinha!!! E para comprar coisinhas, é preciso ter dinheirinho, não é? Até parece que as famílias andam aí todas a gastar à maluca para irem buscar euros no IRS…A não ser que meta tudo nessa tal bolsa, o gasóleo, a comida, tudo o que gasto no supermercado, a roupa que é pouca no nosso caso, o pincel e o caderno que compro para fazer um trabalhito manual cá em casa, toda a tralha e mais alguma. Sim, tá bem, ajuda a combater a evasão fiscal, sim senhora, contem comigo. Mas que é uma falsa questão, é. Irá ser à custa do meu esforço monetário que essa evasão fiscal será combatida…já para não falar na devolução da sobretaxa que só acontecerá em 2016 se os níves de evasão fiscal em 2015 diminuirem…ginástica financeira do mais nojento que há, desculpem-me os mais sensíveis.

Bom, posto isto, fáxavor de se preocuparem com as despesas reais das famílias reais, daquelas que estão à rasca para pagar todos os impostos, daquelas que fazem montes de ginástica mensal para andarem de cara alegre em frente aos filhos, porque eles são a melhor coisa do mundo…é pena é que tanta gente com capacidade de decisão se esqueça disso.

(cá em casa o pai cerejo cozinha…e costumo dizer que eu trato dos papéis do IRS…é por isso também que assim que saiu a proposta de orçamento, fui logo ver com que linhas me iria coser em 2015…)

 

Próxima parte: a maternidade e a educação