Ter alergias é lixado. Chega a Primavera e é espirros e pingo no nariz a toda a hora. Vou a casa de alguém que tem um gato e passo a vida a fugir do bichano. Vou piqueniquar e tenho que me munir de anti-histamínicos. Este tipo de alergias (pólenes, pó, gatos) são muito limitadoras, mas são controláveis e não me deixam apavorada. Mas desde que descobri ter alergias alimentares (aos caracóis e ao mel), que o caso mudou de figura. Apesar de não serem a alimentos muito presentes ou essenciais, tenho que ter atenção ao que como fora de casa. Claro que por ter este terreno alérgico, fico muito mais susceptível e alerta a comportamentos e reacção dos meus filhos aos alimentos. E também estou mais desperta para o que circula na net sobre o assunto.

Foi numa dessas pesquisas que encontrei o blog O Copinho de Leite, onde a Marlene fala da vida com o seu filho que tem alergia à proteína do leite de vaca. Perguntei-lhe se queria colaborar comigo e responder a uma entrevista, ela gentilmente aceitou e aqui está. Esta mãe fala como se a vida fosse fácil, e talvez seja sim, mas compreendo que terá sempre um certo receio inerente. Com a alergia alimentar não se brinca, nunca.

Gostava de alertar as pessoas que trabalham em hotelaria, restauração, catering que deviam ter formação em alergéneos e em boas práticas para evitar contaminações cruzadas. E também nós adultos devemos ter o cuidado de perguntar aos pais, se estiverem presentes, ou mesmo às crianças se podem comer de tudo, se não têm nenhuma alergia, antes de oferecermos comida. Podemos evitar muitos episódios. Se vos disser que a cerejinha L pergunta sempre se algum bolo tem mel antes de eu provar, porque sabe que não posso comer, ficariam surpreendidos de certeza.

Obrigada Marlene! Espero que mais pessoas cheguem ao Copinho de Leite e que encontrem ajuda, inspiração e sobretudo apoio.

 

Fala-nos um pouco de ti e da tua família

Somos três, cá em casa. Conheci o meu marido numa festa da faculdade e, desde então, nunca mais nos separámos, apesar de sermos o oposto um do outro! Depois de oito anos de namoro casámos e, passados três anos, tivemos o nosso primeiro e único filho, o Pedro. Ao longo destes anos, já passámos por mais provações que muitas pessoas numa vida inteira… e não estou a falar da alergia alimentar. Mas, como diria a Teresa Guilherme, isso agora não interessa nada! É apenas uma pequena nota para sublinhar a nossa enorme capacidade de resiliência.

 

Conta-nos como e quando suspeitaste de alergias no teu filho?

Eu sempre suspeitei que algo não estava bem, não sabia era o quê. O eczema completamente descontrolado acabou por fazer tocar as campainhas de alerta ainda mais alto.

 

E como confirmaram o diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca?

O diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca foi confirmado através de análises sanguíneas, aos quatro meses. Foi nesta altura que o Pedro teve uma reação alérgica grave, depois de ter comido papa instantânea pela primeira vez.

 

O que sentiste nesse dia?

Senti-me muito confusa e com muitas dúvidas.

 

Que mudanças e cuidados têm na vossa vida, alimentação, rotinas, saídas?

A nossa vida mudou muito. Vivemos em modo de alerta permanente e tudo é equacionado em função da restrição alimentar do nosso filho.

 

Achas que é possível fazer uma vida normal com uma alergia alimentar?

A questão da normalidade é sempre relativa, mas creio que sim. Acabamos por encontrar a nossa “normalidade”, que poderá passar por levar marmita para um casamento, por exemplo.

 

Apesar de ser uma situação difícil e com gravidade, tens alguns momentos caricatos para contar?

Claro que sim! A linha que separa a tragédia da comédia é, por vezes, muito ténue. Recordo com carinho quando, há alguns anos, estava a ler uma história cujo personagem era um pato e o meu filho me perguntou se podia beber leite de pato.

 

Qual é o teu porto de abrigo e onde encontras forças para enfrentar o futuro?

O meu porto de abrigo é, sem dúvida, a família. As forças para encarar o futuro encontro-as no meu filho. Ele é e será sempre o motivo principal para manter-me positiva, focada no presente e confiante no futuro.

 

E o teu filho consegue perceber o que é a alergia? Como lhe explicas o que deve e não deve comer?

Tentei, desde sempre, falar-lhe da alergia alimentar de um modo ajustado à sua capacidade de compreensão. Ele sabe que se contactar com algo que tenha proteínas do leite de vaca poderá ficar “muito doente” e ter de “ir para o hospital”.

 

Uma pessoa com alergias ouve e sente muita coisa vinda das outras pessoas. Quais as perguntas ou observações que mais te fazem? E como reages?

A alergia alimentar é uma condição clínica desconhecida para muitas pessoas, pelo que, não levo a mal as questões que fazem habitualmente e as eternas confusões entre alergia e intolerância alimentar, a título de exemplo. O que mais me desilude são as pessoas que, já cientes desta realidade, não demonstram a mínima empatia pela situação, nem adequam comportamentos.

 

O que significa para ti escreveres no blog?

Escrever no blog é um processo catártico, não tenho dúvidas. Sou um cliché, não há volta a dar!

 

Que conselhos darias a outras famílias que estão a passar por um diagnóstico de alergia alimentar?

Aconselharia a procurarem médicos especialistas na área da imunoalergologia e, caso fosse necessário, de outras especialidades. Outro conselho é nunca sair do gabinete médico com dúvidas.

 

O que é para ti ser mãe?

É um exercício prático de amor incondicional.

 

Gostas de cerejas?

Muito, sobretudo das do Fundão!