Algo se passa na minha casa.

A minha cama encolheu. Antes tinha espaço, virava-me e podia esticar os braços sem problemas, ou se queria aquecer os pés no meu marido, tinha que me esforçar para o encontrar. Agora sobra-me uma nesga na borda do colchão e tenho sempre um pé ou mão em cima de mim, e uns joelhos nas costas.

O meu sofá mudou de cor. Era cinzento e agora é, digamos, marmoreado com um leve degradé desde as costas até aos pés, com alguma arte rupestre e restos de matéria próxima da extraterrestre colada por entre as almofadas.

A minha televisão ficou bloqueada no mesmo género de canais. Antes via todos os cento e tal canais, sabia da existência de estações de televisão do outro lado do mundo, dominava as séries das fox todas. Agora fico histérica com a caracolinhos ou a patrulha para poder ter uns minutos de descanso.

O meu aspirador ficou selectivo. Parece-me que aspira à frente e que despeja por outro lado, porque acabo de aspirar, olho para trás e vejo bocados de plasticina, restos de bolacha, cabeças e micro-partes das pyn e coiso, peças de lego e ganchos, ganchinhos e ganchetas.

O meu carro transformou-se numa outra divisão da casa. Quando não encontro algo, já sei que ficou no carro e lá pernoita semanas a fio, até ser absolutamente insuportável de entrar no carro ou usar a bagageira.

A minha carteira aumentou. Quando quero encontrar o telemóvel, descubro puxinhos, meias, desenhos, pauzinhos, bonecos, carrinhos, bolacha esmigalhada, folhas das árvores, pedrinhas, babetes sujos, recados da escola, tudo menos a porcaria do telemóvel.