A minha barriga conta muito sobre mim. Anda escondida, por detrás das roupas, quanto mais camadas mais ela se sente bem. Porque parece mais pequena e não sente tantos olhares sobre ela. A minha barriga tem a companhia de um umbigo, grande e atrevido, como que a pedir espaço para poder respirar. O umbigo já esteve empurrado para dentro com a ajuda de uma cinta, grande e desconfortável, mas agora anda solto. A minha barriga tem uns desenhos. Dizem que se chamam estrias, umas riscas onduladas e escuras.

A minha barriga mostra que nem sempre teve as comidas mais saudáveis e que anda há anos sem se mexer, nem fazer exercício.

Às vezes, a minha barriga fica destapada e há umas mãos pequeninas que nela tocam, suaves e carinhosas, cheias de ternura e amor. Nesses momentos, a minha barriga perde a vergonha e é adorada com a sua flacidez, com o seu umbigo enorme e com as suas estrias profundas. Perde o medo e deixa-se tocar, pelas seis mãos pequeninas. E nesses momentos, está em pleno, sem precisar de estar escondida atrás das fibras de uma camisola, sem viver tapada e envergonhada.

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Na minha barriga moram momentos maternais, gargalhadas e dores, dias e meses e anos de três filhos. Cada estria podia ser tudo o que os filhos conseguiram e todos os desejos que a mãe anseia para eles. Cada músculo flácido fica feliz por cada abraço que um filho lhe dá. O umbigo ri muito por cada beijo que recebe de um filho.

Na minha barriga cabe muito mais amor e doçura. Cabe colo a toda a hora, brincar, correr e jogar à bola, cabe brincar às feiras e jogar às escondidas, rebolar pelo chão com cócegas, cabe cada dói-dói e queda forte, cabem todos os desenhos e construções, mimos e festinhas, cabem perguntas e dúvidas, cabem todos os sonhos e o futuro de três filhos.

A minha barriga não pode ter vergonha…é feliz.

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