Muitas vezes ouvi a pergunta “o que queres para o teu aniversário?”, feita a maior parte das vezes pelo meu pai que faz nesse mesmo dia, 17 anos que partiu.

Agora, quase a fazer 43, essa frase ainda me surge na memória. O que quero para o meu aniversário?

Penso que podia ter umas calças de ganga novas da salsa para substituir as únicas que tenho, em vez de as ir remendar pela terceira vez. Depois penso na falta que me faz pintar os quartos, onde ainda restam vestígios de humidade do último inverno e no preço do raio das tintas, e prefiro remendar as calças.

Penso que podia arranjar uma carteira nova para substituir a única que tenho, feia como mundo, mas útil o suficiente para andar com tralha de três filhos atrás. Depois penso na necessidade da Júlia fazer as saquetas para tentar passar um inverno com menos maleitas respiratórias e prefiro andar com a mesma mala o resto da vida.

Penso que podia voltar a ter o meu perfume de eleição que não uso há anos, porque é caro e está em descontinuação, mas de tão único que é, me fica a matar. Mas depois penso nos bilhetes do jardim zoológico que ganhei num passatempo e prefiro investir num fim-de-semana em Lisboa, que mesmo ficando em casa de uma amiga, é preciso gasóleo, portagens e comida para esses dias.

Penso que podia ter um fim-de-semana num turismo rural giro com animais e comida boa para a minha malta curtir. Depois lembro da carrada de lenha que é preciso comprar em breve e depressa concluo que as minhas actividades à borla com os meus filhos chegam bem para eles serem felizes.

Penso que podia ter uma jantarada com amigos e comemorar e brindar, o que não faço por mim há muito tempo. Depois penso que se aproxima a oportunidade das minhas filhas terem uma experiência única, de escola em regime de ar livre, na mata do choupal e para a qual preciso de investir em galochas e impermeáveis, e prefiro deixar as comemorações para outra altura qualquer, que isto de brindar com os amigos faz-se em qualquer altura.

Penso que podia ter umas botas novas para substituir as que têm quase quatro anos e são, todos os anos, recauchutadas pelo meu querido sapateiro. Depois lembro da necessidade que terei este mês que a minha Sandra venha regularmente limpar a casa e não apenas de vez em quando, uma vez que vou ter seis meses de recuperação da cirurgia sem pegar em pesos e prefiro continuar a ir ao sapateiro.

Por fim, dou conta que todos os meus desejos, os fúteis e os necessários, têm a ver com dinheiro. E que estamos sempre a fazer escolhas, mesmo que tenhamos ganho o euromilhões, que estamos sempre a optar, quer tenhamos muito ou pouco, quer façamos boas ou más escolhas. Sendo que as minhas escolhas depois de pensar bem, são apenas de coisas essenciais, nada mais.

Mas ao rever os meus últimos dias, em que passei muito mal com dores depois de uma cirurgia ao umbigo e à barriga, para corrigir defeitos resultantes das gravidezes e que no futuro podiam tornar-se sérios e complicados, ao rever esses dias, dei conta que não quero TER, quero ESTAR.

Quero estar com saúde e em paz com a minha família, o meu amontoado. Quero estar sempre bem para os ver crescer e serem as boas pessoas que tenho a certeza irão ser. Quero estar sempre presente para tudo o que precisarem e para isso preciso de saúde. E é por isso que a única coisa que eu peço no meu aniversário é estar com saúde. Só isso. Sem demagogias e melancolias. Só quero estar com os meus. Só isso. E os meus são os meus filhos, o pai cerejo, a ginja, a minha família, os bons amigos e é toda a gente doce que existe na minha vida. Só isso. Quero estar.