Eu tenho uma cadela. Ela tem necessidades básicas. Ela faz xixi e faz cócó.

Eu ando na rua. Eu ando nos passeios. Eu costumo olhar para o chão, mas também tenho que andar de cabeça levantada.

Eu tenho filhos. Eles andam nos passeios. Eles nunca andam de cabeça baixa a olhar para o chão.

Eu vivo no campo. A cadela faz as necessidades no meio do pinhal, onde não há passeios, nem pessoas.

Às vezes, a cadela vai à cidade. Ela nesses dias também faz necessidades. Nas cidades não há pinhal. A cadela anda nos passeios. A cadela tem donos. Os donos têm bolsos onde podem guardar sacos. Os sacos compram-se a metro num supermercado ou até se roubam dos dispensadores ao pé da fruta nesses mesmos hipermercados.

Os cães não têm um aspirador. Os donos têm que parar para o cão fazer cócó. Os donos não podem dizer que não viram, porque tiveram que parar a marcha para o cão conseguir defecar.

Os donos têm mãos. Os donos metem a mão dentro do saco e agarram os dejectos fecais do cão com o saco. Os donos dão um nó no saco e procuram um caixote do lixo. Os donos deitam o saco no lixo e o passeio fica limpo.

Para o caso de não saberem, é assim que se faz quando se tem um cão na cidade, que anda nos passeios e é aí que defeca e urina.

Para o caso de nunca terem pisado cócó de cão, têm oportunidade de o fazer. Quando o vosso cão defecar num passeio, pisem-no imediatamente, com vigor, pois se não estão para apanhar os dejectos com um saco, ao menos levem-no agarrado ao vosso calçado que é para evitar que o calçado minúsculo dos meus filhos, calque o dejecto gigante do vosso cão. É que depois tenho que enfiar o calçado deles no saco que anda sempre no bolso para quando a nossa cadela vem à cidade, para não encherem o chão do carro com cócó de cão e ter que fazer a viagem até ao campo, onde vivemos, com um cheiro a cócó que não se aguenta.

Já agora, se não vos custar muito fáxavor de deixar um bilhetinho com a vossa morada, pois temos sempre um saco no bolso para apanhar os dejectos quando a nossa cadela vem à cidade e teremos todo o gosto em fazer-lhe o favor de o apanhar e colocar à sua porta. Garanto-lhe que tem ocupação para alguns minutos a tentar tirar do calçado do seu filho, o cócó do seu cão, antes dele entrar para o seu carro limpinho e imaculado.

Outra coisa, aproveite para ensinar aos seus filhos as regras de ter um cão na cidade que faz as necessidades no passeio que é para eles, um dia quando forem adultos e vierem a ser donos de um cão, levarem sempre no bolso um saco daqueles da fruta do hipermercado para apanhar os dejectos do seu cão fofinho que não tem culpa de ter necessidades fisiológicas. Se calhar nessa altura, já inventaram uma sanita desdobrável e descartável para cães, mas duvido que a fisiologia dos cães mude assim tanto e que eles consigam acertar no alvo. Ainda assim, julgo que a ciência e a tecnologia não vão evoluir assim tanto só por causa de haver donos que não apanham os cócós dos seus cães dos passeios e haver filhos de pessoas como eu que pisam cócó e não passam a vida a olhar para o chão.

Agradecida!
(ah, aqueles relvados muito bonitos e verdinhos que ficam ao lado dos parques infantis, também contam; é que, incrivelmente, há crianças como as minhas que vão para lá correr e até jogar à bola, vejam só a afronta!)