Lá vem esta outra vez falar de segurança automóvel e do transporte das crianças, pensam vocês.

Lá venho eu falar de viagens de carro com crianças, penso eu.

Lá vem esta massacrar-nos outra vez a cabeça com a falta de segurança que os assentos elevatórios significam, pensam vocês.

Lá vou eu mostrar mais uma vez as miúdas a dormir no carro na viagem de volta para casa ao fim do dia, penso eu.

Lá vem esta fazer contas à vida entre o preço de uma viagem segura até aos 12 anos e o da cadeira que acompanha o desenvolvimento da criança, pensam vocês.

Lá vou eu mostrar o amontoado e o caos que são as viagens de ida matinais e a dor de cabeça com que fico, penso eu.

Agora a sério, todos os santos dias as cerejinhas adormecem na viagem de regresso a casa, ao fim do dia, e desde que mudámos para estas cadeiras, já não há dores de pescoço, têm apoios laterais na cabeça e são um pouco reclináveis.

Pareço bipolar na viagem de volta, ao fim da tarde. Por um lado, dava-me jeito que dormissem para eu também ter pelo menos uma viagem descansada (já vos conto como são as viagens de ida, de manhã). Mas por outro, assim não se deitam cedo e, consequentemente, no dia seguinte para acordar, é um suplício. Por um lado, quando dormem um pouco e descansaram aqueles vinte minutos, comem bem ao jantar e passam melhor o resto do dia. Mas por outro, tenho que as acordar à pressão para subirem os três andares sem elevador e todo o sossego conseguido durante a viagem com elas a dormir,  cai por terra nos 54 degraus com elas meias estremunhadas e rabugentas. Por um lado, não quero ter o trabalho de inventar jogos, músicas, histórias, perguntas para se manterem acordadas nos vinte minutos da viagem e por outro, não tenho pachorra para ignorar choradeira e birras de rabugice a subir as escadas. Ainda não decidi o que é melhor…depende da energia  (pouca) que tenho em cada dia.

De manhã, é, digamos, o caos. Já descrevi aqui uma dessas vezes. Em geral a viagem começa com a cerejinha J a perguntar porque é que a irmã traz mais um brinquedo do que ela; a cerejinha L a cantar em contínuo um medley qye ela lá arranja e quando já não se lembra de nenhuma música, canta um “nananananana” esganiçado e irritante que até me pôe os pêlos dos braços em pé e, às vezes, quando não fiz a depilação, o que acontece muitas vezes, os das pernas; o moranguito quietinho no seu lugar, a chupetar e a ver a estrada. Mais ou menos a meio, começam os gemidos da cerejinha J que está a ficar mal-disposta e tem fome e a perguntar se tenho bolachas. Entretanto, a cerejinha L começa a pedir para jogarmos um jogo, nós dizemos que sim, depois a outra diz que não quer jogar esse, a cerejinha L desata a amuar “ó Júlia!!!! Nunca queres jogar os meus jogos”, “mas não me apetece”, “agora também já não quero jogar”, “Laura, vá deixa-te disso, não amues fáxavor”, “mãe, podemos jogar ao jogo das pistas”, “Ó Júlia, esse era o jogo que eu ia dizer que queria jogar, não é justo”, “mas eu disse primeiro”, “não, não, eu é que pensei primeiro”, “mãe, olha uma quátrele!!”, “sim, filho, é uma 4L”, “mãe, a Júlia está gozar comigo”, “não, não estou”, “ai estás, estás” e acaba com “CALEM-SE PÁ, SERÁ POSSÍVEL QUE NÃO CONSEGUEM PASSAR UMA VIAGEM SEM SE CHATEAREM?”. Silêncio. Silêncio. Silêncio. “Mãe, podes pôr essa música mais alta?”. Posso! Estou com uma dor de cabeça gigante e não me apetece nada ouvir música alta, mas ao menos assim não vos oiço, penso eu.

Bom, também há viagens giras e normais. Mas essas não têm tanta piada para escrever sobre elas. A minha vida é uma montanha russa, como me dizia uma amiga, e as viagens de carro são deveras uma animação 🙂

(a propósito, já assinaram esta petição para alterar a lei do transporte colectivo de crianças? Espreitem e se concordarem, assinem, acho que é importante)