Às vezes, fico sozinha com os três em casa. Não acontece muitas vezes, mas às vezes tem que ser. Nem sempre sei o que vou fazer com eles nesse período, outras vezes preparo algumas actividades, porque entreter duas miúdas de quase cinco anos quando ao mesmo tempo se tem um bébé de 14 meses e uma cadela-que-diziam-que-ia-ser-pequena-e-já-está-quase-com-vinte-quilos, não é fácil. Uma coisa é certa: planear faz toda a diferença.

Acordo quase sempre mais cedo que toda a gente e vou adiantando aquelas tarefas chatas, como lavar a loiça, estender roupa, pôr roupa a lavar, arrumar alguma tralha, limpar xixis da cadela. Depois o pessoal começa a acordar e vão dizendo o que querem para o pequeno-almoço. Se não tiver pensado em nada, panquecas ou algo assim de especial, ponho tudo na mesa e elas escolhem. Depois vão brincar e cá por casa, brincam em todas as divisões. O miúdo já fica também a brincar no meio delas ou a fazer piscinas pela casa, agora que já anda bem e até já quer correr. Por vezes, dou-lhe a gaveta das caixas de plástico para se entreter. Eu vou andando por ali, a orientar várias coisas e como sou uma naba na cozinha, a verificar se há comida feita que é só aquecer, ou a fazer sopa e a escolher qualquer coisa rápida para o almoço. O Joaquim ainda dormita um pouco de manhã, antes de almoço, e nessa altura ponho-as a fazer alguma actividade. Uma das últimas vezes, estiveram a picotar desenhos. Outras vezes, vão fazer desenhos, ou colorir um livro, ou fazer bolas de sabão para a varanda. Depois, quando preciso de fazer mesmo o almoço, meto-os aos três no sofá a ver o iPad ou desenhos animados na televisão.

A refeição é quase sempre um pandemónio. O moranguito odeia ficar amarrado na cadeira da papa. Elas torcem quase sempre o nariz à sopa. Porque não está passada, porque tem couves, porque comeram na escola, porque, porque. Confesso que, às vezes, não tenho paciência para estar a insistir e nem sempre ofereço sopa. Desde que comam legumes ou salada, e a fruta no fim, está bom para mim. Depois, uma não gosta de cenoura cozida, a outra não gosta de ervilhas, uma não gosta de carne, a outra come a carne toda que houver, uma não gosta de kiwis, a outra come a fruta toda que houver, uma canta à mesa, a outra brinca com os talheres. O Joaquim enfarda tudo o que estiver à frente, mas tem que ser depressa que está com muita fome e puxa-me o braço para lhe dar a comida. A cadela toma posição em frente à cadeira do Joaquim, porque sabe que aquele é o lugar onde mais depressa vão cair bocados de carne ou massa ou batata, pois quando o Joaquim come sozinho, metade vai parar ao chão. Por um lado a vinda da cadela fui útil: é um aspirador com pernas e debaixo da mesa, agora está sempre limpinho. Eu como quase sempre tudo frio e os restos de cada um.

No fim do almoço, vão brincar os três e ficam em auto-gestão que eu tenho que orientar mais ou menos a cozinha para não ficar ainda mais caótica desarrumada. Vou brincar um pouco com eles, ou fico só ao lado deles a descansar vê-los brincar. No fim de semana da Páscoa, brincámos à caça ao ovo de chocolate com as pistas que fui deixando pela casa. Depois, vou deitar o Joaquim e elas ficam no sofá a ver um filme que já tinham escolhido. Vivam as gravações!

Nesta parte do dia, tenho sempre uma dúvida: insisto ou não para dormirem a sesta? Se é para dormir, de certeza que adormecem mais tarde, porque vão resistir e o Joaquim vai acordar a meio da sesta delas. E depois não vão ter sono à noite e vão deitar-se tarde. Se é para não dormir, tenho que as entreter com alguma coisa que não seja muito barulhenta, porque o mano está a dormir e também tenho que aguentar o final do dia com birras, porque não dormiram, mas depois tem a vantagem de adormecerem mais cedo e num instantinho.

Na última vez não dormiram a sesta e ficaram a pintar um cortinado para o quarto do Joaquim. Um cortinado muito antigo, que era meu do tempo da faculdade, em pano crú, sem piada nenhuma. Achei que ficava bem pintado por elas com canetas de tecido e foi entretém para quase uma hora. Quando o Joaquim acordou, ele também pintou uma parte.

A hora do lanche é normalmente desencontrada, a cerejinha J tem sempre muita fome (pudera, come pouco!), o Joaquim está sempre disponível e a cerejinha L como tem sempre muito que fazer, é a última a aparecer. Às vezes, quando tenho pachorra, faço caras de fruta para o lanche ou outro desenho e elas gostam muito. Em geral, são elas que põem a mesa para o lanche.

Quando está bom tempo, vamos para o campo andar de bicla, ou apenas correr a seguir ao lanche. Elas querem sempre ir de saia…eu deixo…Às vezes pedem para ir chapinhar ou escorregar na relva…eu deixo. A minha casa é logo ali…a máquina lava. Costumamos também ir apanhar florzinhas ao jardim ou pauzinhos no pinhal ou folhas…ou molas caídas na relva.

Regressamos a casa e, em geral, o pai cerejo já está e trata do jantar. Nesta altura, é hora da brincadeira ou de ir pintar para o sótão, ou brincar na casinha (é um buraco atrás da lareira do sotão que já esteve para ser transformado em alguma coisa, mas ainda não decidi em quê e confesso a falta de energia para isso…está lá, elas fazem o que querem daquele espaço). Na Páscoa, estivemos a colorir ovos cozidos neste período até ao jantar, porque estava a chover.

Depois de jantar, brincam ali um bocado, ou fazem recortes e colagens, ou conversam conosco, ou vemos um filme em conjunto e quando o Joaquim começa a ficar chatito, é hora de deitar.

Se estivermos os dois, eu vou deitar o Joaquim e o pai vai deitá-las a elas. Se estiver só eu, deixo-as no sofá a ver os vídeos e vou deitar o moranguito e depois são elas. Às vezes, querem adormecer comigo e vamos todas para a minha cama. E nestas alturas, nem sempre há história, mesmo que se deitem cedo como eu lhes digo que é a condição para eu contar história. Já pensei em meter a cama do Joaquim no quarto delas e dormirem os três no mesmo quarto. E o quarto que é do Joaquim passar a ser o das brincadeiras. Ainda ando a pensar nisto, mas esta ideia era boa para se deitarem os três ao mesmo tempo, ou seja, para elas se deitarem mais cedo e para todos ouvirem a história antes de adormecer. Ainda ando a pensar nisto.

E sabem por que escrevo este artigo? Porque tenho uma admiração imensa pelas mães (ou pais) que estão sozinhos com os filhos em casa, que são mães ou pais a tempo inteiro de vários filhos, que estão sozinhos vários dias seguidos com os filhos em casa porque o cônjuge está emigrado ou são divorciados, que não têm estrutura familiar de apoio para de vez quando terem ajuda. Porque os meus filhos são uns doces e portam-se muito bem. Mas também fazem birras e têm dias chatos e às vezes, estão insuportáveis. Porque os meus filhos cansam-me. Porque ao fim de dias com eles, eu preciso de estar sozinha comigo. Porque nesse tempo, não sou sempre a mãe que queria ser e berro muito.

Gosto muito de estar com eles e de os ver crescer todos os minutos da vida deles. Mas também gosto de descansar. E quando estou sozinha com eles, só descanso quando me apago junto com eles na cama. De rastos. Claro que o sorriso ou o abraço de cada um, me volta a dar energias. E também ser prática e desligada de algumas coisas ajuda muito. E pedir-lhes ajuda, dizer-lhes o que espero delas, o que preciso que me façam é essencial para elas perceberem o que têm que fazer.

E por isto tudo, cá vai um abraço forte a quem é mãe/pai a tempo inteiro. É muito bom, mas deve cansar…e deve ser muito compensador.