Ela nasceu no dia de anos dele. Quando ela olhou para ele, deve ter-lhe lançado um feitiço, porque logo a seguir me enviou uma mensagem “olha para estas fotos tão irresistíveis”. Liguei-lhe imediatamente a perguntar “que raio de ideia é a tua? Nem penses em levar o cão lá para casa, já viste bem a nossa vida?”. Ele disse pronto está bem, está bem, mas havias de a ver, é tão meiguinha, tão linda, é que é mesmo linda. Sim eu sei, mas agora ainda não dá, o Joaquim só tem 9 meses pá!

Ao fim da tarde, depois de recolher a canalhada, fui buscá-lo a ele. Tinha uma caixa na mão, pensei que fossem corgetes ou algo assim que lhe tivessem dado. As pessoas de volta dele, olhavam-nos com um ar comprometedor, mas eu não estava a perceber nada. Entra no carro, ao lado das meninas e diz “olhem o que tenho aqui?”.

E pronto, fui vencida pela rapidez e por ter toda a gente a enganar-me. E também pelo olhar da pequena cadela rafeira, filha de uma ninhada de uma cadela abandonada, que teve a sorte de ser adoptada por um casal que tentou encontrar donos para os filhotes. E esta pequena fofinha teve a sorte de se cruzar na frente de um pai que há muito achava que os filhos deviam ter um cão, que andou a pesquisar sobre a melhor raça para crianças, que tem um coração mole e que faz anos no mesmo dia que ela.

As cerejinhas ficaram histéricas. Doidas com o novo brinquedo. Assim pequenina, a dormir, numa caixa, castanha e branca, linda de morrer. Era mesmo irresistível. Eu tanto estava deliciada com a cadelita, como fula com o pai cerejo.

Tive um cão 12 anos. Um setter irlandês doido de todo, lindo, amigo, inseparável. Sabia bem o que era tratar de um cão, a trabalheira que dá a educar, a disciplina que é preciso ter. Sabia o que era ter que o deixar em hotéis para ir de férias. Sabia o que custavam vacinas e tratamentos e comida. Sabia isso tudo.

A primeira coisa que fizemos foi ir ao veterinário. Trazia pulgas, não estava desparasitada. A outra coisa foi arranjar-lhe um nome. Esteve para ser Betsy, mas entretatno achei que, já que ia fazer parte do cerejal, tinha que ser o nome de um fruto vermelho. Amora, ameixa, framboesa. Até que surgiu Ginja que cumpria as regras de ter um i aberto para ela reconhecer a quilómetros que a estamos a chamar.

Os primeiros tempos foram difíceis. Ela gania à noite por querer companhia. Ficava o dia todo em casa sozinha, fazia xixi e cócó por todo o lado onde podia andar, roeu a parede, roeu as mantas, roeu guardanapos, sei lá. Roeu a trela, roeu o sofá no cantinho (não me digam nada que fico cheia de nervos!!!), roeu o meu utensílio espectacular para fazer meias de leite com espuma, roeu as mãos da Elsa.

Criámos rotinas de passeio. Umas vezes eu, outras o pai cerejo. Mais ele que eu. Rotinas de alimentação. Rotinas de silêncio. Ensinámos a sentar, a ficar quieta, a andar solta no pinhal sem fugir (o que já aconteceu algumas vezes, porque ela vai atrás de outros cães para brincar), criámos regras em conjunto com os meninos: não dar comida à mesa, não chatear quando está a dormir, não deixar brinquedos espalhados, não deixar ir para o sotão, fazer festinhas quando ela faz algo bem. Não a deixar subir para o sofá ou para as camas, não lhe dar roupa para ela brincar, não a fechar nas divisões da casa.

Decidimos que tinha que ser esterilizada. Aqui há muitos cães vadios e sabíamos lá o que podia acontecer. E também não queria ter mais uma preocupação com períodos cá em casa. Encontrámos a solução mais em conta, mais barata e profissional que conseguimos (posso depois dizer-vos como) para ser esterilizada e para pôr o chip.

Agora, quase um ano depois, digo que foi complicado ter três crianças, uma a começar a gatinhar e haver xixis pela casa. Muitas vezes os pisámos, muitas vezes havia no tapete. Uma porcaria, é certo. Andava sempre de esfregona na mão, parecia que estava no desfralde das gémeas. E estando sozinha em casa com os três, não dava para a ir passear. Agora já dá mais ou menos, o Joaquim já vai a pé comigo e com ela, ou então, se ela estiver mesmo aflita e não conseguir ir devagar, levo-o ao colo enquanto ela faz as necessidades. Mas é muito complicado na mesma, porque fico sempre com uma mão presa para segurar a cadela e três filhos à solta.

E para os meus filhos, o que trouxe a cadela de bom? Companhia, divertimento, empatia, coragem, amizade, responsabilidade, tanta coisa boa. Aprenderam a tratar de um animal, a respeitá-lo, a deixar de ter medo de cães. Aprenderam a educar um cão, a recompensá-la, a perceber como cresce um animal. E ela aprendeu a brincar com as “manas” sem as magoar, chama-as para lhe atirarem o brinquedo, senta-se ao lado delas. E é diferente com o pequenino, com ele é muito mais cuidadosa, muito mais calma. Só há uma coisa que me chateia: é ela lamber-lhe a cara toda, a dar-lhe beijinhos.

E para mim o que me trouxe a cadela de bom? Sabem-me bem aqueles momentos a sós com a cadela na rua, no pinhal a passear, assim de manhãzinha, a levar com o ar frio nas ventas no inverno e a fresquinha no verão. Sabem-me bem todos os momentos ternos que os meus filhos têm com a cadela, toda a alegria que sentem quando a Ginja faz uma coisa que pediram, todas as gargalhadas quando ela corre feita doida no pinhal, ou vai buscar um pauzinho, ou quer subir para o colo deles no sofá.

Talvez o problema maior não seja até ela estar educada na higiene e nos comportamentos quando saímos todos juntos. Talvez o problema maior vai ser quando ela ficar doente e morrer. Não quero imaginar a tristeza. Já passei uma vez por isso, com o meu Camões. Mas não tinha filhos. Nem quero imaginar como será a minha tristeza por ver os meus filhos tristes por um dia não terem mais a Ginja para brincar. Mas por ora, quero apenas concentrar-me na alegria que esta casa ganhou com a vinda da Ginja, uma cadela rafeira, meia Beagle,, linda de morrer, com olhos doces, que ia nesse dia para o canil quando se cruzou com a nossa família, que era para ser pequena/média e já está com vinte quilos, que também quer colo quando dou colo aos meus filhos, que anda sempre atrás de nós, que adora comer gelo e alface, que faz uns montinhos com a manta e a cama, que fica doida com gatos, que adora bolas de plástico, que é o aspirador da comida que os meus filhos deixam cair para o chão, que me faz ter a casa sempre cheia de pêlos, que salta pelo pinhal de felicidade, que é meiguinha com toda a gente, que quer brincar a toda a hora, que nos adora.

Também te adoramos, Ginjolas <3

It seems there's a #newfamilymember

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