Cheguei até à Inês através de uma amiga comum. Descobri o blog Cancro Meu e fiquei colada a ler os artigos mais antigos, a ver cada foto, a sentir cada palavra. Tive vontade de a conhecer pesoalmente. Lembrei-me daqueles meses com a minha mãe, de como foi importante o apoio da família e amigos, de como é tão essencial acreditar e ser positivo. Pensei “a Inês será a minha próxima entrevistada para voltar a publicar conversas como as cerejas… afinal, nesta rubrica, quero contar histórias reais de pessoas que ultrapassaram as dificuldades e têm casos de sucesso”. Mandei-lhe um e-mail “não nos conhecemos, mas temos uma amiga comum, tenho um blog…blá blá blá” e ela disse logo que sim, respondeu no dia a seguir, uma pinta!

Apresento-vos a Inês e o seu sorriso contagiante. As respostas às últimas perguntas são inspiradoras!

Espreitem o blog dela e a página do facebook.

Fala-nos um pouco de ti e da tua família.

O meu nome é Inês, nasci numa tarde amena de Outono, há precisamente 37 anos. A minha família é o meu maior bem! Tive a sorte de ter nascido no meio de muito mimo e amor. A minha mãe é professora e o meu pai um homem de negócios! Fiquei com um mix dos dois 😉 adoro ensinar, ajudar os outros, inspirar pessoas a descobrirem o seu potencial e por outro lado sou destemida e aventureira! Devo a vida à minha irmã Daniela pois foi ela que, aos 4 anos, pediu para eu nascer!! Posso dizer que fui a sua prenda!!! É uma irmã muito carinhosa e super protetora! Conheci o Filipe há 14 anos e sou uma mulher apaixonada! Temos 2 filhos maravilhosos, com 2 e 5 anos e vivemos no Porto! No geral, a vida sempre me correu bem, com saúde e perto da família, que é para mim a coisa mais importante desta vida.

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Conta-nos como soubeste que tinhas cancro?

Soube num dia como os outros. Nunca desconfiei de nada, nunca imaginei sequer que pudesse acontecer. Afinal tinha 35 anos, uma saúde de ferro e nenhum antecedente familiar de cancro… Mas a verdade é que, em julho do ano passado, enquanto tomava duche, senti um caroço na mama direita e estranhei. Era grandinho e não estava a perceber como tinha aparecido assim de repente! Nesse mesmo dia, falei com alguns médicos amigos que desvalorizaram, dizendo que provavelmente seria da altura do mês. Como sou muito cuidadosa comigo, no dia seguinte estava a fazer a mamografia, seguida de uma eco mamária e ainda acabei por fazer uma biópsia.  Confesso que estava confiante pois com a minha idade era muito pouco possível ser cancro. Continuava a acreditar que era um fibroadenoma.. Passados 5 dias, fui sozinha levantar o resultado….abri o envelope num café ao lado do laboratório e fiquei em choque com o que li :

“resultado positivo para células malignas : carcinoma”.

O meu mundo desabou em segundos….

Nesse dia, como foi chegar a casa e olhar para os teus filhos?

Cheguei a casa antes da hora de almoço e estavam os dois em casa (Francisco na altura com 4 anos e o Bernardo com 1 ano) pois era época de férias escolares. Vieram a correr dar-me um abraço cheio de vida e amor…. Eu tinha os olhos inchados de tanto chorar, mas naquele momento sorri, brinquei com eles e tentei agir como se estivesse tudo bem… Sentia o coração apertado e invadia-me um medo muito grande de perder momentos como aquele!

O que sentiste na primeira sessão de quimioterapia?

Estava muito confiante. Senti que tinha de me tratar, para poder ficar bem e mandar embora qualquer vestígio de células malignas que pudessem ainda estar no meu organismo. Lembro-me de ficar abalada por ver outras mulheres a fazer os tratamentos, pálidas, sem cabelo,…. E de imaginar que no próximo tratamento também ía estar assim… Tive muita força, visualizei como queria que tudo corresse, e assim foi!!

Como correu o processo clínico?

Tive muita sorte com a equipa que me tratou. O Dr. Fleming de Oliveira é um Senhor! A sua equipa, sobretudo o Dr. Manuel Moutinho e o Dr. Pedro Silva (cirurgião) são super bons profissionais!! É muito importante confiar na equipa que escolhemos e acreditar que tudo vai correr bem! A operação foi um sucesso (optaram por retirar a mama por completo e recorreram à gordura da barriga e ao músculo abdominal para a recuperar). Foram  cerca de 7 h de operação, as dores muito complicadas, mas passou rápido e o resultado estético foi ótimo. Depois da operação, fiz 6 sessões de quimioterapia e 25 de radioterapia na zona supra clavicular. Como tive um tipo de tumor raro (triplo negativo – quer dizer que não é hormono-dependente), não estou a fazer nenhum tipo de “quimioterapia oral”.

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Apesar de estares a passar por uma situação difícil, existiram alguns momentos caricatos?

Sim, lembro-me especialmente de um dia, já careca, estar no banho a lavar a cabeça e sentir algo estranho no couro cabeludo… Uma textura esquisita… Fiquei em pânico a achar que era uma ferida na cabeça. Estava a fazer quimioterapia e a lista de efeitos secundários é brutal e então eu estava sugestionada!! Saio do banho a pingar, tento ver ao espelho o que se passava com a cabeça e depois de muito, consegui perceber que o que tinha era uma etiqueta do lenço colada na cabeça!!!! Ri-me muito sozinha!! Houve outra situação em que estava com os meus filhos no café e o mais velho decide puxar-me a peruca enquanto dizia (muito alto): ” mamã, tira a peruca!! “. Enfim… Mãe sofre!!! 😉

Qual foi o teu porto de abrigo e onde encontraste forças para enfrentar o futuro?

O principal porto de abrigo é, sem dúvida nenhuma, a família! Quando algo como isto nos acontece, a família é quem nos dá amor, nos acalma, nos ajuda em tudo, tudo! A minha Mãe desde que soube, não derramou uma lágrima! Tratou de arranjar a equipa médica, de se informar, de se certificar que eu ia ser tratada pelos melhores. O meu Pai, com a sua calma, sossegou-me e fez-me acreditar que hoje em dia este tipo de cancros é tratável! A minha irmã foi o meu anjo da guarda. Veio comigo rapar o cabelo, comprou-me uma peruca linda, apoiou-me sempre em tudo! O meu marido foi um Homem incrível! É nestes momentos que vemos quem temos ao nosso lado. Esteve comigo em todas as sessões de quimioterapia e foi inexplicável a forma carinhosa e atenta com que esteve sempre presente.

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O que mais te custou neste processo todo?

Foi o medo de morrer. Foi o momento em que abri o envelope com o resultado da segunda biópsia que fiz (core biopsy), e que dizia: “Carcinoma ductal invasor grau 3. invasão vascular linfática extensa”. Sabia que o grau 3 era o pior e quando li isto da invasão linfática, achei que tinha o cancro espalhado pelo corpo todo. Andei 2 dias a achar que ia morrer… foi uma sensação horrível!

Uma pessoa com cancro ouve e sente muita coisa vinda das outras pessoas. Quais as perguntas ou observações que mais te fazem? E como reages?

As pessoas perguntam sempre se os efeitos da quimioterapia foram muito maus, como reagiram os meninos, se agora já estou bem… Reajo muito bem. Gosto de explicar às pessoas o que se passou, de conseguir falar abertamente do tema, sem tabus, sem crenças e fantasmas. O cancro da mama não é nem tem de ser o bicho de 7 cabeças que a maior parte das pessoas imagina.

O que significa para ti o blog?

Significa partilha, ajuda, troca de emoções, força. Quando descobri este cancro, pesquisei na net informação e não encontrava muita coisa assim mais pessoal, com relatos de outras mulheres e era isso que eu precisava… de sentir que não estava sozinha nesta viagem. Que haviam outras mulheres a passar pelo mesmo e que tudo correu bem. Foi assim que o decidi criar. A ideia foi partilhar este caminho e poder ajudar outras pessoas, mostrando o outro lado do cancro da mama- vendo-o como uma oportunidade de nos conhecermos melhor, de nos superarmos. Escolhi o nome “Cancro meu, há alguém mais bela do que eu?”, porque queria mostrar que podemos passar por esta fase menos boa chamando as coisas pelos nomes, sem medo, com auto-estima e amor próprio!

Sentes que a tua vida mudou?

Sim, a minha vida mudou imenso. E posso dizer que mudou para melhor!! Hoje em dia valorizo ainda mais a vida. É uma sensação de gratidão inexplicável. Não me queixo de praticamente nada!! Fiquei uma pessoa mais presente, mais autêntica. Consigo hoje desfrutar os momentos com outra qualidade e dedicação. Sou mais feliz, mais confiante, mais dinâmica. Não desperdiço o tempo que tenho!

Que conselhos darias a outras mulheres que estão a passar pelo mesmo?

O principal conselho que posso dar é dizer para serem positivas, acreditarem que tudo vai correr bem! Eu acho que o segredo está na nossa mente! Uma mente sã e positiva faz milagres… Há sempre várias perspetivas para encarar um mesmo acontecimento. Cabe-nos escolher de que lado vamos ficar. Se isto nos aconteceu, é porque tinha de ser, vamos aceitar e olhar para a frente!! Tudo passa e quando volta, vem ainda mais forte e poderoso! Uma crise como esta tem muitas vezes o poder de nos transformar.

Gostas de cerejas?

Sim, adoro cerejas. Daquelas vermelhas escuras, bem doces, de preferência mergulhadas numa taça com água e gelo, para ficarem fresquinhas!

 

Obrigada Inês pela tua simpatia e disponibilidade para tornares este canto mais rico! Adorei conhecer-te! És grande 🙂