Fui à revisão. 6 semanas depois e lá estava eu para ver como estavam as minhas entranhas pós-parto e falar de planeamento familiar. Fui à revisão. E no dia anterior passei em revista o parto, este meu último parto. E fiquei um bocado afectada. A memória ainda está fresca, ainda cá andam muitas sensações daquelas horas.

O meu bébé parecia que ia ser grande. As máquinas e os técnicos diziam que sim, que as medidas da cabeça, do fémur, da barriga do cachopo faziam prever um bébé de 4kg. E como eu já tinha tido uma cesariana prévia, tinha assim indicação para outra. Mas hoje em dia quando se fala, ouve ou pensa na palavra cesariana dentro da maternidade, parece que estamos a pecar, a cometer um crime ou o caraças mais velho, tal é a pressão para reduzir o número de cesarianas. A gente ouve isso nas notícias, mas não me venham com coisas, também se sente pelos corredores e gabinetes da maternidade.

Esta jovem esteve a um passo de ser entrevadinha, pois que tem espinha bífida oculta que só descobriu quando, uns anos depois de ser delegada de informação médica, papar muitos quilómetros de carro e ter dores horríveis de costas, fez um rx e descobriu a bendita condição espinal. Ora, esta coisa coloca a epidural numa miragem, numa possibilidade que na realidade não existe, porque, apesar de ser compatível, das duas vezes nenhum anestesista se quis atravessar à frente dela para me dar a epidural. E deixam a decisão na mãe, ali, tapada com uma bata fina, a tripar com dores, vulnerável e com muito pouco neurónio a funcionar em condições. No parto das meninas fui ao engano, crente que haveria um anestesista capaz. Mas não. Um parto à antiga, sem epidural, cheio de dores, mas como a cachopa era pequena (a outra depois nasceu por cesariana…uma aventura, o nascimento das gémeas) nem me custou muito a fase da expulsão. Desta vez, voltei a ir convencida desse tal anestesista, qual ânsia pelo D Sebastião, e o dito clínico voltou a colocar a decisão em mim. Ora porra, EU TENHO DUAS FILHAS PARA CRIAR, pá, e parece que vem aí mais um, não posso arriscar complicações!!! E como diz um amigo, parti para a loucura.

Oito horinhas em trabalho de parto sem epidural! Oito horinhas com uns anestésicos que apenas me punham a dormir entre contracções, que as senti todas, todinhas. Bem como todos os toques. É uma violência! É preciso muita capacidade de abstracção para uma mulher não se sentir violentada…devia haver outra maneira para saber em que estado está a dilatação…é tão violento, tantas vezes…e sem epidural…chorei e berrei muito…uma mulher demora muito tempo a esquecer-se desta parte dos toques; como neste artigo, só pensava “meu rico pipi”.

O meu mau feitio veio ao de cima, disse que eu é que sabia o que estava a passar, disse para irem treinar toques para outro lado, e não estava a falar de futebol, implorei carradas de vezes por uma cesariana, gritei muito e só não cuspi em toda a gente porque estava deitada e não tinha poder de alcance. Fui muito má, mas não me conseguia controlar, caneco.

A fase da expulsão foi horrível, dolorosa, caótica, quase que não dava tempo para preparar a cama e a artilharia para o parto. Passo esta parte à frente, porque é mais do mesmo: berros, gritos, dores, por aí.

O Joaquim saíu, chorou imediatamente e senti-me finalmente livre daquele pesadelo. Confesso que foi isso que pensei: “acabou”. Não senti nada de felicidade por ser mãe outra vez…só por aquilo ter acabado.

Puseram-me o meu filho em cima, na barriga…desajeitado. Ele era tão grande (4050 gr) que, naquele momento, escorregou. Deitei-lhe a mão e a primeira coisa que lhe disse, foi “ó filho, porra!”. Muito romântico!

O pai cerejo foi atrás dele, disse que era muito bonito e parecido com a Laura. E eu perguntei “podemos ir embora?”.

Ainda sofri mais um bocado, por causa dos pontos que me doeram cumó caraças…sem epidural (esta gaja, a epidural, há-de ser sempre a minha miragem).

Por isto, custou-me muito ir à revisão. Voltei a reviver algumas das dores…mas vá lá, está tudo bem. Falou-se de planeamento. A loja fechou e tenho que escolher a melhor forma para garantir o fecho. E o sôtor perguntou se tinha dúvidas, eu disse que não e ele disse “é uma mulher sem dúvidas”. “Por acaso não é verdade, costumo ter muitas dúvidas, não sou como o Cavaco”. E do lado de lá dois silêncios de dois médicos internos, talvez por serem muito novinhos, um sorriso ligeiro da médica, talvez por ser próxima da minha geração, e um silêncio cortante do doutor, talvez por estar a entrar em assuntos que não são para ali chamados. Ainda bem que foi no fim da consulta. Eu e a minha mania de ser engraçadinha…

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(e só me vem à cabeça a música do Frozen que a cerejinha L passa a vida a cantar…Já passou, já passou!!!!)