…por ter tido a possibilidade de participar tão activamente na vida escolar das minhas filhas no jardim-de-infância.

Estou bem habituada a demorar o tempo que for preciso para a minha filha ficar bem na escola, durante os dias que ela precisar.

Estou bem habituada por não ser pressionada a entregá-la à força nos braços de uma pessoa na qual confio, mas que ainda é uma estranha para ela.

Estou muito bem habituada a entrar na escola, a acompanhar a minha filha até à sala ou outro espaço.

Estou muito bem habituada a não me sentir um extraterrestre por tentar que a minha filha entre com calma na escola, que deixe de chorar e que fique serena, por lhe falar ao ouvido calmamente, por a tentar tranquilizar  que vai correr tudo, que é natural que esteja com medo, que a escola é um sítio mágico e bom, onde aprendemos coisas novas e interessantes, onde fazemos amigos para a vida.

Estou habituada a entrar na escola. A olhar todos os dias nos olhos de quem passa o tempo, o dia, com a minha filha. A saber como correu o almoço nesse dia.

Estou habituada a estar um bocadinho no recreio, à espera que ela acabe de brincar com a amiga nova que fez nesse dia.

Estou muito bem habituada a que no recreio haja terra, plantas, pneus, troncos e banquinhos, espaços diferentes para que não passem apenas o recreio a correr e aos encontrões uns aos outros, para que possam descansar um bocadinho e sobretudo conviver.

Eu estou bem habituada!

Sei que vou ter que me adaptar, que me vou habituar com o tempo. Mas é muito difícil para mim, porque sempre me custou aceitar as coisas que não entendo. Se me explicarem, se houver uma razão lógica e aceitável, eu entendo, aceito e habituo-me.

Mas não me consigo habituar a este sistema. A este corte tão grande entre o pré-escolar e o primeiro ciclo. Não consigo entender porque não se integra um pouco do jardim-infantil nas primeiras semanas do primeiro ciclo e, aos poucos, gradualmente, ir então mudando para o sistema da escola primária. Não percebo porque temos que acelerar o ritmo e fazer a passagem à pressa, sem calma, sem paciência, assim de chofre. Uma semana não chega.

E não consigo entender este sistema, não temos todos ritmos iguais e as crianças muito menos. Se algumas se adaptam logo no primeiro dia, outras demoram mais um dia, uma semana, várias semanas, meses…e em parte, isto acontece, porque a diferença entre o primeiro ciclo e o jardim-infantil é gigante, seja ele público ou privado.

Ando há alguns tempos a precisar de viver mais devagar. A aproveitar o presente com calma. E sinto que no sistema escolar parece que ser quer pôr o carro à frente dos bois.

Alguns jardins-de-infância ensinam as crianças a ler no último ano para quando chegarem ao primeiro ano do primeiro ciclo não sofrerem um choque tão grande. Algumas escolas primárias optam por ter um professor diferente todos os anos para não terem um choque tão grande quando chegarem ao quinto ano e tiverem que ter vários professores diferentes. Algumas escolas passam o ano a dar matéria apenas para estarem preparados para os exames no final do ano. No secundário os miúdos passam a vida a preparar-se para quando tiverem que escolher o curso na Universidade. Mas que é isto? Que ansiedade! Que pressa!

Que angústia! Porque não pode ser antes ao contrário? Porque não pode o grau seguinte integrar um pouco do grau anterior e fazer uma adaptação gradual? Porque é que a escola primária não pode criar mecanismos para que as crianças possam estar mais livres e em rodinha como faziam no jardim-infantil, em vez de terem que estar logo sentados numa secretária virados para o professor, apenas a verem as costas uns dos outros, e a não interagirem? Porque é que os recreios têm todos que ser um monte de cimento e betão, despidos de vida e encanto? Porque é que os pais não podem participar na vida da escola, mas de forma genuína, descontraída e sem formalidades?

Talvez aquilo que eu pensava que me ia preocupar mais, seja o que menos me preocupa neste momento. A parte lectiva, em sala. O que está a ser difícil é tudo o resto, todos os outros momentos, a organização, o sistema, a distância, o afastamento, a incógnita.

Já pensei se estaria a ser uma mãe galinha histérica. Mas sei que não…estou apenas a questionar o sistema, porque não o percebo e sinto que não é bom para as crianças. Dizem-me “mas ela vai adaptar-se, vai correr tudo bem e daqui a algum tempo, já fica bem”. Talvez. Mas para já, não estou descansada. Porque razão há-de a minha filha passar para uma fase tão bela e importante da sua vida com tanto stress emocional? Desde quando o mundo começou a desvalorizar o choro e a angústia de uma criança que está a tentar adaptar-se? Desde quando o mundo começou a olhar para as crianças como outra coisa que não apenas uma criança? Desde quando é que uma mãe tem que deixar uma filha na escola a chorar? Não entendo.

Tantos porquês na minha cabeça…tanta pergunta por responder. Custa-me muito perceber este sistema. E vai ser muito difícil habituar-me…até porque não tenho vontade de o fazer. Tenho vontade de conversar calma e tranquilamente com a escola para perceber a abertura para mudanças graduais, pequenas e com sentido, que respeitem o ritmo das crianças, que os deixem ser um pouco mais livres e ao mesmo tempo responsáveis, que os faça querer ir para a escola sem dramas. E julgo que não estou a ser egoísta nesta vontade, porque se com isto a minha filha deixaria de estar tão triste, tenho a certeza que muitas crianças também precisam destas mudanças.