Achamos que temos certezas, que se um dia nos acontece a nós, faremos assim com toda a certeza. Achamos que não vamos ter dúvidas, que nunca hesitaremos na decisão. Achamos que o nosso coração nunca se vai sobrepôr à razão. Mas depois vivemos a situação, estamos no meio da angústia e temos que tomar decisões. E surgem então as dúvidas, os medos e as perguntas. Surgem os nervos, lembramos histórias que as amigas nos contaram, lembramos lágrimas que as amigas verteram. Pensamos muito, imaginamos cenários, vemos o futuro e temos muitas dúvidas.

Apesar de acharmos que temos certezas, não nos passa pela cabeça um dia termos que decidir se interrompemos uma gravidez ou não. Apesar de termos votado a favor da legalização da interrupção voluntária da gravidez, porque queríamos que as mulheres e as famílias pudessem decidir livremente sem correrem riscos de saúde ou incorrerem numa ilegalidade, não pensamos que um dia podemos ter que ser nós a usufruir dessa liberdade. Porque, apesar das certezas, tomar uma decisão de interromper uma gravidez não se faz de ânimo leve, não se faz sem antes se terem dúvidas, não se faz sem antes se pensar em toda a nossa vida.

Estive com dúvidas se estaria novamente grávida. O meu corpo alterou-se hormonalmente, atrasou-se, descontrolou-se. E pensei que poderia ser uma gravidez. Afinal já tinha ouvido falar de gravidezes descobertas aos cinco meses sempre com o período. Nesses dois dias, até fazer uma ecografia, não tive certezas. Tive dúvidas. Muitas.

Senti-me grávida e com três filhos para criar. Pensei que era só mais um. Que já tinha tudo. Que o carro daria para mais uma cadeira. A casa para mais uma cama. A família daria para mais um filho. Imaginei-me grávida e com três filhos para criar. E senti-me cansada, já no final de uma gravidez, com um filho ainda de colo e três andares sem elevador para subir, horários para cumprir e duas filhas a entrar na escola primária. E fiquei cansada.

Pensei que até conseguiria, que a energia surgiria em cada momento feliz e sorridente a seis. Lembrei-me de várias famílias que tinham quatro filhos ou mais e conseguiam. Lembrei que o meu positivismo me tem ajudado tanto na vida, era só mais uma vez. Recordei todas as vezes em que não havia mais que meia dúzia de euros até ao fim do mês, em que tive que pedir dinheiro aos amigos. Lembrei da ginástica que temos que fazer para conjugar os tempos. Tive medo daquelas semanas em que não conseguiria dar conta do recado e o pai tivesse que trabalhar menos ou quase nada para os levar e trazer, porque eu estaria muito grávida.

Aos poucos fui pensado que o melhor era mesmo não levar uma possível gravidez para a frente. Mas junto com estes pensamentos lembrava-me de tantas amigas, tantas, que tiveram uma gravidez interrompida, mas involuntariamente, sem querer, sem decidir. E o trauma e as marcas que isso lhes deixou. E a tristeza que esse momento lhes trouxe. Tive pena delas e fiquei triste. Achei que não era justo. Senti culpa.

Mas um dia, um momento, o meu bebé caíu. Com a cabeça no chão. Chorou tanto, fez um hematoma gigante na testa. Ao meu colo, tratei dele. Abracei-o muito. Dei-lhe muitos beijinhos, enquanto lhe cantava segurando em gelo. Ele precisava tanto de mim. E eu estava ali só para ele. E conseguia. E com ele já mais calmo, a recuperar do susto e do choro descontrolado, lembrei-me que tinha dúvidas e nesse mesmo instante, deixei de as ter. Senti que não iria conseguir. Senti que não era a idade ou a falta de dinheiro que me fez ter a certeza. Foi olhar para os meus filhos e eles precisarem tanto de mim. Precisarem do meu tempo. Da minha paciência. Da minha energia. Senti que não tendo sido uma decisão planeada, não iria apenas aceitar. Porque não me sentia capaz.

As suspeitas não se confirmaram e eu afinal não tive que decidir.

Ao longo da vida tomamos decisões: de querer ter filhos, de os ter, de ter muitos filhos ou de não os ter. De os ter tarde, de os ter cedo, de aceitar os imprevistos e seguir em frente, ou de não deixar avançar uma gravidez porque não foi planeada. Nessas decisões há muitas pessoas que nos percebem ou que, mesmo não entendendo, nos apoiam. Mas mais importante que os abraços das pessoas à nossa volta, é a nossa consciência estar tranquila e em paz. E saber que a liberdade de escolha é o maior aliado para que a tristeza não tome conta da nossa mente. Porque no coração, ficará sempre um bocadinho.