Leio muitas vezes, em grupos de mães no facebook, pedidos de conselhos sobre pediatras. É o tipo de post, em geral, mais participado (a par com pedidos de sugestão de sítios para fazer o baptizado e onde arranjar as lembrancinhas e vestidinhos e tal e coisa). Bom, mas voltando ao assunto da escolha do médico para seguir os nossos filhos…é um assunto delicado, no meu entender. Vou contar-vos como fiz.

As cerejinhas tinham nascido às 35 semanas, prematuras, por pouco. Eram uns franguitos, uma fartava-se de bolsar ( o termo certo é vomitar em jacto, tipo exorcista, estão a percebr, não estão?) e a outra só queria colo. Ainda na maternidade, comecei, também eu, não num grupo no facebook, mas em conversas com amigos, a pedir conselhos sobre pediatras. Ouvi carradas de opiniões e lá me decidi. Devo dizer que, mesmo às cegas, foi a escolha acertada. Ao fim de seis anos, consigo agora perceber que a escolha do médico depende muito daquilo que nós pretendemos enquanto pais e somos enquanto pessoas, pois também na medicina há várias correntes, estudos e orientações, sendo que variam de médico para médico, como é natural. O nosso pediatra cedo se mostrou muito ao nosso género, terra-a-terra, descontraído, com orientações para respeitar os ritmos da criança, sem pressas, sem pressões. Lembro-me de, na primeira consulta, tinham as cerejinhas um mês, ele estar com a Jú nos braços e estar a falar com ela, para ela, nos olhos dela, e ao mesmo tempo estar a dizer-nos como iriam ser as próximas semanas de vida e o desenvolvimento, o que era suposto esperarmos. E a garota, ainda sem ter dois kg de gente, estar absolutamente fixada no seu olhar, parecendo que o estava a perceber. Recordo com um sorriso aquela frase que ele tanto repetia “tu és muita linda!”. Foi revelador! Ele disse “a mãe e o pai têm que falar muito com esta criança, têm que conversar com ela, como se estivessem com um amigo, têm que lhe olhar nos olhos, comunicar com ela”…fiquei com esta máxima para a vida!

Outra coisa que ele nos disse, na fase da diversificação alimentar e que eu adorei, foi “agora é para dar os legumes todos da horta da avó”, sem fazer um esquema exaustivo de que alimentos introduzir e por que ordem, deu orientações para vigiar durante 3-4 dias a ver se ocorriam alergias, mas pouco mais (tirando a questão do ovo, dos morangos e das favas, não me lembro de a coisa ser assim muito rígida). Foi o tipo de orientação muito ao nosso estilo, nada de stresses, tudo muito natural sem esquemas, logo se via.

Não insistiu comigo na questão da amamentação, porque percebeu que para mim aquilo era uma prisão e me punha doida, o que demonstra ser uma médico preocupado com as crianças, mas também com a saúde mental das mães…é que ter uma mãe doida de todo a amamentar, é bem pior que dar leite adaptado desde cedo, e ele percebeu isso muito bem.

Deu algumas orientações para tentar que a cerejinha L adormecesse na cama dela e não ao colo, sempre connosco ao seu lado na cama, nunca falou naquelas teorias de deixar o bébé chorar cada vez por períodos maiores até se adaptar (credo!!!), por isso, também neste aspecto, estava no mesmo comprimento de onda que nós.

Assim, nos primeiros quatro anos de vida das cerejinhas, tivemos pediatra e confiámos em absoluto nele. Era um parceiro.

Quando nasceu o Joaquim, ainda lá fomos duas vezes, mas o puto sempre esteve tão bem e dizia-nos “estes pais já têm um doutoramento, já quase não precisam de mim para nada”. Decidimos, uma vez que deixámos finalmente de pertencer ao chamado “ficheiro sem médico”, passar a ter apenas médico de família para os três, e não nos arrependemos da decisão, apesar de termos saudades dele.

Resumindo, a escolha do médico assistente dos nossos filhos, pode depender de vários factores: financeiro, acessibilidade, recomendação, forma de estar na vida, valores, tipo de parentalidade, referências…mas julgo que devemos estar sempre com uma postura de confiança crítica, querendo eu dizer que não devemos estar na defensiva, nem desconfiados, devemo fazer todas as perguntas e esclarecer todas as dúvidas, mesmo que nos achem chatos, não há nada pior do que ficar mal esclarecido no médico, devemos acreditar que é a melhor opção para os nossos filhos, devemos confiar na capacidade clínica do médico e estar atentos, e disponíveis.

E querem saber outro motivo? É que, tal como os bombeiros, os polícias e outras profissões, ter um bom médico pode ser meio caminho andado para os nossos filhos não terem medo de ir ao médico ou de um dia quererem vir a ser também eles “doutores”.

(por falar em futuro, eu tenho esperança que o meu Quinzolas se inspire no Cristiano e queira vir a ser como ele, que assim reformava-me mais cedo e ia tomar conta dos netos numa “casa apalhaçada” ou até fazer massagens ao meu rico filho num iate em pleno Mediterrâneo, era coisa que se não me importava nadinha)