Quero ser um bébé

Pensamentos de uma mãe quarentona

11 Maio, 2017

Num grupo de mães, alguém se abespinhou com um comentário meu. Talvez com alguma razão, porque eu fui fazer um comentário quando o que a pessoa pediu foram ideias. Talvez a pessoa tenha percebido mal o meu comentário, às vezes lemos e interpretamos mal, mas eu já dei para o peditório de me estar a justificar e para não continuar a haver mal-entendidos, apaguei o comentário.

Nisto dei por mim a pensar que género de mãe sou eu. Se o que sou, o devo à mãe que tenho, aos exemplos que fui vendo. Se o que tento ser como mãe, o devo aos conselhos das amigas, ao que vou lendo, ao que vou recebendo dos meus filhos. Não cheguei a uma resposta. Acabei a tentar perceber se a idade, o ter sido mãe depois dos quarenta, me influencia de alguma forma.

Aos quarenta já tenho uma grande dose de vivências e acontecimentos. Aos quarenta já tenho muitas amigas que foram mães perto dos trinta e com as quais convivi quase sete anos, em que elas eram mães e eu queria ser mãe. Aos quarenta vivo num século em que se fala e se discute a parentalidade com interesse, dedicação e sobretudo com consciência. Aos quarenta já trabalhei muito, conheci muitas pessoas, viajei, encontrei, descobri, desiludi, fiquei desiludida, encantei-me, perdi, sonhei.

Feita esta análise, penso que a mãe que sou tem algo a ver com a idade que tenho. Ser mãe aos quarenta não será igual a ser mãe aos trinta. Simplesmente porque a vida aos quarenta não é igual aos trinta e o pensamento e forma de estar na vida, mudam alguma coisa, mesmo que ligeiramente.

Aos quarenta estou-me borrifando para o que pensam de mim. Claro que gosto de agradar aos amigos e gosto de ter um ar simpático e bem disposto. Mas não mudo o que penso só para agradar aos outros ou porque parece mal se não fizer igual.

A maternidade é a fase da vida onde mais ouvimos palpites, bitaites e opiniões. E até gosto de pedir ajuda e saber o que pensam as pessoas quando eu não tenho certezas ou não faço mesmo ideia do que fazer. Há sempre gente a querer ajudar de forma genuína e sem julgamentos e, muitas vezes, humildemente reconheço os meus erros e volto atrás nas decisões, com base em conselhos. E eu, que até tenho um blog onde partilho algumas estratégias, fico contente quando ajudo alguém, quando alguém me diz nunca tinha pensado nisso assim. E também fico contente quando alguém me diz que não concorda comigo e defende o seu ponto de vista. Porque apesar de dar palpites, longe de mim julgar as mães que sabem sempre, SEMPRE, o que é melhor para si e para os seus.

Acabei por perceber o que defendo para todas as mães: pensar pela sua cabeça e não se deixar levar por modas, diz-que-disse, olhares, julgamentos e impressões. Aproveitar os conselhos de outras mães e pais, experimentar, pedir ajuda, ouvir. Ter a capacidade de olhar primeiro para si antes de pedir algo aos filhos. Decidir por si e não pelos demais. E não cair na tentação de julgar os outros.

O que os quarenta me trouxeram foi alguma serenidade e perspicácia. Também muitos cabelos brancos. Aprender a observar com calma. E sobretudo descobrir que os meus filhos não precisam de ter coisas, de colecionar coisas, de ter e fazer o mesmo que os outros. Eles só precisam da presença dos pais, plena e carinhosa. Como dizia uma amiga “mais presença, menos presentes”. E isso aprendi com o tempo, em quase seis anos de maternidade, a abrandar o ritmo, a aproveitar os meus.

O que eu queria dizer àquela mãe é que os outros vão sempre fazer coisas diferentes de nós. E só porque é hábito não devemos entrar na mesma onda, se antes achávamos que não fazia sentido. O que eu quis dizer àquela mãe é que não faz mal pensarmos pela nossa cabeça, mesmo que isso signifique fazer o contrário de todos os outros.

Os meus filhos vão ouvir-me dizer isto sempre até ao fim dos meus dias, mesmo que revirem os olhos e digam em todas as vezes: “Já sabemos! Temos que pensar pela nossa cabeça, estás sempre a dizer isso, ó mãe!”

(para que conste, este desabafo é uma mixórdia de pensamentos sem nexo, ligação e oportunidade nenhuma, escrito já muito tarde e a sofrer com as mazelas de uma mãe quarentona, que nesta idade uma pessoa não aguenta bem três noites seguidas mal-dormidas e dá-lhe para a parvoíce)

  • Responder
    Ligia Fernandes
    11 Maio, 2017 at 18:17

    O “ona” não existe! Você é simplesmente uma mãe. Eu fui uma mãe “vintona” de 4 filhos e tive os mesmos sentimentos que aqui expressa. Mas vou contar um segredo: tudo tem um lado posituvo e negativo. Por ter tido os filhos cedo, muito cedo me senti mais velha. As minhas colegas quarentonas, que tiveram os filhos mais tarde, pareciam mais novas do que eu. E eu já quarentona apetecia-me ter um bebé. Queria encaixar naquele grupo!

    • Responder
      mamã cereja
      15 Maio, 2017 at 23:19

      Oh, obrigada por esta perspectiva, um grande beijinho!

  • Responder
    Edien Mar
    11 Maio, 2017 at 17:54

    Uma excelente parvoíce!!! Adorei o texto.
    Eu também procuro, todos os dias (uns com mais sucesso que outros) pensar pela minha cabeça, mais concretamente, agir de acordo com aquilo que acho certo e não com aquilo que acho que vai ser, ou não, bem aceite. Aos meus filhos ensino-lhes isso desde sempre (mesmo que eu, por vezes, não o faça…) , pensar por si mesmo e não deixar que o que os outros pensam de nós nos defina… Beijinho

    • Responder
      mamã cereja
      15 Maio, 2017 at 23:18

      Tentamos todos os dias mais um pouco, obrigada!

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