Hoje falo sobre amamentação a propósito do 2º Encontro Nacional de Amamentação que vai decorrer amanhã em várias cidades. Quem me conhece sabe que não gostei de amamentar e estava a ficar trólóló de todo por não conseguir (e não há nada pior que uma recém-mãe assim; passou-me quando comecei a pensar pela minha cabeça e a deixar de ouvir os outros). Quem me conhece também sabe que eu não sou de doutrinas. Sou sim pela liberdade de escolha, seja ela a favor ou contra a amamentação, cada uma das pessoas é que sabe de si e dos seus, e ponto. Neste blog haverá sempre espaço para a diferença, para a indivdualidade e para a tolerância, e sobretudo para a partilha. Também detesto preconceitos; então no que toca a gémeos são às pázadas! Há de facto a tendência de toda a gente achar que não se consegue ou que é difícil amamentar gémeos. É diferente, sim, mas consegue-se. E para provar isto mesmo, apresento-vos a Rita e a sua família de cinco absolutamente maravilhosos, bem dispostos e lindos. Eu adoro esta mãe super descontraída e os doces dos miúdos dela.

Fala-nos um pouco de ti e da tua família.

Sou a Rita, sou casada com o Bruno, temos 33 anos e somos ambos enfermeiros. Conhecemo-nos durante o curso e casámos em 2005. Em 2008 chegou o nosso primeiro filho, o Eduardo, que tem atualmente 6 anos e em 2013 os gémeos Laura e Vasco.

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Conta-nos como foi o momento em que soubeste que estavas grávida de gémeos.

Um choque, um choque daqueles mesmo que nem sabemos onde estamos, nem soube como reagir. Pensei em todas as dificuldades que iria ter, mas mais do que isso temi muito pela gravidez, parto e pelo sucesso da amamentação. E apesar destes medos terem acompanhado toda a gravidez, os meus bebécas depressa passaram a ser muito amados e desejados.

Como correu a gravidez gemelar?

Um pouco complicada, ainda mais que a do primeiro filho. Comecei com contrações logo no início do segundo trimestre e às 18 semanas o colo começou a encurtar. Fiquei imediatamente de repouso, mas com uma criança em casa, o repouso não é o que deveria ser, quanto muito é relativo ou quase nulo. Aguentámos todos até às 36 semanas e 3 dias,  um autêntico milagre.

Fala-nos sobre a tua experiência de amamentar gémeos.

Para mim amamentar gémeos foi instintivo, todo o meu corpo soube o que deveria fazer para que lhes pudesse dar tudo o que necessitavam para crescer e ainda hoje mamam sempre que querem e bem lhes apetece. Eles  precisam, o corpo produz, sem toda um parafernália de objetos, que em nada ajudam a um processo tão natural, como o de alimentar a própria cria. A Laura teve alguma dificuldade em aumentar de peso no início, mas depressa aprendeu a mamar e tudo se resolveu. Ajuda ter uma boa pediatra, que apoie a amamentação e que sobretudo acredite em nós como mamíferos.

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Que conselhos podes dar sobre a amamentação?

Acreditar que conseguem amamentar, somos animais, produzimos leite e continuaremos a produzir enquanto os bebés mamarem, sem outras interferências. Não comprem leite adaptado só para ter em casa,pois  numa situação de desespero vão usá-la e será o princípio do fim. Quando essa situação acontecer, quando pensarem que eles tem fome, a solução é a mais simples possível, coloquem os bebés na mama, façam muita pele com pele, muito colo, muito mimo. Não acreditem nos mitos do leite fraco ou de ter pouco leite, tal coisa não existe. Somos mamíferos desde sempre, porque é que só agora é que as mulheres deixaram de conseguir dar mama?

Tentar dar mama aos dois simultaneamente, porque poupa-se tempo, principalmente quando as mamadas ainda são longas. Livre demanda é a palavra de ordem, não há relógios, nem horários na amamentação, o bebé pede, a mamã dá, ponto.
E finalmente pedir ajuda quando há dúvidas, mas ajuda de quem sabe, não de quem sugere como solução o biberão. Pedir apoio a uma conselheira de aleitamento materno, mesmo quando se acha que já se sabe tudo sobre amamentação. Amamentei o mais velho 4 anos e precisei de apoio nos gémeos, nunca sabemos tudo.

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O que mais adoras em ser mãe de gémeos?

A cumplicidade entre eles, quando um se ri e o outro sem sequer saber o que se passa, desata a rir à gargalhada. Vê-los brincar juntos provoca arrepios na pele, o coração parece que vai saltar da boca. Tu sabes…

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E o que mais te custa?

Podia aqui falar das noites, mas nem é isso. O que mais me custa é não conseguir chegar a todo o lado. Do mais velho eu era toda para ele, podia passar uma tarde com ele no colo, só a dar mimo ou mama. Com dois é difícil (com três nem se fala), apetece-me dar colo a um, mas o outro chora porque caiu e eu tenho que ir acudir. Quero adormecer um, mas tenho o outro aos saltos a querer brincadeira e acaba por chorar por eu não estar imediatamente disponível. Sem dúvida, é o que mais me dói.

Uma mãe de gémeos, e tu então como mãe de um e depois de gémeos, ouve muita coisa. Quais as perguntas que mais te fazem? E como reages?

“Coitada!!!” ahahahah, adoro que digam que sou uma coitada, quando eu acho que sou a mulher mais sortuda do mundo. E o “ai, devem dar tanto trabalho”, mas já nem ligo, sorrio e continuo caminho.

O que mais oiço por causa dos gémeos: “são gémeos?”, “mas são mesmo falsos”, “tem gémeos na família?”, “são dois meninos?”, “são duas meninas”, ” é um casal?” e “quanto tempo tem de diferença?” porque por vezes acham que são irmãos com alguns meses de diferença (vá-se lá perceber).

A mais engraçada que me aconteceu foi uma senhora com alguma idade dizer-me que deveria ser difícil criar três filhos e tentou dar-me uma nota de 5 euros para ajudar. Como disse que não era necessário, deu ao Eduardo, que gastou o dinheiro a comprar um miminho para mim.

O que mudou na tua vida?

Já não me lembro muito bem de como era a minha vida antes de ser mãe, mas mudou tudo… para melhor. As prioridades são outras, fiz mudanças na minha vida, que não me afectou minimamente porque foram feitas com prazer, com noção de que só assim poderia resultar. Com os gémeos pouco mudei, continuo a sair imenso com eles, adoro levar os meus filhos aos parques, proporcionar-lhes atividades próprias para crianças e não me importo de o fazer, mesmo quando estou sozinha com eles e chego a casa completamente de rastos. Sabe-me pela vida ser a mãe galinha que sou e andar sempre com os pintainhos atrás. Separar-me deles é complicado e morro de saudades, como tal somos um todo e vamos juntos para todo o lado.

O que é para ti ser mãe?

A realização de um sonho, tudo o que sempre quis e desejei, não seria completa sem filhos. É viver com o coração nas mãos para o resto da vida, mas tê-lo a transbordar de alegria, carinho e muito amor. É a única e verdadeira razão do meu ser.

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Photos: Lieve Tobback Fotografia