Parece que destralhar está na moda. E o desapego também. Aqui esta jovem não era assim. Antigamente era daquelas que guardava montes de coisas:  todos os bilhetes de cinema, teatro, dança e música onde fui desde os meus 16 anos; os programas de todas as peças de teatro que vi desde sempre; os convites de todos os casamentos onde fui; os apontamentos de todas as cadeiras do curso; revistas da tele-culinária; recortes de revistas de coisas que achava interessante; revistas de viagens e de decoração aos pontapés; e mais um sem número de coisas.

Imaginam então, a tralha, sim, a tralha que tinha em casa. E para quê? Os bilhetes em geral só fazem referência ao nome do espectáculo e não são bonitos. Os programas até que são giros, mas para que vou eu usar a informação que lá está algum dia? A maior parte dos casamentos onde fui, já está tudo divorciado e se tenho fotos do casório para que raio vou eu guardar um bocado de papel com a data, hora e local do casório? A ciência tem mudado tanto e a internet tem tudo o que eu tinha nos apontamentos da faculdade com mais de vinte, vinte, anos!!!! Eu, a super-naba da cozinha, a guardar revistas de culinária, quando a única coisa que preciso é de livros com receitas prá Bimby e mesmo essas encontro-as na net ou peço às amigas. Recortes de porcarias que já não existem só porque eram engraçadas. Revistas de decoração quando a única coisa que quero é funcionalidade a preços baixos (Ikea, amigo, esta jovem está contigo!). Revistas de viagens onde os locais para comer ou ficar já não são os mesmos ou nem sequer tenho a mesma motivação para viajar que tinha há uns anos. Portanto, tralha e mais tralha.

E quanto à roupa? Calças que não me servem para o caso de um dia emagrecer. Casacos que foram caros para um dia usar se se voltarem a usar. Roupa de trabalho para se tiver um evento formal. Vestidos de cerimónia para quando voltar a ter um casamento. E para quê? Não vou voltar a ter a cintura de vespa que tinha nos tempos da faculdade. As únicas calças que guardei, foram umas de fato, largas, que passaram de moda e transformei-as em saias. Os casacos metem pena, mas no fundo, a malta anda sempre com os mesmos e não precisa de tanta quantidade, um ou outro mais apertado, mudei os botões de sítio e já apertam outra vez. Roupa de trabalho, medo!!!! Nunca mais! Chega de fatos e outras coisas do género, uma pessoa pode ser formal sem ser igual a todos os outros, digo eu. Voltar a ter um casamento? Na! Já não tenho amigos que se casem e, sinceramente, até peço que não me convidem porque não tenho orçamento para dar prendas de casamento e não tenho onde deixar a canalhada e também não me apetece ir com os putos todos atrás. Eu agora é mais convites para festas de aniversário dos filhos dos amigos e está bom.

E serve este palavreado todo para vos dizer como faço eu para destralhar. Há várias correntes e vários gurus, uns mais radicais que outros, uns mais do meu género que outros. Quando comecei nesta onda do destralhanço (não julguem que sou assim muito freak do destralhar, porque ainda tenho alguma tralha que ainda não andou, mas estou no bom caminho), usei a máxima “tudo o que não uso há mais de um ano é porque não é preciso” para me orientar. E foi o melhor que fiz! Juro-vos, é libertador, uma pessoa fica mais leve e pensa e faz melhor. Hoje adopto também algumas coisas que a Marie Kondo defende, como por exemplo, destralhar por temas, ou seja, não destralhar uma divisão inteira de uma vez, mas começar pelo armário da roupa, depois a sapateira, a gaveta dos talheres, a gaveta da entrada, os livros, o móvel da casa-de-banho, as ferramentas, os brinquedos, a roupa dos filhos, os brinqueos de praia e por aí fora. É muito mais eficaz, porque destralhando um divisão inteira, há sempre coisas que encontramos que ainda não têm lugar/destino atribuído e vão para mais um monte que vai acabar por ficar por ali. Depois, também faço uma escolha das coisas que são para o lixo/reciclagem, o que é para dar e o que é para vender. E decido logo o destino das que são para dar e no dia a seguir, no máximo, têm que andar da casa. A Marie Kondo também defende que nos devemos despedir das coisas, olhando para elas e perguntado “ainda me fazes feliz?”, recordarmos os bons momentos com essas coisas e depois xau-xau.

(esta prática, em conjugação com a do não uso há mais de um ano, pode ser perigosa para os casamentos, não vá uma pessoa na maré do destralhamento, olhar para o/a companheiro/a e verificar que já não a faz feliz e não lhe dá uso há mais de um ano…e tal e coisa…ahahah…)

E agora, algumas dicas por temas:

  • Brinquedos – as crianças têm brinquedos a mais! É uma evidência! Mesmo os meus que partilham tudo e que recebem pouca coisa, têm brinquedos a mais. O que fazemos no cerejal é seleccionar duas vezes por ano, aniversário e Natal, os brinquedos que vamos dar e a quem. Geralmente, escolhemos uma instituição de apoio a crianças e também damos para as escolas dos miúdos. Os brinquedos que estão partidos ou irremediavelmente avariados vão para a reciclagem. Pedimos, ou melhor, eu peço às amigas que destralhem brinquedos para nós e assim passam a ser a prenda de aniversário ou de Natal das crianças do cerejal. Os meus miúdos não se importam nada e a casa das minhas amigas, agradece 😉 Uma dica para esta tarefa: não limpem o dito brinquedo num dia em que as vossas crianças estejam em casa, mesmo que a dormir a sesta, porque uma delas vai começar a chorar e vocês abandonam o brinquedo herdado na mesa, esquecem-se dele e umas horas mais tarde têm uma filha a gritar “O QUE É ISTO?” e vocês têm que mentir dizendo “é uma coisa que a mamã está a embrulhar para dar à filha de uma colega de trabalho”. MAS QUEM? E vocês continuam a mentir “tu não conheces!”. Conselho de amiga! Temos tendado apostar em brinquedos duradoiros e que sejam utilizáveis também pelo moranguito. A rotatividade dos brinquedos também ajuda muito para que a casa não esteja atafulhada com cenas dos miúdos. Mesmo assim, quando eles resolvem infestar as divisões todas com brinquedos, parece que vou dar em doida.

quarto

  • Roupa nossa – desde há uns anos para cá que comecei a ter mais consciência ecológica e faz-me espécie o impacto ambiental que a produção de roupa tem no mundo. Sempre fui mais de comprar pouco e bom, do que muito e barato. Por um lado ando sempre com as mesmas coisas, mas por outro não perco tempo a decidir o que vou vestir e não tenho roupa parada no armário que não visto há que séculos, porque simplesmente não a vejo. O que tenho feito é despachar roupa que já não serve ou que está absurdamente fora de moda. Só está a ocupar espaço. Tal como o calçado. A ligação emocional à roupa fica por terra assim que a tento vestir e me faz ver que nunca mais vou pesar o que pesava antes de ter crianças, nem ter a barriga lisa que tinha. Por isso, antes que apanhe uma depressão, a roupa que não serve vai embora. Alguma roupa foi reciclada; calças largas passaram a saias, túnicas descosidas foram encurtadas, calças de ganga rasgadas foram remendadas, camisolas com nódas foi-lhes aplicado o melhor tira-nódoas – canetas de tecido e mãos de filhas talentosas para o desenho, colarinhos de camisas foram virados, por aí. Sei que há imensas lojas com roupa barata, mas podendo parecer um bocado pedante, não são para mim. Simplesmente porque não sou de contribuir para o consumismo desenfreado e para a poluição mundial, só por isso. Aquela roupa que está mesmo muito rasgada, desbotada ou quase a desfazer-se, é cortada e transformada em panos multi-usos para a casa. Ah, e as calças de ganga de grávida foram à costureira e transformadas em calças normais 😉 A organização das gavetas é muito importante, mas ainda não aderi à organização na vertical como fala a Kondo…não estou convencida.
  • Roupa dos filhos – quem nos segue sabe que o cerejal é o depósito de roupa usada dos filhos dos amigos. Muito agradecemos, porque fazems bem uso dela. No fim de vida, essa roupa regressa às origens ou vai ser emprestada a outras crianças de amigas ou damos as insituições que precisem.  Sim, a roupa herdada ocupa espaço lá em casa, mas é por uma boa causa, e está guardada em caixas etiquetadas. Neste campo, o destralhanço não parece ser muito eficaz porque há sempre sacos e saquinhos de roupa a circular pela casa, mas não há outra forma. Apesar de haver imensa roupa em casa porque somos muitos, temos tudo organizadinho e a minha malta é que vai buscar a roupa sozinhos. Está tudo ao nível deles.

  • Loiça/eletrodomésticos – vá confessem lá, quantos serviços têm em casa e usam sempre os do dia-a-dia??? E quantas chávenas de café? E açucareiros? E loiça desermanada? E pratos lascados? Para quê? Foi um processo longo, mas hoje em dia a minha cozinha tem o mínimo essencial para nunca deixarmos de ter pratos e talheres disponíveis, 12 de cada e não temos nenhum serviço extra, nada! Quanto aos eletrodomésticos, há uma coisa muito boa chamada electrão nos hipermercados para reciclar aquelas porcarias meias estragadas ou sem qualquer utilidade. Apesar desta forma de estar, quando um aparelhómetro avaria, o pai cerejo desmonta aquilo tudo a ver se tem arranjo, compra as peças e fica como novo. Assim foi com a máquina de lavar a loiça e a da roupa.
  • Detergentes e produtos de higiene – este é dos pontos que mais vontade de rir me dá quando me lembro que era daquelas pessoas que tinha mil um tipos de detergentes. Para o chão mosaico, para madeiras, para os vidos, para a pedra mármore, para o fogão, para a banheira, para as juntas, para a roupa escura, para a roupa de cor, para a roupa delicada, para bébé, amaciador, tira-nódoas, sabão azul, desengordurante, detergente em pastilhas, abrilhantador, lixívia com e sem detergente, vinagre de limpeza, panos e paninhos, esponjas e esponjecas, esfregonas, vassouras, mini-aspirador, pano do pó, espanador do pó, mopa, líquido para o aspirador, aroma para o ferro…até estou cansada e sobretudo enojada com a quantidade doida de embalagens que usava e deitava fora. Agora há um detergente para a roupa, não há amaciador, um detergente para o chão, outro para os vidros, outro para a casa-de-banho, outro para o fogão. Pano do pó não há, uso o aspirador, uma esfregona boa, panos multi-usos de roupa que se estraga, detergente para a loiça e mais nada. E se pudesse ir a uma loja encher as embalagens com os ditos produtos sem ter que estar a comprar novamente uma embalagem, era o ideal para mim. Ando a pensar naquelas receitas de fazer detergentes em casa…ainda não percebi se compensa.
  • Despensa – ui, outro antro de tralha, sendo que neste caso, é daquela que se estraga, ganha bicho, bolor e dá mau cheiro. Por isso, optámos por não fazer celeiro, só compramos o que precisamos quando se gasta quase o que está na despensa, as coisas estão todas à vista e há pouca coisa atrás umas das outras para não ficarem para lá esquecidas, de vez em quando verifico os prazos de validade. Assim evitamos duas coisas: desperdiçar comida e ouvir uma mãe a praguejar, porque aquilo custou os olhos da cara e agora vai para o lixo. Mesmo as crianças sabem que às vezes não há determinada comida, porque temos que comer a outra que ainda temos na despensa…é a vida, meus amigos, parece chato, mas eles aceitam bem, sem dramas.
  • Atoalhados – outro mundo, eheheh, a quantidade absurda de toalhões, toalhas e toalhinhas que uma pessoa tem. Para quê??? Eventualmente, ter uma a mais para cada membro da família, vá, duas, para os meses de inverno que a roupa demora a secar. E lençóis? Em boa verdade, dois chegam, mas pronto lá por casa, como ainda há gente pequena e descuidada, temos mais por causa dos xixis nas camas que possam acontecer. Mas pouco mais. E que esse género de coisa, ocupa imenso espaço.
  • Ferramentas – nesta campo confesso que tenho tendência a despachar montes de coisas, as quais não faço a mais pequena ideia para que servem e têm mais ar de objecto de tortura do que de ferramente útil. O pai cerejo é que toma conta desta secção, deitou fora algumas ferramentas daquelas que são muito baratas e muito más, mas ainda assim guarda muitas coisas e eu até concordo, porque a caixa das ferramentas atoladinha já nos salvou várias vezes de ficarmos sem máquina da roupa ou da loiça.
  • Material de informática/telemóveis – credo!!! O pior cemitério lá de casa!! Só para que saibam a catrefada de cabos, cabinhos e cabetas, telemóveis e carregadores, bocados de computadores, coisas que desafiavam a minha mente a tentar perceber donde raio saiu aquilo, encheram…preparem-se…4 sacos daqueles dos hipermercados, 4!!!!! Aquilo não serve para absolutamente nada, nada!
  • Papelada – aproveitando o item anterior, nesta campo foram despachados 12, sim 12, sacos para o papelão. Comecem na vossa casa e depois digam-me se chegam ou não a esta marca, mas vai tudo, tudo, guardam apenas os documentos originais e absolutamente importantes, o resto mandem embora. Tem duas vantagens: ganham espaço e ficam com menos papelada a ganhar pó e bicho da prata.
  • Livros – este artigo custa muito a destralhar, muito. Mas comecem pelo mais fácil. Por exemplo: livros que vos deram num evento qualquer comemorativo do centenário da colectividade de vila nova do disparate, catálogos do ikea de mil nove e troca o passo, mapas de cidades de outro século, livros que vos deram no trabalho que assim como assim não vos fazem felizes nem nunca vão consultar, livros em duplicado. Procurem uma biblioteca local ou nacional e façam um donativo desses livros. Os restantes deixem ficar. Livros são livros. Não os considero tralha.
  • Ficheiros no computador – o espaço no disco até pode ser infinito, mas a nossa capacidade de orgaização é que dita o bom uso do espaço e sobretudo do tempo que passamos agarrados ao computador. Eu tenho pavor a acumular ficheiros desactualizados, por isso, sempre que tenho um tempito, toca de mandar para o lixo tralha virtual, siga!
  • Fotografias digitais – estamos na era do digital, não há volta a dar e estamos também na era do “tira várias fotos que o cartão tem espaço e alguma há-de ficar bem”. Depois descarregam-se para o PC e nunca mais são seleccionadas, sendo que as boas acabam por ficar misturadas com as que não estão nada de jeito e quando queremos alguma foto para enviar a alguém , perdemos imenso tempo a passar fotos que não estão ali a fazer nada. O mesmo acontece com as que tiramos com o telemóvel, acumulamos fotos que estão assim-assim e não as seleccionamos. Outra coisa que deveríamos fazer é, quando descarregamos as fotos, organizá-las imediatamente, por data, por tema, por evento, por pessoa, whatever, mas organizar de alguma forma. Parece dar trabalho, mas se for feito em cada descarregamento, não é assim tanto trabalho.
  • Coisitas – eu não sei como é em vossa casa, mas na minha o que mais há são coisitas! Debaixo do sofá, na carteira da mãe, nos bolsos dos casacos, no meio dos brinqueos, nos móveis todos, nos cantos das divisões, nas gavetas das cuecas, nas mochilas, no móvel da entrada, basicamente EM TODO O LADO!!! Ora, criei uns potes em várias zonas da casa onde vou pondo essas benditas coisitas que são normalmente peças soltas de brinquedos ou puzles, puxinhos, ganchos, bocados de coisas, material das manualidades, para um dia agarrar naquilo e arrumar nos sítios certos. Às vezes, essas coisas passam a fazer parte da caixa das peças soltas ou em estrangeiro “loose parts” que depois são usadas para o que quiserem. Confesso que algumas vezes já despachei peças soltas das pin y  pon, aqueles micro-acessórios, para o lixo em vez de irem para o pote…no meio do barulho das luzes ninguém dá conta que aquilo desapareceu.

jóias

  • Garagem – neste ponto, confesso que se aplica a expressão fala o roto para o nú, porque nós costumamos destralhar muitas vezes para a garagem , o que não é um verdadeiro destralhanço, é apenas mudar de sítio.

Explico-vos a minha dificulade: é que tudo isto de que vos falo é feito com três crianças de volta de nós e, portanto, nunca se faz tudo assim seguido para que o destralhanço seja mais eficaz. Porque não se iludam: destralhar dá trabalho e cansa, é preciso querer mesmo muito e que sejam ambos os membros do casal a querer. Mas o resultado final compensa muito, algum minimalismo à nossa volta é salutar e dá-nos espçao físico e mental. Encontrem o vosso motivo para destralhar, deixo-vos vários:

  • mudança de casa
  • um filho a caminho
  • espaço para colocar secretárias e cadeiras para a entrada na escola primária (este foi o nosso motivo)
  • tornar a limpeza da casa mais simples e rápida
  • vender as coisas para ter dinheiro para viajar
  • pintar a casa
  • respirar

Bom destralhanço!