…experimentar e explorar.

Tenho lido sobre o muito tempo que as crianças passam fechadas em casa agarradas aos tablets, televisão e consolas, e sobre o pouco tempo que passam na rua a brincar com os amigos, a explorar e a experimentar. Tenho ouvido pais de agora a recordarem a infância de outrora, em que passavam o santo dia na rua a correr, a andar de bicicleta por montes e vales, a inventar brincadeiras com aquilo que havia na rua e na natureza, ou simplesmente a conversar e a socializar com os amigos. Tenho lido sobre o imenso tempo que os miúdos passam enfiados em salas de aula, sem terem contacto com  realidade, sem verem e ouvirem aquilo que estudam, sem experimentarem as leias da física e da química na vida real, sem conhecerem os animais e as plantas que encontram nos livros de biologia, sem conhecerem as cidades e serras que descobrem em geografia, sem aplicarem a matemática ao que os rodeia. Tenho lido sobre as diferenças entre a educação em Portugal e nos países nórdicos, desde a creche até à universidade.

Sim, temos um longo caminho a percorrer. Estamos a dar-nos conta, eu como mãe de três e outros como educadores, professores, sociólogos, psicólogos, terapeutas que algo vai mal na educação das crianças neste país, que algo tem que mudar, que temos que mudar de direcção.

Mas sejamos francos…sim, percorram bem e analisem bem tudo o que têm feito ao longo da vida das vossas crianças, metam a mão na consciência, eu incluída, e lembrem-se de quantas vezes optaram pelo shopping em vez do parque da vossa cidade, de quantas vezes deram o computador, telemóvel e outro aparelhómetro para distraírem os vossos filhos em vez de lhes mostrarem uma cidade, aldeia ou recanto, de todas as vezes que lhes deram um livro para as mãos sem o lerem em conjunto, de todas as vezes que nunca lhes falaram da família, das vezes em que foram comer fora em vez de irem fazer um piquenique.

Recordem as frases castradoras que disseram ou deixaram os outros dizer aos vossos filhos:

“Olha que tu cais” quando experimentam subir pela primeira vez o sofá ou um muro no quintal.

“Olha que te sujas” quando quiseram mexer na terra dos vasos que está para ali parada, à espera que se plante qualquer coisa.

“Olha que te molhas” quando querem chapinhar nas poças de água e andar um bocado à chuva.

“Olha que te constipas” quando quiseram ir jogar à bola num dia frio de Inverno.

“Olha que te aleijas” quando quiseram ajudar-nos a descascar uma courgete com o descascador.

“Olha que não vais conseguir” quando eles querem abrir sozinhos a caixa dos legos.

“Corre devagar” como se fosse possível a alguém correr devagar.

Sim, temos todos que parar para pensar e deixarmos as crianças ser crianças que exploram e conseguem, que têm curiosidade e aprendem, que têm necessidade de correr, rir e saltar só porque sim.

Nem sempre fui assim. Também eu usei muitas vezes a frase “olha que tu cais” quando os meus filhos queriam subir sozinhos as escadas do prédio. Este processo de libertação não se consegue de um dia para o outro. Com o tempo fui percebendo, graças a alguns livros e sobretudo desde que as meninas frequentam o jardim de infância, que é bom para os meus filhos explorarem, serem autónomos, crescerem a errar, sujarem-se, experimentarem, criarem e até apanharem seca para descobrir novas brincadeiras. E também é bom para mim que fico mais descansada, segura e liberta de algumas tarefas, e saio de casa, apanho ar, aprendo, mexo-me.

E fico mais feliz, porque prefiro que aprendam a contar com folhas ou cogumelos no pinhal do que apenas com imagens nos livros.

brincadeiras com vasos e terra na varanda

brincadeiras com vasos e terra na varanda

adora caminhar no pinhal e apanhar pauzinhos

adora caminhar no pinhal e apanhar pauzinhos

 

(brincadeira inventada com mais duas amigas num dia de muito calor e que repetem sempre que a maluca da mãe deixa)