Andei muito em modo offline este mês. Ora por falta de rede, ora por cansaço, fui deixando alguns artigos já meios escritos para publicar mais tarde. Também comecei a sentir que estar só a postar coisas sobre as férias e sobre dias quentes e far niente, seria desinteressante. E no meio destes pensamentos surgiu-me a pergunta “afinal para que serve o teu blog?”. Não é que esteja a entrar na meia-idade e a ter a correspondente crise. Não é que não tenha nada para dizer ou que me falte a veia da escrita. Não é que não tenha muito material do bom para partilhar das cerejices e moranguices do meu amontoado. 

Ora quase tudo na minha vida tem sido definido por projectos, que têm um princípio e um fim. E o blog não é excepção. Quando o dei a conhecer ao mundo, queria que servisse não só para registar o crescimento das meninas (ainda sem saber que o meu rapaz estaria para breve) e também para partilhar muitas dicas e momentos desta loucura saudável de ser mãe de gémeas. Muitas amigos me diziam que devia partilhar as minhas histórias e momentos. E assim fiz. Dois anos e meio depois, já sendo uma família numerosa e tendo decidido que partilharia estratégias para gerir um amontoado de filhos, vejo-me num limbo de, digamos, estagnação. Que quero eu para o blog? Que gostava eu que as pessoas sentissem quando o lêem? Até onde gostava que o blog chegasse?

Depois, comecei a lembrar-me de tantos anos a trabalhar por objectivos, de ter que os traçar no tempo e de os avaliar, e percebi que esta forma de fazer coisas me deixou marcas. E juro-vos que às vezes dou por mim a estruturar a educação dos meus filhos assim da mesma forma, por objectivos. Seja no desfralde, seja na linguagem, seja na autonomia, seja no comportamento. E não sendo uma coisa assim tão rígida como pode parecer, confesso que me deixa cansada, que me tornou uma mãe um bocado chata. Explico-vos com dois exemplos reais:

1 – a cerejinha L estava a fazer já não sei o quê e houve muito palavreado, que com ela é sempre uma luta de argumentos para cá e para lá, porque quer saber tudo, discute tudo e quer controlar tudo. No fim, rematei com o clássico “o que é que se diz?”. E ela olha para mim com aqueles olhos negros e grandes e diz muito depressa ” obrigada, se faz favor? com licença?”. E até fico a achar piada, porque ela afinal sabe ser educada e até estou a fazer um bom trabalho.

2 – a cerejinha J tem o hábito de desistir, de virar costas ao problema quando a coisa não lhe corre de feição, de nunca querer insistir nas tarefas. Isto a mim complica-me com os nervos, porque se há coisa que eu não quero, é que sejam preguiçosas (bem como ingratas e invejosas, os meus três pilares de mãe-chata). E numa situação qualquer em que ela queria desistir, lá estava eu de volta dela a insistir para pensar e tentar e conseguir e, e, e….ela fica tão farta de mim, que acaba por fazer a despachar. E eu, do alto do meu cargo de mãe-educadora, acho que fiz um bom trabalho. 

Mas a verdade é que não fiz. Estou só a ser muito chata. Não estou a dar o exemplo. Não estou a partilhar. Não estou a deixar que pensem pela cabeça deles. Não estou a dar espaço para o erro. Não estou a dar-lhes tempo. Estou só a ser chata. E controladora. 

E como é que estes dois episódios se relacionam com aquilo que eu quero para o blog? Muito pouco, mas fizeram-me ver que tenho que relaxar mais. Não pensar tanto. Que se publicar um artigo por mês ou um todos os dias, tanto faz. Que se só falar da minha filharada e não partilhar nada de construtivo, tanto faz. Que se não mostrar nada do que fazemos em casa, tanto faz. Que se ninguém se interessar pelo blog, tanto faz. Que se escrever sobre coisa nenhuma de jeito e só usar o meu humor corrosivo, tanto faz. Se me der para a lamechice piegas e foleira, tanto faz.

Eu sei que um blog dá muito trabalho, um blog de sucesso, com parcerias e carradas de visualizaões, que há por aí resmas, paletes de blogs de maternidade. Um trabalho do bom, entenda-se. Eu sei que podia fazer análises de audiência e o raio para chegar mais longe. E também sei que se me dedicasse a sério chegava lá, que eu sou gaja para conseguir isso e muito mais. Só que não me apetece…ter trabalho. É só isso.

O que continuo a querer é mostrar-vos como se gere um amontoado de filhos numa casa caótica e bem humorada, numa família onde se berra e se abraça muito, onde há cotão espalhado e loiça para lavar que fica para o dia seguinte, onde as contas para pagar são adiadas e onde se recicla roupa, onde às vezes não se come sopa e se come salsichas com batata frita, onde se come comida chinesa caseira e massa fresca, onde a mãe é pelintra e anda sempre à procura de actividades à borla, onde as crianças andam muitas vezes com as unhas do tamanho das da águia do benfica, onde a mãe discute imensas vezes com o companheiro, onde promete que faz coisas e depois não faz nadinha, onde no verão as camas ainda têm edredões, onde os miúdos andam descalços no parque infantil, onde a mãe só faz a depilação no verão e com a máquina de trazer por casa, onde o pai é que cozinha e ela foge a sete pés do fogão, onde o frigorífico tem a gaveta dos legumes cheia de resíduos secos, onde as crianças não andam em nenhuma actividade extra-curricular, onde a cadela já roeu mantas e tantas outras coisas, onde o filho anda só de fralda em casa e as filhas vestidas de princesa e esborratadas maquilhadas, onde gostamos de pintar, onde a mãe os mete a ver desenhos animados para descansar uns minutos ou pôr o almoço na mesa, onde existe máquina fotográfica xpto e câmara de filmar e só se usa o telemóvel, onde nos esquecemos de levar o carro à inspecção, onde andamos sempre todos juntos para todo o lado, onde não há toalhas de mesa sem nódoas, onde choramos muito, onde fazemos imenso teatro, onde doamos brinquedos duas vezes por ano, onde os amigos são sempre bem-vindos, onde gostamos de estar, onde se está bem.

Onde a mãe é uma desbocada e conta tudo num blog da cor das cerejas, que diz que é um blog de maternidade, mas também podia ser um blog aparvalhado.