Quero ser um bébé

Pensamentos que não quero que voltem

15 Outubro, 2014

Desde há uns dias que tenho estes pensamentos. Vão porque eu peço e voltam sem eu pedir. Hoje dormimos as três juntas. O pai cerejo foi para outra cama, que remédio. Pediram para adormecer na minha cama. E eu deixo. Estamos todos cansados e queremos descansar e queremos estar juntos. E a meio da noite acordo e é quando vêm estes pensamentos. Fico assim acordada a vê-las dormir. A Laura sempre de lado agarrada aos búbús e a Júlia quase sempre de barriga para baixo e de chupeta. Olho para as mãos delas e penso que afinal ainda são pequeninas, que ainda são os meus bébés. Olho para elas e fico feliz por ser mãe. Fico feliz por ter a sorte de partilhar a minha vida futura com as minhas cerejinhas. E depois vêm os tais pensamentos, os medos. A chuva que cai lá fora faz-me ter medo. Da estrada, de acidentes. Que se molhem e constipem mais uma vez. As minhas dores de costas constantes fazem-me ter medo. De não conseguir tratar das minhas meninas, de não poder brincar com elas, sair de casa e passear. De estar a ficar velha. As contas por pagar fazem-me ter medo de me faltar o dinheiro para a educação delas, para as calçar, para as alimentar, para vivermos. As notícias de que mais pais emigraram fazem-me ter medo de ter que ver o pai cerejo a ir para fora, porque neste país não se consegue ter família e ganhar dinheiro condigno ao mesmo tempo. O estado caótico da educação no nosso país faz-me ter medo de quando elas já não tiverem mais idade para estar no jardim-infantil. As conversas com a minha mãe ao telefone fazem-me ter medo. Da saúde dela, qua apesar de já ter resistido a três tumores, não é das melhores. As vezes que me lembro que berrei com elas fazem-me ter medo de não estar a ser boa mãe e de muitas vezes não conseguir fazer de outra maneira. Aquele sinal cor de café com leite que a Jú tem no pescoço faz-me ter medo das doenças das crianças. Aquela luz cor-de-laranja que às vezes teima em aparecer no carro faz-me ter medo de ficar parada no meio da estrada com as minhas meninas. A memória de um parto de gémeas difícil faz-me ter muito medo. Do parto deste pequenote que aqui anda há 26 semanas. Estes pensamentos fazem-me ter medo. Não fico toldada por eles, mas tenho-os muitas vezes. Sempre naqueles momentos a sós, nas insónias da madrugada que acabo por acalmar a ver programas de talento na televisão. E no outro dia, misturado com constipação e sinusite, tonturas e fome, tive aquilo que depois percebi ter sido um ataque de pânico…de morrer, de desaparecer, de deixar esta minha família que eu adoro. Acho que fiquei pior desde que sou mãe. Estou de todo…maldita chuva!

  • Responder
    claudia duarte
    16 Outubro, 2014 at 14:19

    Ora, deixa cá ver….
    Imagino-te velhota. A rir até ir às lágrimas. Rodeada dos sorrisos de quem mais gostas. As tuas meninas lindas e o teu terrorista um mimado pelas manas mais velhas. Olhas para elas e ficas felizes por serem mães. O pai cerejo após o sucesso do tasco gourmet que abriu, prepara-te com carinho belos jantares. Nunca emigrou. Tens os netos pelo colo e pela casa. Assim todos juntinhos, no lar que construíste.
    😉
    Xô medos.
    (Já agora partilho de alguns….muitos até)

    • Responder
      mamã cereja
      16 Outubro, 2014 at 21:58

      Ó pá, adoro!!! Gosto mesmo deste cenário, eheheh. Obrigada cachopa 🙂

  • Responder
    Angélica
    15 Outubro, 2014 at 23:14

    Acho que somos todas iguais.
    E medo de querermos tanto ser mães e não estarmos à altura? Medo de termos um milagre ao nosso lado e sentirmos que como veio pode um dia ir?
    E não é preciso chuva nem trovoada para esses pensamentos virem, basta um dia de sol, daqueles perfeitos que até parece mentira, e dou por mim a pensar: será mesmo verdade?
    E deixá-los ir com o vento, mas tal como o vento de vez em quando aparecem…

    • Responder
      mamã cereja
      16 Outubro, 2014 at 5:09

      Ultimamente tenho-os tido mais frequentemente…sim, o vento leva-os. Um beijinho querida!

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