Todos os pais anseiam pelo dia em que os seus filhos conseguem fazer coisas sozinhos. Andar, comer, vestir, lavar os dentes e a cara, brincar, subir escadas, ir ao bacio, falar. Cada uma destas conquistas é um alívio para os pais, pois tudo passa a ser mais fácil. Talvez chegar até estas conquistas seja um processo longo e difícil. Andar significa também cair muitas vezes e estar sempre atento aos galarós dos filhos. Comer significa muita roupa suja, muita comida espalhada pelo chão, muita porcaria. Vestir significa muito mais tempo que se demora, muitas cuecas ao contrário e muita birra porque é difícil enfiar os braços nas mangas. Lavar os dentes quer dizer que é preciso verificarmos sempre e acabarmos por lavar-lhes os dentes outra vez. Brincar significa ter tudo desarrumado e desorganizado. Subir escadas é o mesmo que ter o coração nas mãos porque a qualquer momento caem para trás e vêm por ali abaixo aos trambolhões. Ir ao bacio significa ter sempre xixi no tapete e nas cuecas e na roupa, porque se levantam antes de acabarem. Falar significa demorar muito tempo até perceber o que raio querem os filhos dizer com aquele som.

Mas quando já conseguem fazer tudo isto sozinhos, é vê-los com o maior sorriso do mundo porque já conseguem andar, é sentir que estão a gostar de mastigar e felizes porque já conseguem pegar bem na colher, é virem a correr para nós todos orgulhosos porque conseguiram vestir a camisola sozinhos, é termos que cheirar a boca para vermos como estão bem lavados os dentes, é vê-los a reproduzirem brincadeiras que viram, que inventaram, que ouviram nas histórias, é ficarmos espantados com a rapidez com que sobem as escadas passado tão pouco tempo, é saber que já conseguem controlar o xixi e rirmos quando vão a correr pela casa até à casa-de-banho porque estão à rasquinha, é ficarmos absolutamente siderados com a quantidade de palavras novas todos os dias, com a construção de frases longas e com as perguntas mais estranhas e inocentes.

Adoro ver os meus filhos a crescer. Nada me preenche mais do que o crescimento deles, as conquistas, o entusiasmo e a felicidade com que crescem. Cada dia, mês e ano que passam são um mar de sorrisos, de coisas novas, uma dádiva difícil de igualar.

Acabámos por criar espaço à autonomia sem refletir muito sobre isso, sem ler muito sobre o assunto. Para mim sempre me fez sentido ter tudo à mão, ao nível delas, para que elas conseguissem fazer tudo sozinhas. Também sempre me fez sentido ter os espaços divididos por temas, as gavetas dos brinquedos e das coisas bem definidas, ter os livros de fácil acesso. Quase um ano depois de ser mãe é que percebi que, instintivamente, acabei por criar um ambiente quase montessoriano cá em casa.

A roupa está quase toda numa cómoda, tiram as camisolas, os pijamas, as cuecas, as meias, os ganchos, as calças quando precisam e querem. O calçado está numa mini-sapateira aberta atrás da porta e é quase todo fácil de calçar e descalçar, nada de atacadores.

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benditos separadores

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sapatos e mais sapatos

Têm uma gaveta com vestidos de princesa, chapéus, cachecóis, luvas e outras fatiotas que é a gaveta dos disfarces.
Os livros estão no quarto, numa mini-biblioteca que comprei na Vertbaudet.

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com livros desde bébés

Quero ver se em Outubro arranjo uns cestos para pendurar na parede ao pé dos sapatos, um para cada cerejinha, identificado com o nome ou uma foto, onde coloco a roupa para vestir no dia a seguir.

Os brinquedos estão num móvel do ikea e a “tralha” pequena está em cestinhos, dividida por temas, bonecas, selva sobre rodas, animais, pet shops. Como não me resta espaço para estantes baixas para dividir alguns brinquedos/materiais por temas em mais cestos para estarem acessiveis, coloquei-os em caixas que empilhamos (da maquilhagem, da cabeleireira, roupa da bonecada, legos). E mesmo assim, há sempre cenas e mais cenas espalhadas e noutro sítio.

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adoro o que encontro 😉

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enfim….

Os jogos e os puzzles estão numa gaveta do móvel da sala (andavam sempre a abrir essas gavetas e a tirar as nossas coisas; dei-lhes uma gaveta e só mexem nessa). Não é o ideal, deveriam estar mais acessíveis, porque às vezes querem um puzzle e têm que tirar os outros todos…mas não há espaço para mais, em geral, temos quase tudo a dobrar e nesta gaveta também estão os jogos que ficaram para o mano e que irão para o quarto dele daqui a algum tempo. Uma hipótese é ir mudando o que está na gaveta, para que fiquem só alguns disponíveis e nunca se cansarem verdadeiramente de cada um. Tenho que me debruçar melhor sobre isto.

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também gosto muito de jogos

Desde há dois anos, mais ou menos, que começaram a querer fazer manualidades e essa secção está no sótão. Mas no inverno é frio e no verão é quente, e nem sempre apetece ir lá para cima. Então, transformámos um móvel que pertencia a uma estante do ikea e passou a ser o móvel do play-doh, das canetas, lápis e outras coisas do género, dos papéis, das capas com os trabalhos delas, da ardósia…o móvel não fica ali muito bem, mas é o que se pode arranjar. As latas de leite do mano têm servido para separar os materiais. Na sala estão duas mesinhas e cadeiras onde elas fazem as actividades. Se isto está sempre arrumado? Não! A maior parte das vezes está tudo em cima umas coisas das outras. Mas com o tempo e a minha insistência, têm vindo a cumprir a regra “só vão buscar um brinquedo, depois de arrumarem aquilo com que estiveram a brincar” e sabem sempre o lugar de cada coisa.

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talvez pintando as portas…

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faltam cadeiras

No sótão, ainda não consegui ter as coisas assim estilo revista: queria ter os materiais em caixinhas e tabuleiros, tudo bem organizado, por temas (matemática, biologia, vida diária, química, geografia…), mas isso envolve algum dinheiro e então, fui desenrascando com umas caixas de material do laboratório e copos e tupperwares velhas e coisa e tal. Ainda falta um cavalete à altura delas para pintarem, um do ikea, mas ainda não houve disponibilidade. Agora já vão para o sótão sozinhas. A maior parte das vezes fica tudo caótico, desarrumadíssimo, como se tivesse passado um tornado. A verdade é que as minhas coisas e as do pai ainda estão à espera de tempo e pachorra para serem arrumadas e temos lá um bocado de tralha para ir embora. Por isso, não faço muita questão que esteja sempre tudo arrumado.

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até que parece organizado

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elas “andem” aí!

Na cozinha há uma gaveta com as coisas delas e que agora também são do mano: pratos, copos, biberões, talheres, palhinhas, taças. Vão lá, tiram e servem-se. O jarro da água e a caixa das bolachas também está de fácil acesso.

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tanto biberão…

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ahahah

Quando querem ajudar, arrastam as cadeiras para a bancada que são enormes e depois não há espaço para as duas e, em geral, a coisa não corre bem. O ikea tem uns escadotes, mas o pai cerejo ficou de fazer algo parecido, um pouco mais robusto, com as madeiras que há na garagem. E assim fica mais uma premissa montessorina cumprida “deixar as crianças participar na vida activa da casa”. Aliás, têm sido encorajadas a ajudarem nas tarefas da casa. Confesso que ao início era mais para as manter ocupadas e eu poder fazer alguma coisa da lida da casa: estender a roupa, colocar roupa suja na máquina, dobrar meias, aspirar, lavar a louça. Agora são elas mesmas que pedem para ajudar. É muito bom! Também passei as caixas de plástico para uma gaveta baixa e os paninhos de limpar o chão e o pó também estão acessíveis (quando há acidentes, sabem sempre onde estão os paninhos para limpar).

Na hora de comer, já se servem sozinhas e já usam a faca, mas esta conquista devo-a ao jardim infantil, não fui eu a mentora. O pai cerejo, como bom comensal, dá-lhes a provar quase tudo e, apesar de serem esquisitas numas coisas, não são miúdas de se recusar a provar. Desde muito cedo que lhes dei a colher para a mão, comiam pela mão delas e eu ao mesmo tempo ia dando a comida. Tive que me desligar da javardice que fica por todo o lado quando estamos a construir a autonomia nas refeições, teve que ser.

Na casa de banho, os bacios estão os dois acessíveis, embora uma delas prefira a sanita e tem o redutor pendurado ao lado para colocar sozinha. As escovas e a pasta de dentes também estão disponíveis, bem como o papel higiénico e toalhetes, e têm um banquinho do ikea para chegarem ao lavatório. Sabem que quando se despem, a roupa é para colocar no cesto da roupa suja, embora às vezes ande a tropeçar em roupa espalhada; mas basta perguntar se aquilo é ali, para irem logo meter no sítio certo.

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também há cremes

Apesar de terem quase tudo ao nível delas, sabem que não podem mexer em alguns sítios, nas coisas da mãe e do pai do móvel da entrada, que se virem algum medicamento caído vão logo chamar um adulto, que não se podem aproximar da lareira, que não batem na tv e não podem meter-se em pé nas cadeiras na varanda (que estão sempre recolhidas, mas elas já sabem como se armam). De resto, podem saltar no sofá, na cama dos pais, sempre com cuidado e com adultos perto. Podem fazer muita coisa, explorar, sabem os perigos e sabem as consequências. Às vezes, esquecem-se das regras. Às vezes, a chata da mãe anda ali a moer o juízo, a obrigar a pensar e a lembrar. Eu nem sou muito de coisas rígidas, mas há coisas que eu não as deixo ser: preguiçosas, mal-agradecidas e mal-educadas. Podem andar todas sujas e badalhoquitas, podem querer explorar e saber tudo, podem comer bolachas ou fruta antes das refeições (o pai cerejo é que põe a regra nesta parte, eu sou um bocado mole), podem correr pela casa fora, brincar com os meus colares…

A parte de explorar a natureza é mais com o pai. É paus, é pedras (isto lembra-me uma música), é folhas e flores, é bogalhos e conchas, vem tudo para casa. Já fizemos grandes obras de arte com coisas vindas do pinhal e que vão para o cesto dos materiais. Vão muitas vezes com o pai ao pinhal ver os cogumelos e ontem trouxeram barro e andam a fazer peças de cerâmica na garagem. Preferimos os parques infantis que sejam em jardins ou que não sejam rodeados por prédíos. Este culto pelo ar livre, por mexer na terra também está todos os dias presente no JI e eu adoro ir buscá-las e ver que estão todas sujinhas de terra e suor 🙂

Isto de ter vários espaços diferentes, tem sido bom para as cerejinhas. Brincam e fazem muitas actividades juntas. Mas também gostam de estar separadas, às vezes, a fazer coisas que gostam. Não julguem que estou sempre de cima delas, a decidir o que fazer durante o dia. Elas andam à vontade; uma vez por dia fazemos uma actividade…nem que seja arrumar o quarto 🙂

A cerejinha J gosta muito de brincar com bonecas e de inventar histórias e é a que brinca mais na casa de bonecas que o pai cerejo fez (e que ainda precisa das escadas e de uns toques meus). E também gosta de ordenar coisas e fazer puzzles.

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A cerejinha L é mais de brincar às cozinhas, às escolas, às mães, às profissões. Agora até andamos a transformar uma das camas de grades (que já foi secretária) em cozinha, com material que temos por cá, não vamos comprar nada (e com coisas que os amigos nos arranjam; ainda tenho que arranjar a torneira e uma bacia de inox para fazer o lavatório….)

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E pronto, mostrei-vos quase a minha casa toda (menos a parte feia, eheheh, e as coisas que temos que despachar, destralhar). Sei que estão a pensar que tenho muita sorte de ter espaço. É verdade, apesar de viver num prédio, tenho muito espaço em casa…e a falta de um quintal é compensada pelo pinhal aqui ao lado. E parece que temos muita coisa, sim parece, mas a  maior parte é em segunda mão, reciclada ou oferecida. E também feita por nós, numa de dú ite iórselfe 🙂

Não tenho assim as coisas como nestes sites que sigo sobre ambientes Montessori, mas gostava 😉

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Alguém tem mais sugestões? Há algum site em português?