Sobre o politicamente correcto

Em casa, a cerejinha L já me tinha perguntado se os cegos eram pessoas que não tinham olhos. Eu respondi que são pessoas que, apesar de terem olhos, não conseguem ver, que já nasceram assim, ou tiveram um acidente ou ficaram doentes e deixaram de ver. Na escola andavam a falar da escrita Braille. E até tiveram a presença de “um senhor cego” para lhes contar uma história de um livro “picotado”. Na escola perguntavam se sabiam como se chamam as pessoas que não conseguem ver. “Cegueta” respondeu um menino. Explicaram que não é esse o nome, que as pessoas que não vêem são invisuais. Ao que a cerejinha L disse “ai não, não”. “Sim, sim, Laura, as pessoas que não conseguem ver chamam-se invisuais”. E ela respondeu “ai não, não, isso é aquilo que a minha mãe põe na mesa”.

 

Individuais, invisuais…o politicamente correcto…só confunde a criançada.

E a minha L não deixa que ninguém lhe troque as voltas…ai não, não!

laura

Sobre a preguiça

J – Mamã, vens comigo fazer cócó?

Eu – Vai andando que eu já lá vou ter.

J – Mamã, já tááááá!

Eu – Ó filha, tu já consegues limpar o rabito sozinha, tens que começar a fazer isso.

J – Mas…olha, não posso que tenho aqui esta mão inchada.

 

Cerejinha J, a inventar desculpas desde 2011.

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Sobre a frustração

L – Mamã, amanhã posso levar saia?

Eu – Sim, podes.

L – Mas mamã posso escolher a minha roupa?

Eu – Sim. Já sei, queres levar aquela saia de tule?

L – Siiiiim.

À noite não tivemos tempo e combinei com ela que escolheria a roupa no dia a seguir de manhã, mas para isso tinha que se deitar cedo para acordar mais cedo. Acordou às 7 da manhã, pronta para escolher a roupa. Depois de eu me arranjar, lá foi então escolher a roupa, desde a saia, até à camisola, collants, casaco, cuecas. No fim, foi buscar os ganchinhos pipis e os sapatinhos, e era vê-la a saltar pela casa e a ver-se ao espelho de tão vaidosa contente que estava. Foi para a mesa comer o pequeno-almoço: cereais com leite. Estava eu na cozinha a preparar o meu pequeno-almoço, quando oiço:

L – Mamããããããã! Entornei!!!!

E desatou num pranto inconsolável, a saia estava cheia de leite e cereais. Fomos para a casa-de-banho.

L – Mamã, podemos só limpar?

Eu – Ó Laura, não dá, isto está encharcado, nem o casaco se safa, filha.

L – Buáááááá!! Tens que lavar a saia para eu levar amanhã!!!

Fomos escolher outra saia, collants, camisola e casaco. Chorava descontrolada, tal a frustração que sentia depois de tanto trabalho e satisfação por ir com a roupa que ela escolheu.

Acabou de comer, foi fazer um desenho e lá se distraíu.

 

Estas coisas da vida acontecem. Uma criança não tem tanta capacidade de encaixe como um adulto, não consegue relativizar as coisas como nós…mas isto faz parte do crescimento. Podemos dizer que “é só uma saia, lava-se e pronto”, mas para ela é todo um ritual, um momento, aquele momento. Para ela é toda uma encenação. Uma coisa é certa: aprendeu a ter mais cuidado quando está a comer 🙂

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