Desde há uns dias que tenho estes pensamentos. Vão porque eu peço e voltam sem eu pedir. Hoje dormimos as três juntas. O pai cerejo foi para outra cama, que remédio. Pediram para adormecer na minha cama. E eu deixo. Estamos todos cansados e queremos descansar e queremos estar juntos. E a meio da noite acordo e é quando vêm estes pensamentos. Fico assim acordada a vê-las dormir. A Laura sempre de lado agarrada aos búbús e a Júlia quase sempre de barriga para baixo e de chupeta. Olho para as mãos delas e penso que afinal ainda são pequeninas, que ainda são os meus bébés. Olho para elas e fico feliz por ser mãe. Fico feliz por ter a sorte de partilhar a minha vida futura com as minhas cerejinhas. E depois vêm os tais pensamentos, os medos. A chuva que cai lá fora faz-me ter medo. Da estrada, de acidentes. Que se molhem e constipem mais uma vez. As minhas dores de costas constantes fazem-me ter medo. De não conseguir tratar das minhas meninas, de não poder brincar com elas, sair de casa e passear. De estar a ficar velha. As contas por pagar fazem-me ter medo de me faltar o dinheiro para a educação delas, para as calçar, para as alimentar, para vivermos. As notícias de que mais pais emigraram fazem-me ter medo de ter que ver o pai cerejo a ir para fora, porque neste país não se consegue ter família e ganhar dinheiro condigno ao mesmo tempo. O estado caótico da educação no nosso país faz-me ter medo de quando elas já não tiverem mais idade para estar no jardim-infantil. As conversas com a minha mãe ao telefone fazem-me ter medo. Da saúde dela, qua apesar de já ter resistido a três tumores, não é das melhores. As vezes que me lembro que berrei com elas fazem-me ter medo de não estar a ser boa mãe e de muitas vezes não conseguir fazer de outra maneira. Aquele sinal cor de café com leite que a Jú tem no pescoço faz-me ter medo das doenças das crianças. Aquela luz cor-de-laranja que às vezes teima em aparecer no carro faz-me ter medo de ficar parada no meio da estrada com as minhas meninas. A memória de um parto de gémeas difícil faz-me ter muito medo. Do parto deste pequenote que aqui anda há 26 semanas. Estes pensamentos fazem-me ter medo. Não fico toldada por eles, mas tenho-os muitas vezes. Sempre naqueles momentos a sós, nas insónias da madrugada que acabo por acalmar a ver programas de talento na televisão. E no outro dia, misturado com constipação e sinusite, tonturas e fome, tive aquilo que depois percebi ter sido um ataque de pânico…de morrer, de desaparecer, de deixar esta minha família que eu adoro. Acho que fiquei pior desde que sou mãe. Estou de todo…maldita chuva!