O momento “anda daí”

Para quem pratica a parentalidade consciente, sabe que grande parte do que consegue com os filhos resulta de lhes explicar as coisas e de eles saberem com o que contam, aquilo que esperamos que façam para que tudo corra bem e os momentos sejam felizes. Tendo também a noção de que os nossos actos têm reflexos nos nossos filhos e, no fundo, é tudo uma imensa bola de neve. E muitas vezes, as crianças participam das decisões, de escolher a comida, a roupa, o sítio onde vamos passear, que actividade vamos fazer. Tudo com peso e medida e claro, com os pais a orientarem a decisão. Eu, como adulta, prefiro mil vezes que me expliquem o porquê de as coisas serem assim, do que simplesmente me mandarem fazer uma coisa sem eu perceber o motivo ou o seu fundamento. E nas crianças é igual.

No entanto, ter este tipo de atitude com um amontoado de filhos, pode cansar…aliás, cansa mesmo. Porque NUNCA querem a mesma coisa, NUNCA estão com a mesma disposição, NUNCA lhes apetece a mesma actividade. E a mãe passa de apenas mãe a diplomata num ápice, de conselheira a negociadora em três tempos, de calma a furiosa num abrir e fechar de olhos, de sorridente a louca em segundos. E arrepende-se mil vezes de lhes ter dado hipóteses de escolher, de lhes ter dito onde íamos e com quem, de lhes ter dado a possibilidade de decidir. Estarei a exagerar, é verdade, mas em geral estas cenaças de “ãh? não quero ir a esse parque”, “oh, não me apetece esta comida”, “não, ontem foi a mana que decidiu que jogo fazer”, “mas onde é que vamos? porquê? com quem? como? quanto tempo? como é que se chama o sítio?”, “não há aqui nada para fazer, tu disseste que era fixe e é chato, quero ir para casa”, estas cenas deixam-me doida desesperada.

Vai daí, um destes dias, lembrei-me de quando era jovem, quando o meu pai chegava à sala e me dizia “anda daí”. Da primeira vez perguntei “onde?” e ele respondeu “não interessa, vens com o pai e mais nada”. E eu ia! E gostava SEMPRE de onde ia. Sabem porquê? Porque não sabia patavina do sítio onde ia, quem lá estava e o que lá havia, ou o que ia fazer. Não tinha expectativas, não criava imagens, não esperava nada.

Assim sendo, instituí o momento “anda daí” num belo dia de Agosto, na Praia de Mira, na casa de uns amigos mesmo em frente ao mar, em que não queriam sair de casa, não queriam ir à praia, não queriam nada e eu achar um desperdício de tempo. Sim, eram cinco da tarde, sim, na Praia de Mira muitas vezes está fresquote mesmo em Agosto, mas que raio, estávamos de férias e não queriam ir à praia??? Obriguei-as Disse-lhes para se vestirem, muni-me de mochila, bolachas, água e uma pequena toalha de praia, agarrei no amontoado e fomos para a areia, para a beira-mar, andar, saltar, correr, ver as gaivotas, cantar. Expliquei-lhes que aquele era um momento anda daí e foi muito divertido e giro. Valeu mesmo a pena e agora sempre que quero fazer alguma coisa e não quero ser matraquilhada com perguntas, informo que é o momento “anda daí” e elas aceitam bem. Eu às vezes sou mesmo iluminada desenrascada!

A hora da dia em que “a mamã manda”

Quando as pessoas me perguntam (muitas vezes, por sinal) como é que consigo, respondo quase sempre na brincadeira “Ah, eles têm muito medo de mim” ou “eu arregalo muito os olhos”, o que não deixa de todo de ser verdade. Mas se me puser a pensar no assunto, acho que parte do segredo está em dar-lhes autonomia e alguma responsabilidade. Também ajuda confiar nas escolhas deles e, pasme-se, deixá-las muitas vezes fazerem o que querem, o que lhes apetece. Por exemplo, passamos muitos fins-de-semana inteiros em casa, sem pegar no carro. Felizmente, temos uma casa grande e um pinhal mesmo ao lado. Felizmente, temos sempre projectos e tralha/material para fazermos manualidades e a malta entretém-se muito. A maior parte das vezes, eles andam cá por casa sem eu estar a ver o que estão a fazer, inventam brincadeiras, levam brinquedos de um lado para o outro, vão dar banho às bonecas, fazem jogos, acampamentos, tanta coisa. E eu assim consigo ir fazendo as cenas da casa (já vos disse que eu tinha perfil para ser dondoca? Não? Eu tinha, eu tinha), enquanto eles andam por aí. Também acontece muitas vezes serem elas a escolher o programa a fazer nesse dia, o que comer ou o que fazer a seguir.

Mas tudo isto tem um limite e eles sabem, vá, elas sabem (o moranguito ainda é pequenito para perceber algumas destas coisas) que quando a mãe diz “esta é a hora do dia em que a mamã manda”, é porque a coisa é mesmo séria e é para parar com a palhaçada. Aplico-a normalmente quando preciso que comam, ou quando é para tomar banho, ou quando é para acalmar antes de ir dormir. Mas não julguem que foi assim muito pacífico da primeira vez, tive que lhes dar o cházinho sermãozinho de “a mãe fez tudo o que vocês pediram, fomos onde vocês quiseram, desarrumaram o que vos apeteceu, agora é a vez de a mãe mandar porque a mãe foi vossa amiga e deixou-vos decidir tudo”, não sem atirar de quando em vez com um “têm muita sorte em terem a mãe que têm que vos deixa fazer tudo e vos deixa escolher, percebem?” ou um “eu sou vossa mãe, não sou vossa criada, não mereço que desarrumem tudo e nunca arrumem as coisas a tempo, porque assim em vez de estar a brincar convosco estou aqui de joelhos no chão a arrumar as vossas coisas”…(eu consigo ser muito parva quando quero…ai ai).

Hoje em dia, aceitam muito bem e sem pestanejar quando digo que é a minha hora!

A hora do “quero lá saber”

Antigamente, eu era uma gaja freak da organização. Antigamente, passava tudo muito bem a ferro, tinha a papelada toda organizada, sabia o que tinha nas gavetas, sabia de cor os aniversários dos amigos, tudo tinha um sítio. Antes, raramente havia pó nos móveis e loiça por lavar na pia. Mas isso era antigamente, antes de ter filhos, ou melhor, antes de ter gémeas.

Aos poucos, fui deixando de conseguir ter a papelada organizada. Aos poucos, fui acumulando cenas em vários sítios que não eram o seu sítio e deixei de conseguir encontrar as coisas facilmente. Depois, veio mais um filho e, apesar de ele ser muito fácil de tratar, foi mais um factor a pesar para que a minha casa estivesse tantas vezes descontrolada. Olho muitas vezes para a sala e desabafo “isto está um caos!” e penso que me fazem falta armários com gavetas e gavetinhas para esconder e arquivar as coisas. Agora há sempre pó nos móveis, é incrível como ganham tanto pó. Agora o chão tem sempre pêlos da cadela, bocadinhos de papel recortado, restos de plasticina, matéria estranha e sei lá mais o quê. Agora os cestos de roupa para lavar nunca estão vazios e os estendais têm sempre roupa para apanhar. Agora há sempre carradas de loiça para lavar e eu, aliás nós, mãe e pai, temos sempre montes de coisas em casa para fazer.

Mas um dia achei que estava a pensar demasiado no antigamente e no agora, e aceitei as evidências. A minha vida tem muito mais agora do que tinha antigamente, tem muito mais amor e momentos felizes, e eu só os posso viver na plenitude se de vez em quando estiver na “hora do quero lá saber” da loiçaa, da roupa, do pó, dos papéis, da comida, do caneco mais velho. Quero lá saber!!!! Gritem todos, vá: QUERO LÁ SABER!!!!! É libertador e não ficam mais ou menos boas pessoas se o fizerem de vez em quando. Ficam é muito mais felizes!