Tinha tudo controlado. Pijamas vestidos, roupa para o outro dia arranjada, marmita feita, máquina de roupa a lavar, cozinha arrumada. Ia conseguir deitá-los cedo, antes das dez, para variar. Achava eu que eles tinham sono. Achava eu que iam adormecer num instante e poder ficar a organizar a roupa, a ver as minhas papeladas ou estar simplesmente um pouco no sofá.
Mas ele não sossegava por nada, ela tinha fome e pediu uma bolacha, a outra tinha calor, queriam conversar e eu só queria que dormissem. Fui buscar a bolacha para uma, tirei as calças à outra, expliquei que era hora de dormir, que no dia a seguir era bom acordar cedo para eu chegar cedo ao trabalho e fazermos alguma actividade ao fim do dia, tudo enquanto ele fazia piscinas entre as camas das manas a dar beijinhos de boas noites e elas a rirem.

Tinha tudo controlado até deixar de o ter. E até perder a paciência. Gritei que era hora de dormir, tapei-as, dei-lhes um beijo à pressa e fui deitar o mais pequeno. Ele não parava quieto, tive que me deitar com ele na minha cama para o controlar, adormeceu e eu também.  A meio da noite, acordo com uma a chorar, que estava toda mijada. Levantei-me a correr, tirei-lhe a roupa, lavei-a com uma toalhinha e àgua quente, vesti-a, dei-lhe muitos abraços, meti-a na minha cama junto ao mano e ao papá, e fui mudar a cama dela. Meti toda a roupa molhada na banheira e deitei-me na nesga de espaço que ainda sobrava na minha cama. Tinha tudo controlado.

De manhã, no banho, pensava como teria sido a minha noite se não tivesse filhos. Teria ficado a ver séries na fox-qualquer-coisa, ter-me-ia deitado tarde, poderia ter feito o amor, teria acordado fresca e sem cheiro a xixi em roupa de cama. Saíria de casa a horas, sem um ar esbaforido, sempre de brincos e anti-olheiras, sem ter gritado um segundo e com tudo controlado. E depois imaginei mais noites e dias da minha vida sem filhos e comecei a aborrecer-me com os meus pensamentos.

Provavelmente, teria viajado um pouco mais, teria um pouco mais de roupa sem remendos e actual, teria visitado mais amigos, teria conhecido um pouco mais de restaurantes, teria namorado mais, teria discutido um pouco menos, acordaria um pouco menos cansada, teria menos estrias e menos barriga.

Não teria tanto barulho em casa, não haveria tanto cotão para limpar, a minha casa estaria muito mais organizada, teria menos tralha espalhada, comeria qualquer coisa a qualquer hora, passearia mais pelo shopping só para ver as montras, não teria caixas e caixas de roupa que já não serve, roupa para dar ou devolver, roupa guardada para as próximas estações, teria um pouco menos de olheiras.

Teria muito mais dinheiro, muito mais tempo livre, muito mais liberdade. Teria muito menos medos, muito menos ansiedade, muito menos preocupações.

Por fim, percebi que a minha vida sem filhos seria apenas isso, um pouco mais ou um pouco menos de qualquer coisa. Um tanto mais ou um tanto menos de alguma coisa. Seria apenas isso, um pouco ou um tanto.

Porque sem filhos, a minha vida não seria tão feliz, preenchida, caótica, doce, carinhosa, especial, esgotante, revigorante, mágica, simples e tão nossa, como é com filhos.