Os pais sabem que as birras vão surgir algum dia, ouvem falar que começam aos dois anos, que duram até aos cinco, que é precisa muita paciência, que passa, que são manifestações de que os filhos estão a crescer, que também têm vontades, que é a forma de lidar com a frustração.
Os pais consultam livros sobre parentalidade, artigos de psicólogos, ouvem outros pais, falam com os educadores.
Os pais ficam horrorizados com as birras dos filhos dos outros, com as histórias que ouvem, com as birras épicas de filme. E perguntam-se: também vou passar por isto? Como irá ser o meu filho? E eu, que género de atitude vou tomar?

As crianças são todas diferentes. E os pais também. As birras, essas, podem ser quase sempre por motivos parecidos nas várias casas. A reacção dos filhos e dos pais é que pode variar. E sim, o exemplo e o amor são a melhor arma para lidar com as birras.

Levo 5 anos e três filhos de experiência. Não é nada. No início tinha muito medo da privação de sono. E das birras. Saberia eu lidar com uma birra? Conseguiria eu estabelecer aquela ligação com os meus filhos? Iria ser uma mãe que berra a toda a hora? Os meus filhos iriam ser uns pequenos terroristas? Dúvidas e mais dúvidas. E depois, a culpa. A culpa de ser uma má mãe, de ter filhos que fazem birras nos centros comerciais, de ter filhos mal-educados, a culpa de não conseguir acabar com uma birra em três tempos, a culpa de ter um filho difícil. Porque à nossa volta reinam os casos de perfeição, de filhos hiper bem comportados, de pais que nunca se fartam dos filhos, de gente a dizer a toda a hora “se fosse comigo…”.

Felizmente, a minha cabeça é limpa e consegue desligar-se dos olhares das pessoas, dos comentários e da culpa. Não sou perfeita, berro mais do que gostava, tenho pouca paciência muitas vezes, deixo o cansaço consumir-me e fico muitas vezes farta de estar com os meus filhos. Mas tudo isto passa no segundo seguinte, quando um dos meus filhos sorri, me abraça ou simplesmente olha para mim. Porque ter filhos foi e será sempre a minha maior dádiva. E é por isso, que tento sempre ser melhor e ajudá-los a crescer no seio do amor e do respeito.

As crianças são só crianças, não são seres maléficos que vieram ao mundo para nos testar ou levar à loucura. Isso não existe. As birras são reinvidicações de desejos, manifestãções de vontades…capacidade que vamos perdendo ao longo da vida. Não foram feitas para nos tramar o dia-a-dia, para nos pôr à prova. Os nossos filhos são a nossa família, não são o nosso inimigo.

Algumas das minhas premissas, surgiram naturalmente. Outras vieram da consulta de um livro e da leitura online de orientadores em parentalidade. E muitas foram conselhos dados por amigas. Quase todas foram sendo contruídas em conjunto com os meus filhos, porque ouvi-los e respeitá-los tem sido muito útil.

  • Educar é formar emoções, é dar o exemplo, é ajudar a lidar com a vida.
  • Estabelecer ligação com os filhos, com carinho e atenção, respeito e compreensão.
  • Em tudo na vida, devemos criar empatia, que um dia aprendi ser a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. E esta capacidade ajuda muito a perceber os motivos da birra. É difícil, mas ajuda bastante a encontrar um caminho para resolver a birra.
  • Quando ainda são pequenos, subsituir a palavra “não” por uma ordem específica como “pára” ou “sai daí” ou “põe isso no chão” e desviar a atenção para outra tarefa, podendo explicar que o que estava a fazer é errado ou perigoso.
  • Optar por frases de reforço positivo como “deves fazer assim” ou “é melhor e menos perigoso se for desta maneira” ou “já viste que funciona melhor se for desta forma?” e usar menos vezes expressões negativas como “não pegues mais nisso” ou “não mexas mais aí” ou “não há mais disto e acabou-se”.
  • Ter calma, ignorar a birra durante algum tempo para ver se passa, não ter vergonha dos olhares dos outros, ser firme.
  • Olhar nos olhos, falar calma e firmemente, abraçar, dizer “gosto muito de ti” e explicar a razão porque não deixamos que a vontade deles se faça.
  • Explicar as consequências e se ameaçamos com alguma, não estar sempre a avisar que o vamos fazer, mas fazer mesmo, sem contemplações.
  • Dar escolhas, responsabilizar pelas escolhas que fazem, combinar, acordar decisões, deixá-los participar na decisão. Ajudar a lidar com a frustração das más escolhas e a perceberem a consequência.
  • Explicar o que esperamos dos nossos filhos quando vamos a um sítio ou a casa de alguém para no momento se poderem lembrar do que foi combinado.
  • Por vezes, uma recompensa, que pode ser apenas uma ida ao parque e não deve ser a compra de um brinquedo ou guloseima, ajuda a sentirem-se bem com a capacidade de se terem controlado nesse dia.
  • Ser muito eficaz a explicar que bater, arranhar, beliscar, cuspir, morder no outro é errado, porque não íamos gostar que nos fizessem o mesmo.
  • Às vezes, os filhos precisam de chorar…sim, de chorar um pouco, acompanhados, em segurança, conosco ao lado a dar miminhos. Só um pouco, porque a frustração é um sentimento complicado de gerir e por vezes, precisamos de estar um pouco tristes, nos braços dos nossos pais.
  • Estabelecer meia dúzia de regras da casa, não mais, daquelas que têm a ver com boa educação e com controlo de perigos.
  • Os limites ajudam-nos a ser mais confiantes e seguros. Não exagerar nas regras e limites. A liberdade para errar também é precisa.
  • Ter muita paciência e auto-controlo. Nos momentos em que desatamos aos berros, lembrar aquela vez em que lidámos com a birra de outra forma e como foi bom e correu bem.
  • Pedir desculpa aos nossos filhos. Também erramos e eles não estão à espera que sejamos perfeitos.
  • Não ser exigente demais.

Encontrei inspiração neste livro e neste blog e neste artigo.

(no próximo artigo, falarei de casos concretos de birras no cerejal e o que fiz e o que deveria ter feito)