Não sei bem descrever por palavras o que quer dizer ter uma filha sensível. Ela é muito mais intuitiva que eu e ligada às coisas e pessoas. É muito menos despachada que a irmã, mas é muito mais atenta. Ter uma filha sensível é um desafio diário para mim que tenho uma personalidade muito mais prática, despachada e acelerada do que ela. No entanto, agradeço-lhe muito ajudar-me a reparar em certas coisas e a dar mais sensibilidade à minha vida, a questionar mais e a ver a vida com outros olhos.

Exemplos:

Ela fala muitas vezes em morte e nas histórias que inventa, há sempre algum boneco que morre. E num destes dias perguntava ao pai:

J – Quem vai morrer primeiro, tu ou a mãe?

Respondemos que não sabíamos, mas que isso só ia acontecer quando fossemos muito velhinhos. Confesso que este tipo de perguntas me arrepia muito, eu sou muito medrosa…


A conversa girava à volta de namorados. Uma galhofada geral.

J – Eu não vou ter namorado.

Pai – Um dia vais, um dia vais achar um rapaz giro e vais gostar dele e querer namorar com ele.

J – Não, não, eu não vou ter namorado.

Eu – Mas porquê? Ter um namorado é uma coisa boa.

J – Eu vou casar com uma menina!

 

E assim esta miúda de quase 6 anos nos faz ver que, sem darmos conta, acabamos a dizer as mesmas coisas e que ela pode, se assim quiser, namorar com uma menina.


Durante a votação do festival da canção, depois de vários países terem dado os seus 12 points a Portugal, ela disse-me:

J – Mamã, eles estão a acreditar em Portugal!

 

Esta minha filha diz coisas tão acertadas!


Ontem, ao pequeno almoço, pediu para se sentar ao pé do irmão. O moranguito comia sozinho cereais com leite. Ela estava parada a observar o irmão com um sorriso nos lábios.

J – Mamã?

Eu – Sim, filha.

J – O Quim Quim parece ter 3 anos.

Eu – Porque dizes isso?

J – Porque ele está muito crescido!

 

Ela tem um dom especial para tratar, brincar, conversar e entender-se com crianças mais novas, é tão adorável que me enche o coração.


É de facto muito bom ter uma filha assim, tímida e sensível. Também tem os seus momentos irrequietos e faz muitas birras. Mas ela não é apenas calada, ela é observadora e sobretudo intuitiva, tem qualquer coisa a minha pequena. E consegue comunicar com os adultos quase não falando, o que é muito interessante, como daquela vez em que falou de si e sobre si à educadora, através de um desenho e da história que inventou à volta dele, nunca dizendo que estava a falar de si própria…até chorei quando li este relato.