Li este artigo na semana passada e comecei logo a delinear uma resposta, mentalmente. A semana foi agitada e adiei a publicação

Talvez achem que eu sou daquelas pessoas que avisa logo os amigos e familiares para não irem à maternidade, para só nos visitarem um mês depois já em casa, para não incomodarem. Que diz isto tudo de forma directa e sem papas na língua.

Pois, não é nada disso. Por mim, da primeira vez das gémeas e agora desta gravidez, podiam visitar-nos onde quiseram, quando quiseram e como quiseram. E sabem porquê?

Se estiver com a mama de fora a amamentar, é a vida meus amigos. Não querem ver, olhem para o lado. Eu nem gosto de amamentar, não sou nada fã da amamentação, mas se é algo natural no cuidar do bébé, então não vejo problema algum em ser vista. É como entrar alguém no momento em que estou a mudar a fralda ao bébé com um mega-cócó nojento e mal-cheiroso. Não há ninguém que goste de ver isso e que escolha esse momento para dizer “ai que bébé tão lindo!”. Porque um bébé com cócó até ao pescoço não é lindo. Nem fofinho!

Quem vem, é porque vem por bem. Sim, sim, é verdade que toda a gente que vai visitar um recém-nascido e a recém-mãe, o faz por bem, com verdadeiro sentido de amizade e amor. Então se é assim, não vejo razão para não serem essas pessoas a escolher. São nossos amigos, querem-nos bem, querem partilhar um momento bom e feliz, querem ver o bébé, querem fazer parte e partilhar. Não querem meter o bedelho, não querem ver se temos o cabelo oleoso ou o buço por fazer, se o bébé tem ranhoca por todo o lado, ou se está mal vestido, não querem saber se a casa tem pó e loiça por lavar até à janela, não querem saber dessas coisas. Só querem fazer parte desse momento.

E é por isso que eu deixei que fossem à maternidade ou a casa no primeiro dia, de manhã ou à noite, quando quiseram.

Claro que tive que adaptar. Que houve alturas incómodas. Se calhar naquela hora talvez me apetecesse estar deitada no sofá a não fazer nadinha, em vez de estar a contar pelo quinquagésima vez o parto do bébé, e quanto pesava e quando media, ou a ouvir histórias de outros partos e bébés. Ou a responder a perguntas do género “tens leite?”, “não lhe dás banho todos os dias?”, “vais colocá-lo a dormir sozinho antes dos 6 meses?” ou “já tiraste os pontos?” com respostas politicamente correctas em vez de bojardas do género “sim, tenho, dos Açores, se te apetece, tira um copo e vai ao frigorífico”, “sabes aquela invenção magnífica chamada toalhetes?”, “sim, à força, a chorar que nem um desalmado a noite toda até aprender que tem que dormir sozinho para não chegar à faculdade ainda a pedir a mão para adormecer” ou “nem imaginas o que curti a tirar os pontos com a pinça do buço, úúúúú”. Sim, também pensei que podiam ter escolhido outra hora, ou dia, ou forma. Mas depressa me passou.

Apesar de o assunto ser a maternidade, essas visitas fazem-nos sorrir e são calorosas, as pessoas gostam de nós, levam-nos miminhos, dizem que estamos tão bonitas mesmo que tenhamos o ar mais nojento e estragado do mundo, dão colinho ao nosso bébé, dizem que tem os nossos olhos, ajudam a mudar a fralda, embalam, contam histórias engraçadas, disponibilizam-se para ajudar mesmo que nunca mais nos visitem. E eu aproveito para pedir coisas como levar o lixo. Olhem, é a vida, se não queriam mesmo ajudar, não tivessem oferecido, porque uma mãe de gémeos nunca deve recusar ajuda.

Eu gosto desse momento. Gosto dessa partilha. E mesmo que esteja cansada, cheia de dores e com vontade de estar sozinha, aguento. Afinal é só um bocadinho, depois vou estar sozinha com o meu bébé em casa e vou ter saudades de conversar, de ver pessoas.

cartoon

(retirado de A minha vida dava um cartoon)