Parte I – A maternidade e o trabalho

Diz-se que adiamos a maternidade. Mas a vontade de ter filhos vem, a maior parte das vezes, na altura normal, nem cedo, nem tarde, é quando o casal tem vontade. E muitas vezes isso acontece por voltas dos 30 ou 30 e picos, mas nessa altura, a maior parte de nós ou está a contrato, ou trabalha na empresa há pouco tempo, ou viu uma colega ser despedida assim que regressou da licença de maternidade, ou está no desemprego, ou tem o marido a trabalhar longe de casa, ou trabalha por turnos, ou ainda está em casa dos pais depois de ter feito o curso e o mestrado e só lhe aparecem estágios à borla.

Em 2011, fui despedida pouco tempo depois de regressar da licença de maternidade das gémeas; esse aspecto pesou na hora de comparar pessoas, porque eu estive, de baixa e de licença, muito tempo ausente…muito para estas contas, porque para as minhas meninas foi cedo demais. Sei o que é sentir que estou para trás, porque estive a ter filhos, e atenção que a empresa sempre me tratou bem…mas na hora da escolha…

Agora que temos um orçamento para 2015 cheio de medidas para aumentar a natalidade (dizem eles), está na altura de botar faladura sobre o tema.

Quando fui dispensada em 2010 (sim, já vou com duas vezes no desemprego…sou uma pessoa normal com uma vida normal), não tinha filhos. Andava em pleno processo de tratamentos. Fui a dezenas de entrevistas (nessa altura, havia muitos anúncios de emprego, muitas entrevistas…bons tempos!) e em todas me perguntavam: “tem filhos?”, “está a pensar ter filhos?”. Nunca menti, nunca, disse sempre que sim que estava nos meus próximos planos, pois eu tinha 36 anos na altura…E depois vinha a pergunta “tem ajuda de familiares?”. E aqui mentia, dizia que sim, que tinha o meu marido e a minha mãe…a duas centenas de quilómetros de distância e com limitações físicas, mas tinha…E ficava sempre meia a ferver por dentro!!! Por que raio é que uma mulher não pode ser trabalhadora e mãe ao mesmo tempo??? Vejam lá este estudo, vale o que vale, mas é um indicador.

Portanto, e não me venham dizer que agora já não é bem assim, as entidades empregadoras torcem todas, todas, o nariz a contratar mulheres. E algumas só contratam as mulheres, porque muitas vezes elas são mesmo muito melhores que os homens ou porque, por vezes, têm cotas para mulheres nos quadros da empresa (que coisa mais…mais…mais…inqualificável). Talvez tudo isto esteja a mudar…espero que sim.

Às vezes, as famíllias fazem contas e percebem que nem sempre a melhor opção é trabalhar e pagar creche ou jardim-infantil; às vezes, é melhor ficar em casa com os filhos, ser mãe a tempo inteiro. Se calhar muitas mães gostavam de poder optar por esta solução, mas só um salário não chega para tudo. De qualquer forma, ser mãe (ou pai) a tempo inteiro, é um trabalho!! Sério e muito exigente. E, passados uns anos, quando esses pais decidirem voltar a trabalhar fora de casa, não olhem para elas e eles com desdém, como se tivessem tido uma boa vida, como se tivessem estado em casa sem fazer nenhum. Olhem para eles como alguém que percebe de gestão de tempo e financeira, de gestão de conflitos , de organização, de diplomacia…tanta coisa.

Então cá vão as minhas propostas:

  • Licença de maternidade de 1 ano, opcional (embora eu ache que toda a gente beneficiava com uma licença de pelo menos um ano), ou no mínimo, 6 meses pagos a 100%. Actualmente, temos 4 meses pagos a 100%, 5 meses a 80% ou 5 meses da mãe e um do pai (licença partilhada) pagos a 83%…Parece que a directiva europeia de uniformizar a licença vai finalmente ser cumprida, vejam aqui. E vejam também este trabalho sobre os mitos dos custos da licença de maternidade. Aos 5 meses, as crianças ainda estão a ser amamentadas em exclusivo, ainda não comem sopa, ainda são muito pequenas. E as mães ainda estão cansadas e cheias de hormonas. As empresas não têm custos nenhuns com a licença; se contratarem um substituto, pagam-lhe o que pagariam à mulher se ela estivesse a trabalhar. Ao mesmo tempo, dão currículo (e dinheiro) a outra pessoa. Juro que me custa a perceber esta coisa de torcerem o nariz às trabalhadoras engravidarem. Até porque, uma grávida ou uma recém-mãe, é um poço de consumismo, não é verdade? Vejam-se os inúmeros mercadinhos e feirinhas e outros inhos para mães e filhos que surgiram ultimamente!!! Portanto, é bom para a economia!
  • Horários flexíveis no trabalho (e nas creches, mas sobre isso falarei noutra parte) e a possibilidade de trabalhar em part-time ou a partir de casa. Esta coisa salazarista de ter um horário rígido de trabalho, faz-me nervos. O que interessa é a produtividade e não picar o ponto às horas x e y, pelo menos para mim. Sempre fui apologista de cada um, em concordância com as chefias como é óbvio, gerir o seu tempo desde que o trabalho apareça feito a tempo e horas…e assim, aposto que até  se produz mais…mas isto sou eu com as minhas ideias revolucionárias! Até podem preferir concentrar o trabalho todo em meia semana e ter um ou dois dias livres, ou ter redução de umas horas por dia…são tantas as possibilidades, mas para quem tem filhos esta decisão poderia ser feita em conjunto. Tudo a bem da produtividade e da satisfação pessoal e familiar. Serei idealista demais?
  • A protecção da grávida e das recém-mães no despedimento, é uma questão básica. Nem queria ir por aí!!!! Uma mulher depois de ser mãe, entra num tal modo de multi-tasking que consegue qualquer coisa. Claro que está cansada, que dorme mal muitas noites…mas os pais também! E as bocas de que “agora que és mãe já só queres ir para casa” e “não te consegues concentrar, só pensas na criança”, dão-me cá uma volta às vísceras!!! Até parece que quando não se tem filhos, a concentração é maior e a vontade de ir para casa não existe. Enfim, poupem-me!
  • Regalias adaptadas à maternidade. Nas empresas e instituições há, muitas vezes, regalias sociais. Seguro de saúde, vales de descontos aqui e acoli…vejam as do Ikea.
  • O pai, que muitas vezes, trabalha de sol a sol para levar os euros para casa, também deve ser incluído. Também pode partilhar com a mulher um horário flexível, para não estar o dia todo fora de casa e poder  estar mais tempo com os filhos. E a mulher, se assim o quiser, poder ela também trabalhar fora de casa e ter uma ocupação.

Fala-se tanto hoje em dia em flexibilidade…mas na realidade, estamos todos muito presos a modelos: mãe em casa/pai trabalha; mãe e pai trabalham/filhos na escola; mãe e pai trabalham/avós ajudam; mãe e pai trabalham/não há ninguém que ajude. Temos que repensar isto tudo. Sinto sempre que os pais em Portugal não têm opção…ninguém lhes pergunta o que precisam, o que lhes faz falta ou o que não lhes faz falta.

Próxima parte: a maternidade e as despesas.