Quando as pessoas me dizem “não deve ser fácil, ter gémeos”, muitas se referem a alimentar gémeos ao mesmo tempo. Não é, efectivamente não é fácil. Mas isso é ao princípio, porque depois, quando já se conhece a criança e a sua relação com a comida, quando já encontrámos a estratégia ideal depois de muitas tentativas falhadas, as coisas correm normalmente.

As meninas nasceram um mês antes do tempo e, apesar de bem, fomos adiando a introdução dos sólidos para os 6 meses. Até lá, eram alimentadas com leite adaptado. E como é que tu davas leite às duas ao mesmo tempo, Carla Alexandra, perguntam vocês?

Sempre tentei alimentá-las ao mesmo tempo. Quando o pai estava em casa ou a avó, era fácil. Um biberão e uma criança para cada dois braços. Fácil. Mas quase aos 3 meses, esta senhora, achou que precisava do seu tempo e espaço a sós com as filhas e vai daí, pediu à avó para voltar para terra que precisava saber se conseguia tratar da miudagem a sós. Trocar fraldas, vestir, dar banho, carregar com elas ao colo de um lado para o outro, consegue-se com alguma paciência, alegria e uma certa parafernália, como espreguiçadeiras, parque ou cama de grades. E digo-vos, abençoado seja o senhor ou a senhora que inventou a espreguiçadeira, é muito amigo das mães de gémeos. Estando sozinha com elas, tentava espaçar os biberões 15 minutos, para poder dar a cada uma em separado: enquanto uma bebia, a outra estava na espreguiçadeira a ver tv ou a brincar ou a ser abanada pelo pé da mãe. Mas às vezes, pronto, vá, muitas vezes, a fome era em uníssono e não havia cá 15 minutos de espera para ninguém. Estão a ver a Lara Croft a puxar das armas com as duas mãos e a disparar para a frente? Pronto, eu era a Lara Croft dos biberões: cada uma na sua espreguiçadeira, eu sentada no meio e saca de enfiar os biberões na boca de cada gémea, lindo!

Aos tais 6 meses, passámos então à diversificação alimentar. Eu não sei cozinhar, aliás, stresso imenso na cozinha. E esta parte da vida de um bébé deixava-me ansiosa. O pediatra explicou tudo muito bem e emprestaram-me esta e esta máquina, uma era para a sopa e a outra para a fruta. Lá em casa, era eu quem fazia mais vezes sopa e, por isso, e também porque estava de licença, tomei eu as rédeas nesta coisa de alimentar as miúdas: comprava legumes biológicos, fazia sopa para três dias, congelava às vezes mas raramente, planeava tudo. E no primeiro dia, conversei muito com elas e expliquei que iam comer uma sopa muitoooo boa de batata, cenoura e cebola e azeitinho. Comprei umas colheres de silicone todas xpto, uma tacinha para cada uma em cima do tabuleiro de cada cadeira da papa. E eu no meio num banquinho. Dou a sopa a uma e vem tudo para fora. Estavas à espera de quê, Carla Alexandra, então a miúda não conhece os sabores, nunca comeu pela colher, sabe lá o que há-de fazer à sopa e à língua e à colher??? Resultado: choradeira pegada. A outra, que esteve um bocadinho à espera, começou também a chorar com fome. Foi horrível: as duas a chorarem com fome e atrapalhadas com aquela nova forma de comer. Adormeceram as duas na cadeira da papa, exaustas de tanto chorar, já quando eu lhes preparava um biberão. O pai cerejo ligou entretanto e eu nem consegui falar de tão cansada que estava. No dia a seguir, eu tremia. Mas estava confiante que ia conseguir, que ia correr melhor. Esqueci as duas colheres e as duas taças, e era colher a uma, colher a outra, com a mesma colher e da mesma gamela. Quero lá saber de cenas de higiene e não sei que mais. Já correu melhorzinho e com o tempo, o almoço foi ficando mais tranquilo e passaram a gostar muito de sopa. E fruta, sempre (embora tivessem ficado agoniadas a primeira vez que lhes dei banana). Estava eu no meio desta odisseia, quando falei com a minha amiga X que tinha tido bébé há pouco tempo e ia iniciar-se nesta fase. E eu, com a mania que sei dar bitaites, disse-lhe que se precisasse de conselhos para a introdução dos sólidos, que podia telefonar quando quisesse. E ela respondeu, delicadamente “que não tinha assim muitas dúvidas”…atão pois claro, ela estava a acabar nutrição, sou mesmo tótó (aliás, agora sou eu que a consulto, porque vejam só, em 4 anos não me lembro nadinha de quando é que se introduzem os alimentos, tipo espinafres, peixe, ovos…enfim).

Lá para os 10 meses, começámos a dar-lhes bocadinhos da nossa comida e eu fazia uma açorda de peixe com alho francês e cenoura muito boa. Cedo lhes dei a colher para a mão e colocava comida no prato para irem experimentando. Claro que ao mesmo tempo ia dando eu com a colher para ter a certeza que comiam. Não me lembro de haver assim muitas birras para comer. Percebi que a cerejinha J era mais legumes e a cerejinha L mais carne e peixe. Aliás, hoje em dia se lhes der o mesmo prato com as mesmas quantidades, a L come primeiro a carne, toda, e a J os legumes e depois o resto, sendo que a maior parte das vezes, a carne, o peixe ou o ovo  nem lhe toca e eu é que lhe peço para comer alguma coisa. Em boa verdade, há muitas refeições que são quase vegetarianas ou parecido (desta parte hei-de falar outro dia).

A cadeira da papa foi usada até aos 18 meses, mais ou menos. Ter dois monstros daqueles montados em permanência na sala, todos os santos dias, já me andava a causar calafrios. Tinha comprado os sacos-cadeira da hoppop maravilhosos para quando íamos a algum lado, ou a casa de alguém, mas passei a usá-los também em casa. E lá para os dois anos e meio, começaram a sentar-se nas cadeiras normais.

A diversificação alimentar é uma fase muito importante na vida das crianças. E a janela de oportunidade para provarem várias texturas e sabores, é no fundo curta, porque pode comprometer a relação com a comida mais tarde. E respeitar os tempos e gostos das crianças também é essencial. Lá em casa, às vezes, eu insisto para comerem alguma coisa. Mas é mais para que aquela refeição fique equilibrada e não tenham só comido uma parte da refeição. O pai cerejo é que é o mentor de provarem várias coisas. Há uma célebre refeição em que a caldeirada de peixe estava deliciosa, picante, mas deliciosa, e as meninas choravam por causa do picante, mas queriam continuar a comer porque lhes estava a saber bem. Só visto!

Agora com o moranguito, uma pessoa está mais relaxada. Uma pessoa não tem duas bocas esfomeadas a querer comida ao mesmo tempo e consegue fazer as coisas de outra forma.

Só cozi pêra nas primeiras vezes, para ele se habituar ao sabor e para aquilo não oxidar. Agora descasco na hora e até já a come à dentada.  A sopa, é passada, mas cada vez menos. E já come arroz e massa aos bocadinhos, pão, toda a fruta (excepto a maçã), o peixe é desfeito na sopa. O rapaz também mostrou que gosta de “mastigar”, que gosta de sentir a comida. Entretanto, comecei a ouvir falar do baby led weaning e pareceu-me interessante. Não fiquei assim completamente fã, mas acho  interessante propocionar alimentos no seu estado natural, sem estarem camuflados por um puré. E qualquer dia, se não houver sopa feita, come da nossa comida, quando for pouco condimentada (já que é naturalmente pouco salinizada). Tenho seguido o blog Na cadeira da papa e gosto muito.

O meu Joaquim é um bébé de boa boca e interessado pela comida, e dá gosto ver, como dizem as avozinhas 🙂

E agora vou ali trincar qualquer coisa que estou cheia de fome.