Estava parada num semáforo. Lembrava-me de uma amiga que na semana passada tinha parado na passadeira e um carro, não conseguindo parar a tempo, bateu-lhe na traseira. Ela bateu com a cabeça nem soube bem onde e ficou com imensas dores de coluna.

Estava parada no semáforo a lembrar esta história, a pensar que ainda bem que as filhas dela não iam no carro, quando olho para o carro da fila ao lado. Reparei que ia uma criança no banco de trás, parecia ter a idade das minhas filhas. Quando olhei mais em pormenor, reparei que sim senhor ia sentado numa cadeira, mas ia solto, chegado à frente a tocar no banco do condutor.

Fico sempre muito incomodada quando vejo crianças a serem transportadas nos carros sem qualquer sentido de segurança, muitos sem cadeira e outros sem estarem presos a ela, alguns com assentos elevatórios, mas sem os cintos postos e, pasme-se, já vi bébés a viajarem ao colo. E não, não estou a falar de carros com evidentes sinais de pessoas com dificulades financeiras, nem de situações limite de terem que ir a correr para as urgências (ou de vomitarem as cadeiras todas como já me aconteceu). Não, não estou a  falar de uma ou duas vezes, estou a falar de várias dezenas de vezes em cinco anos e meio que tenho este assunto como essencial na minha vida.

Estava parada no semáforo, o tal carro arrancou ao mesmo tempo que eu e calhou irmos para o mesmo sítio e não, não era já ali, andámos mais de 5 km, por entre rotundas, subidas e descidas.

Não há nada, NADA, que justifique não prender as crianças às cadeiras ou usar os cintos. O “é já ali” tem riscos, tal como uma viagem para longe. O “estava a chover tanto” não justifica o risco comparado com umas costas molhadas. O “ele estava a fazer uma birra tão grande que não consegui” tem que se resolver na hora, nem que se tenha que tirar a criança do carro para a acalmar ou fazer uma força herculiana para a apertar.

O preço das cadeiras também não pode justificar, há muitas cadeiras em segunda mão à venda (embora, neste caso, seja preciso garantir que a cadeira está mesmo em bom estado internamente e nunca sofreu nenhum embate), há amigos e familiares que podem emprestar, há associações que recolhem estes equipamentos para doar, há imensas marcas e preços.

Em cinco anos e meio de transporte de crianças no carro já me aconteceu de tudo, já pensei que são só 5 minutos, já apanhei muita molha para apertar a filharada toda, já lidei com muitas birras do género o-meu-filho-é-um-carapau-seco-de-tão-teso-que-está. E sim, também me acontece pensar que trabalheira que vou ter para os apertar a todos, aos três, nas cadeiras para andar só 500 m, também já tive a tentação de os deixar ir soltos porque era já ali, mas felizmente, resisti sempre e optei pelo mais certo e mais seguro.

Esqueci-me uma vez de apertar uma das gémeas que no meio do senta-te, enfia os braços, aperta uma, fecha a porta, vai para o outro lado, aperta a outra, no meio desta canseira toda, esqueci-me de apertar uma delas que, mais de 10 km depois, me diz “mamã, eu não estou apertada!”. Fiquei literalmente sem pinga de sangue, parei o carro assim que consegui, apertei-a e fui o resto da viagem a pensar no monte de “ses” que poderiam ter corrido mal. O cansaço às vezes não nos ajuda a raciocinar ou a tomar as melhores decisões.

Estava parada no semáforo e muito indignada com esta falta de consciência, resolvi escrever este artigo, onde poderia revelar o número assustador de crianças que morrem ou ficam com mazelas sérias em todo o mundo por falta do uso correcto das cadeiras e cintos, mas resolvi apenas partilhar convosco estes pensamentos e o vídeo da APSI com várias dicas de segurança a ter com as crianças. Partilhem, por favor, nada justifica colocar as crianças em perigo!