Ir e fazer Ler Ouvir

É urgente a mudança!

7 Junho, 2018

Aferição: acto de aferir

Aferir: comparar, apreciar

Tenho muito medo das provas de aferição, não pelo que dizem ser o seu propósito, mas pela forma como são desenhadas.

Se o grau de dificuldade for muito elevado, os miúdos têm resultados baixos e vem logo a malta do ministério e da comunicação social gritar aos quatro ventos, aqui d’el rei, que os miúdos do 2º ano (e dos outros anos) não sabem nada e toca de encharcar de matéria os do 1º, assoberbá-los a eles e aos professores ainda com mais conteúdos, para que no ano seguinte não se espalhem nas provas de aferição.

Se o grau de dificuldade é baixo ou aceitável, vêm logo os puristas das matérias afirmar que estamos a formar preguiçosos, que não são estimulados a aprender mais e que se promove a cultura do facilitismo, sendo que o resultado final é o mesmo que no caso anterior, enfiar ainda mais matéria para dar num só ano, porque afinal as crianças até tiveram boa nota nas provas de aferição, por isso são muito bem capazes de assimilar mais conteúdos.

O que me causa espécie, é só acordarmos para a vida quando saem para a comunicação social os resultados das provas de aferição, eu incluída. O que me angustia, e muito, é ouvir todos os dias, pais, mães, professores, educadores, psicólogos, afirmar à boca cheia que o que estão a fazer com as crianças do primeiro ciclo é uma violência atroz e, mesmo assim, continuar tudo na mesma! O que me deixa inquieta, é sentir que a maior parte dos professores é contra este exagero de matéria, de antecipação de conteúdos, que se viram do avesso para cumprir as metas, que lá no fundo sabem que não é o melhor para as crianças, mas não se conseguem fazer ouvir. O que me entristece, é o baixar de braços dos pais que sabem que os seus filhos se acabam por adaptar ao sistema, mas à custa de um esforço louco para apanharem o comboio, de ficarem esgotados mentalmente ao fim de um ano lectivo e de muitas horas em casa de volta dos tpc’s, em vez de brincarem e terem tempo em família. O que me espanta nestas definições, nestas mudanças que foram feitas ao longo dos anos, nas reuniões e documentos todos, é não se ter em conta o RESPEITO pelas crianças que não são pequenos adultos, são tão e somente crianças!

O que me dá ânimo para meter o bedelho nestas coisas, eu que sou simplesmente uma mãe que este ano iniciou a escolaridade obrigatória das suas filhas e que defende convictamente a escola pública, é ter a certeza que todas as crianças têm curiosidade natural e uma vontade louca para conhecerem o mundo! O que me faz falar e escrever sobre o ensino, é querer fazer parte da mudança e tentar que decidam, finalmente, OUVIR as crianças, em primeiro lugar! E depois os professores que estão no terreno, os psicólogos, os pais, os directores das escolas, os pedagogos, mas aqueles que não queiram ser mais papistas que o papa, que não queiram puxar apenas a brasa à sua sardinha, que não queiram apressar o ensino! Que estejam dispostos a ouvir a escutar, a desacelerar!

Há várias questões a abordar, há muitas variáveis no ensino, na educação, há muito a ter em conta. Mas tudo o que tem vindo a ser reconhecido como errado e prejudicial à saúde das crianças, famílias e professores, só tem um nome: METAS CURRICULARES.

Quando os conteúdos levarem um corte em termos de quantidade programática, quando, por exemplo, não tivermos que ter as crianças do 1º ano todas a ler no Carnaval (e algumas até nas férias do Natal, pasme-se!), quando não se cronometrar a velocidade da leitura, quando não forem impostas fracções já no 2º ano, tudo o resto, TUDO, fica mais natural! Porque assim, todos têm oportunidade!!! É que a quantidade absurda de matéria que tem que ser dada para serem cumpridas as metas curriculares, retira a todos uma coisa simples: OPORTUNIDADE!

Para as crianças aprenderem cada uma ao seu ritmo, sedimentarem o que aprenderam, aplicarem no dia-a-dia o que ouviram, fazerem perguntas para aprenderem mais, investigarem, explorarem com recurso à arte, estarem simplesmente de volta dos seus pensamentos. Para os professores conseguirem ter tempo para TODAS as crianças de igual forma, desenvolverem projectos, integrarem matérias das várias disciplinas, fazerem diferente mesmo cumprindo aprendizagens essenciais, saírem com os alunos para a comunidade envolvente, conseguirem sedimentar conhecimentos, ouvirem os seus alunos e dizerem todos os dias “eu consegui!” de uma forma natural e não com a sensação amarga de “faço milagres!” que hoje em dia todos dizem sentir. Ninguém quer ser um herói, um milagroso, queremos só ter crianças felizes na escola, todas com vontade e TEMPO para aprender.

Defendo com unhas e dentes a escola pública! Sei que nem tudo está mal no ensino, mas, de facto, nem tudo está bem. 

Também quero dizer basta! Também quero dizer que isto tem que mudar!. Em conjunto. Não é de costas voltadas uns para os outros, é unidos, pais, alunos, professores, educadores, psicólogos, directores, ministros, secretários de estado, estudiosos, pediatras, todos.

O interesse das crianças está primeiro, por favor!

  • Responder
    Xica Maria
    7 Junho, 2018 at 20:54

    Eu não acho que estamos a educar preguiçosos pelo contrário! Eu no meu tempo não estudava tanto e tantas horas como os miúdos de hoje em dia! E depois como querem que saltem a corda?!

    • Responder
      mamã cereja
      26 Junho, 2018 at 12:54

      Tantas competências que se podem adquirir sem ser sentado a uma secretária!!!

  • Responder
    Sandrine
    7 Junho, 2018 at 14:26

    Nem imaginas o quanto concordo contigo…também achei inacreditável me dizerem o ano passado que a minha filha teria de saber ler até ao Natal! WHAT?? Ainda agora entrou na escola!! E fiquei CHOCADA quando me apercebi no início do ano letivo que ela tem provas de aferição este ano… Porquê sujeitar crianças de tão tenra idade a estas provas?? Sujeitá-las a empilhar matéria que não ficará consolidada…Sinto uma angústia muito grande nos miúdos, quando vejo o seu medo de falhar, perante os pais, os colegas, os professores!! Ainda ontem questionava quando saberia se passava de ano :(!
    Ela que, costuma adorar a escola e no outro dia me dizia “Mamã, tenho de ir para a escola! Estou cansada da escola”, o que demonstra o nível de cansaço físico e principalmente emocional a que as nossas crianças estão sujeitas diariamente… E quero afirmar que ela não está atolada de actividades extra curriculares, tem as AEC na escola, vai a catequese ao Domingo e ensaia num rancho folclórico à sexta-feira à noite!
    Esta semana foi semana de testes, para as próximas as provas…e só depois as tão desejadas férias!!

    • Responder
      mamã cereja
      7 Junho, 2018 at 15:36

      O problema é viver-se para as provas…um grande abraço minha linda, temos que agir!

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