Pensei várias vezes qual a melhor forma de abordar este assunto. Queria escrever sobre as vantagens de educar os filhos ao ar livre, recordei vários momentos em que o ar livre, a rua e a Natureza estiveram em conjunto com o meu amontoado, com a minha família. E dei conta que essa presença constante não surgiu logo desde que as miúdas nasceram. Apesar de terem nascido com tempo quente, as minhas filhas não estiveram tão em contacto com a Natureza tão cedo quanto o meu mais novo. Pensei nas razões, tentei recordar esses tempos. E descobri que o medo é a principal razão para os pais não deixarem os filhos andar à vontade na Natureza desde bébés.

Ouvimos os famosos palpites “olha que estão com os pézinhos frios”, “olha que está vento”, “olha que começou a chover”. Ou “olha que tu cais”, “olha que tem bichos”, “olha que te sujas”. E nós pais estamos naturalmente formatados para proteger os nossos filhos e temos muito medo que apanhem doenças, que se aleijem, que se constipem, que apanhem sol.

Então resolvi partilhar a minha experiência de educação ao ar livre, vivendo em ambiente urbano, ou semi-urbano, vá.

A minha mudança interior deu-se quando comecei a ter menos euros disponíveis e percebi que se queria sair de casa, teria que apostar mais em piqueniques e menos em restaurantes, mais em parques e menos em shoppings, mais em passeios sem objectivo definido e menos em programas pagos. Muito ajudou também a ida para o JI das cerejinhas que valorizam o quintal como outro espaço igualmente importante quanto a sala (ou até mais). O meu processo de acreditar piamente nas vantagens do ar livre para a educação das crianças, solidificou-se quando as minhas filhas frequentaram a casa da mata integradas no programa Limites Invisíveis.

Estas são as minhas dicas para se tornarem pais despreocupados em expôr os filhos ao ar livre:

  • Como dizem os nórdicos “não há mau tempo, há má roupa”. Equipo a minha malta com jardineiras e casacos impermeáveis, galochas, roupa suplente no carro e vamos para o pinhal, parque, choupal mesmo que esteja a chover. Fez-me mais impressão a mim do que a eles andar à chuva, é apenas uma questão de hábito e eu até gosto, sinto-me muito mais livre do que andar com um guarda-chuva atrás, esse objecto irritante que nunca se segura em pé e só nos tapa a cabeça, pois ficamos todos molhados na mesma.

  • Quando está frio, opto por calças cardadas, casacos quentinhos e gorros, e saímos na mesma, piqueniquamos, a comida até parece que sabe melhor. E levamos sempre um termo com café quentinho 😉
  • Tenho sempre roupa suplente no carro adequada à época, incluindo calçado. E no Verão uma toalha de praia para o que der e vier, até pode servir de manta de piquenique.

  • Preferimos piqueniquar do que ir a restaurantes e nem é só pela questão monetária, é porque está toda a gente mais à vontade, os pais e as crianças, não incomodamos ninguém, os pais conseguem comer e conversar, é tudo muito mais relaxado…e saudável. Os nossos piqueniques vão desde panadinhos e comida fria, até arroz de frango ou feijoada (juro!). Serve qualquer coisa, desde que haja sempre fruta e palitinhos de cenoura.

  • Temos que nos concentrar na felicidade e sorriso no olhar dos nossos filhos quando chapinham numa poça de lama e não na sujidade com que ficam. A água lava e é só ter um alguidar ou saco à porta de casa para colocar a roupa e calçado encharcados, os miúdos vão directos para a banheira, tomam banho e já está. E passar a roupa por água na banheira antes de meter na máquina. Sim, alguma roupa fica encardida e com um aspecto sujo para o resto da vida. Mas não os vamos mandar para as poças com roupinha de domingo, pois não?

  • Fico muito feliz quando oiço pais no JI a dizerem “filho, como tu estás!” quando os vão buscar ao fim do dia. É sinal que estiveram a aproveitar o quintal, que brincaram na terra, que criaram, que se divertiram, que aprenderam.
  • Deixo-os apanhar materiais que a Natureza dá para fazermos criações em casa: paus, flores, folhas, pedrinhas, tanta coisa. E eles gostam mesmo é de descobrir os animais que por lá circulam.
  • Enquanto conseguirmos, a festa de aniversário das cerejinhas vai ser ao ar livre e claro, gratuita. Elas fazem anos em Maio, porque havemos de desperdiçar a oportunidade de fazer um  piquenique ou estar ao ar livre para nos irmos enfiar num sítio qualquer fechado? Mesmo o moranguito, quando voltar a ter festa de anos, que é em Janeiro, se não estiver a chover, terá direito a festa ao ar livre. Experimentem! Há imensos parques onde se pode fazer a festa, é só estarem focados nisso. Gosto muito de conhecer pais que também são desta onda 🙂

  • Gostamos muito de ir até à praia no Inverno. Há lá coisa melhor que estar à beira-mar a apanhar sol e a brincar na areia num dia de Inverno? Mesmo no Verão, naqueles dias em que está nublado, vamos à praia na mesma. Não andamos de biquini, mas aproveitamos a praia como nos outros dias.
  • Durante o ano, às vezes tomamos o pequeno-almoço com uma manta na varanda, aproveitamos o imenso relvado da nossa urbanização, vamos pintar com giz para os passeios (mais uma vez, a água, neste caso da chuva, lava). Fazemos o que podemos para estar fora de casa.
  • Se estiver vento e desagradável, piqueniquamos na mala do carro e é tão giro, experimentem que vão gostar.

  • Gostamos de visitar cidades em dias de Outono, principalmente ao fim do dia, em que a luz é tão bonita. Não precisamos de usar as férias para isso, basta um sábado à tarde. E todos os Outonos vamos pisar folhas secas 😉
  • Conhecer as espécies de árvores, cogumelos e flores, os animais, ter curiosidade como andam, o que comem, como se reproduzem, todas estas perguntas surgem naturalmente nas crianças que brincam ao ar livre. E constroem coisas com paus e folhas e sei lá mais o quê. Aprendem tanto sobre o mundo!
  • O ar livre faz abrir o apetite. Faz mesmo. Dá cá uma fome! Por isso, ando sempre com comida atrás de mim.
  • Só me falta mesmo dar-lhes a oportunidade de ver crescer os seus alimentos, semeados por eles; temos algumas ervas aromáticas na varanda, mas gostava mesmo de ter uma horta com muito legume e morangos e tal e coisa…
  • A roupa das minhas filhas está quase toda encardida de andarem com rabo e joelhos na terra. Tenho muito pouca roupa que se chama “para sair”…um ou outro vestido, pouco mais. Não gasto dinheiro nisso, simplesmente. Em boa verdade, quase toda a roupa dos meus filhos é herdada, mas mesmo que tivesse que comprar roupa, concerteza iria às lojas baratas abastecer-me de roupa para estragar no JI e no campo. Têm tempo para ter roupa lindinha e cara.

As vulgares constipações, as viroses, as ranhocas e tosses não se apanham por andar ao ar livre. A bicheza gosta de quentinho e humidade. Por isso é que ambientes fechados e quentes são propagadores de bactérias e vírus. Não é por uma criança chapinhar na lama que vai ficar doente. Aí não há nada a não ser terra e água. Por isso, no Inverno não se devem sobreaquecer os espaços. O truque é vestir mais roupa, mas não aquecer demasiado o espaço. E também não permanecer muito tempo em ambientes fechados. Devemos sair nos dias frios, agasalhados para não sentirmos frios, mas não ficarmos sempre fechados.

E no Verão, devemos apanhar sol, desde que sempre devidamente protegidos com protector solar com factor de protecção alto, sempre.

Nos países nórdicos, as pessoas saem, andam na rua, mesmo que chova. Caso assim não fosse, passariam o ano todo fechados em casa, porque está quase sempre a chover. E isso faz muito mal à saúde, física e mental. E não andam cá com guarda-chuvas atrás. E os bébés saem de casa desde cedo…para a rua, não é para os shoppings.

Espero que este artigo vos ajude a levar os vossos filhos mais para a rua. E a deixá-los aproveitar sem constrangimentos. Devemos correr, saltar, sentar no chão, apanhar ar, apanhar sol, disfrutar deste nosso país tão rico e tão diverso. Andaríamos todos muito mais felizes, de certezinha.