Estamos em Setembro. Diz que a partir deste mês, o tema da maternidade de substituição volta ao Parlamento para discussão e, quem sabe, ser finalmente aprovada uma lei. Este tema é polémico, sim. Mas é sobretudo desconhecido das pessoas e, muitas vezes, de quem por motivos de saúde não pode engravidar e julga que nunca virá a ser mãe.

Hoje trago-vos o testemunho real de uma família linda e feliz que se tornaram quatro através da maternidade de substituição. Como é que soube disto? Porque perguntei como é que tinha sido o parto, eu que nunca faço estas perguntas, nunca (o meu foi horrível e não gosto de falar nisso), mas com esta mãe saíu-me e ela respondeu, um pouco hesitante, “foi cesariana”. E eu vi logo que tinha feito asneira e arrependi-me de ter metido o bedelho. Mais tarde, ela acabou por me dizer que tinha sido cesariana, mas na barriga de outra mulher e a conversa assim começou e falamos disso naturalmente. De facto, é tudo tão natural neles que espero que o testemunho desta família vos ajude a compreender melhor a maternidade de substituição.

Fala-nos um pouco de ti e da tua família.
Tenho 35 anos, sou técnica superior de administração de profissão (daquelas que escrevem com todos os dedos no computador), mas agora não trabalho fora de casa, sou doméstica, muito feliz, casada e mãe de duas crianças.

Sempre soubeste que querias ser mãe?
Sim e não. Quando ainda namorávamos, às vezes falávamos de num futuro hipotético vir a ter filhos, mas a verdade é que depois, já partilhando a vida juntos, nem pensávamos nisso. Quer dizer, lá estava a ideia, mas não para já. Fiquei grávida acidentalmente e isso foi o que nos fez ir para a frente.

O que sentiram quando perceberam que por motivos de saúde não poderias ter uma gravidez?
A verdade era que naquele momento já estávamos quase à espera. Tivemos que interromper a gravidez e claro, mesmo sem estar a pensar em ser pais nessa altura, não nos teríamos importado em absoluto, bem ao contrário. Foi muito triste mas, felizmente, nós somos pessoas muito positivas e tentamos ser flexíveis e aceitar as coisas como elas vêm. Isso foi o que fizemos, aceitar a nova situação. A nossa primeira preocupação depois do aborto, foi optar por um método de contracepção definitivo que evitasse que eu voltasse a ficar grávida, sendo que nunca poderia ir para a frente com uma gravidez, e não ter filhos no futuro. Só passado mais de um ano começámos a pensar nas nossas opções se quiséssemos aumentar a família.

Onde procuraram informação e apoio para o vosso problema? Pensaram também na adopção?
Só procurámos informação na internet. A adopção foi a nossa primeira ideia, mas ficou logo de parte pela nossa situação económica (na altura apenas trabalhava o meu marido, com um contrato a termo) e pela minha doença. Depois, sendo que a fertilidade não era o nosso problema, a opção da maternidade de substituição veio ao de cima naturalmente, tanto assim, que hoje em dia não nos conseguimos lembrar qual dos dois pensou primeiro nisso. Foi tudo, para nós, muito natural. Quer dizer, não vimos contras por lado nenhum. Pensámos, isto é possível, vamos tentar. Se correr bem, óptimo. Se correr mal, pelo menos tentámos. Trocámos e-mails com duas agências e, finalmente escolhemos uma delas e começámos a falar também ao telefone, sempre em inglês, não sei quantas vezes!! Finalmente, combinámos uma data e fomos lá para dar início a tudo.
O nosso apoio em todo o processo, quando decidimos vir a ser pais pela maternidade de substituição, foram a família e os amigos.

Ajuda-nos a perceber como se processa a maternidade de substituição no país onde encontraram esta solução.
No nosso caso foi a Ucrânia. Lá é um procedimento legal e, como tal, perfeitamente legislado. A mãe não é quem pare, é a mãe biológica. E no caso de doação de óvulos, que também está permitida, estes têm que ser de uma terceira mulher que nada tem a ver com a mãe de substituição e que também não é a mãe. Uma pessoa pode ir lá e tratar de tudo directamente com a mãe de substituição, há agências nas quais se pode contactar com mulheres interessadas. No nosso caso tratámos tudo com uma agência. Desde os contratos legais, à procura da melhor mãe para nós (pela data, como usei os meus óvulos tivemos que ser preparadas ao mesmo tempo, eu para a extracção e ela para a implantação dos embriões), o meu tratamento e o dela, a clínica, as estadias, o hospital, os documentos e até visitas pediátricas até voltar a casa. Em resumo, nós combinámos um preço fechado com a agência, e esta é que tratou de todos os pagamentos. No momento do nascimento, se for parto natural, os pais (neste caso, eu e o meu marido) poderíamos estar presentes. Afinal foi cesariana, então logo a seguir ao nascimento, os nossos filhos, pois tivemos a imensa sorte de serem gémeos, saíram do bloco nos nossos braços. No momento em que a mãe de substituição começa com o trabalho de parto nós fomos também “internados”. Tínhamos no mesmo hospital um quarto para nós e os nossos filhos, logo que eles nasceram, no qual tivemos que ficar até a mãe de substituição ter alta hospitalar. À nascença, o hospital emite um documento onde consta que nasceu X ou Y filho de, os nossos nomes. Os pais. Com esse documento trata-se depois de tudo o resto. Os meus filhos já vieram para a sua casa com o seu passaporte em ordem e inscritos no registo civil do nosso país, ali em Kiev.

Quais os vossos receios ao longo da gravidez? E durante esses nove meses, qual foi a vossa participação?
Para dizer a verdade, não sei bem porquê, mas estivemos calmos durante a gravidez. Com todos os preparativos, mas com uma certa intuição de que ia correr tudo bem. Foi uma sorte, de outra forma poderia ter sido um inferno com os nossos filhos tão longe. Sim, sofria de ansiedade nos dias em que era suposto receber ecografia, pois tinha muita vontade de os ver crescer e de confirmar que, efectivamente, tudo estava a correr bem. Mas era assim, um ou dois dias por mês. Normalmente, com esta agência, os pais costumavam estar presentes na ecografia das 12 semanas. E depois no fim, já para o nascimento. Mas realmente, os pais poderiam ir quantas vezes quisessem, combinando antes com a agência por causa da estadia, mas Kiev é muito longe!

As pessoas têm muitas dúvidas sobre este tema. Quais as questões e cenários que estão previstos na lei que queiras realçar?
Não sei por onde começar. Na Ucrânia, apenas podem optar por este método casais que tenham algum problema médico comprovado. Acho um bom princípio. As mulheres apenas podem ser mães de substituição de livre vontade. Para isso têm que compreender o procedimento e passar em exames médicos e psicológicos. A sua idade está limitada a uma certa faixa etária (que agora não me recordo) e têm que ter sido mães anteriormente de um filho próprio e saudável. Concordo com todas estas condições. Também acho muito importante o facto de serem retribuídas. Uma gravidez altera toda a nossa vida e são 9 meses, mais parto ou cesariana. Pessoalmente, para mim não há dinheiro que pague o que a nossa mãe de substituição fez por nós e os nossos filhos, uma retribuição económica é o mínimo. Às vezes, como no nosso caso, dá-se uma gravidez múltipla. Quando são dois, a lei estipula uma quantia de dinheiro extra directamente para a mãe de substituição. E se fossem mais, todos os embriões para além de dois, devem ser abortados ainda havendo o risco de perder todos, mas é assim a lei na Ucrânia, pois uma gravidez múltipla tem sempre mais riscos para a grávida. Basicamente, as leis protegem a mãe de substituição e acho que é assim que deve ser. No momento do nascimento, ela não tem direito nenhum sobre o/os bebé/s. Acho que também deveria existir um limite de idade por parte dos casais que optam por este método.

Que conselhos queres dar a quem pensa procurar esta alternativa para ser mãe? E à família destas mulheres e homens? E a quem está a decidir sobre a legalização?
A quem pensa nisto, nenhum. Quem faz isto tem que estar plenamente decidido e tem que chegar a isso por si só. É a nossa opinião. A quem está a decidir sobre a legalização, que isto se torne legal. Já chega de pôr travões à ciência. Isto é só uma opção. Quem achar que vai contra os seus princípios ou religião que não o faça, mas que deixem quem quer fazer. Tem que ser legislado muito cuidadosamente. A pensar nas mães de substituição e nas famílias. Tem que se assegurar de algum modo que ninguém possa fazer nada obrigado. É muito importante que assim seja precisamente para evitar problemas. Nós fizemos num país legal, mas há quem faça de maneira ilegal, e assim podem haver problemas, todos os implicados estão fora da lei e portanto desprotegidos. E também é importante legislar para dar a conhecer. Nós pensámos logo nisso, mas estou certa que há casais que nunca se lembrariam de tal coisa. Ou não sabem que isto existe ou pensam que é apenas coisa de ricos e famosos como nos filmes. E são condenados para sempre a ficar sem um filho que se calhar, de outra forma, viriam a ter.

O que sentiste no 1º dia em que chegaste a casa com os gémeos?
Finalmente! Esta palavra resume tudo. Fui imensamente feliz ao poder partilhar os meus filhos com o resto de família e amigos que estavam à espera, emocionados e empolgados por os conhecer ao fim de 24 dias. E também ao trazê-los para o nosso lar, o deles, ao lugar onde pertencem.

O que mais adoras em ser mãe de gémeos?
Tudo. Desde criança que pensei que um dia viria a ser mãe de gémeos. Meu pai também é gémeo. Mas agora que realmente sou, adoro mesmo. Para já, como é de se perceber, não íamos voltar a fazer isto novamente. Não é simples. Então agradeço muito, muito ter sido assim, mais do que nada por eles, cada um deles tem um irmão e isso faz com que nos sintamos muito felizes, e um irmão da mesma idade com o qual partilham tudo, bom e mau, desde sempre. E também por nós os dois, que podendo escolher (o que não foi o caso) sempre gostámos de famílias grandes. Esta nossa não é enorme, mas dadas as circunstâncias, acho que está muito bem.

E o que mais te custa?
O que mais me custa é a absorção de tempo, do meu tempo, que já não é meu, hahaha. Faz parte. O pior foram os dois primeiros anos, depois começaram a frequentar uma creche e a coisa melhorou notavelmente. E pelo facto de serem gémeos, nada. Não trocava por nada. Até comecei a pensar que os filhos deveriam vir sempre assim, aos pares.

O que mudou na tua vida?
O essencial não mudou, mas mudaram muitas pequenas coisas do dia-a-dia: éramos três (com a cadela) agora somos cinco, temos que pôr mais pratos à mesa, há muitos mais iogurtes no frigorífico, já não temos quarto de convidados, a casa está cheia de brinquedos, pinturas, autocolantes…tenho uma dentada na mesa da sala, mini-bicicletas na garagem, há muita roupa miúda no estendal, já não temos que carregar nos botões do elevador, temos que explicar quase tudo o que fazemos (normalmente a dobrar, hahaha), demoramos muito mais (às compras, a tomar o pequeno almoço, a estar prontos…), há quase todos os dias uma birra ou mini-birra ou birrão, há muitos muitos beijos e nunca saio de casa com eles sem que ouça “Mãe, estás muito linda”.

O que é para ti ser mãe?
Wow, e agora o que é que eu digo. Buf…Ser mãe é a consequência lógica da minha vida. Eu que tive a sorte de me apaixonar e de continuar apaixonada pelo mesmo homem muito tempo depois. Ser mãe faz de mim parte de um projecto, de um sonho que construímos juntos, o meu marido e eu.
Ser mãe faz que eu queira ser melhor pessoa, porque quero ser exemplo. É, portanto, uma oportunidade que me deu a vida de me tornar melhor do que sou, cada dia, tentando sempre fazer as melhores escolhas. Ser mãe é uma satisfação.

Gostas de cerejas?
Adoro!! A fruta e as tuas também!

Obrigada pela partilha e gentileza em colaborarem com o blog, um beijinho!!!