Hoje volto ao tema da emigração, mas desta vez através do olhar de uma mãe que o fez com a família toda atrás. Hoje fala-se novamente de sair do país, mas desta vez sem ter vontade de voltar. Apresento-vos a Susana e a sua família de cinco.

Fala-nos um pouco de ti e da tua família.

Ora, eu sou a Susana e tenho 37 anos…sou casada há 12, mas estou com o meu marido há 19 anos…uma vida portanto. Já fiz de tudo…já fui técnica de cobranças, já fui admnistrativa, já fui baby sitter e ama, e já fui professora que sempre foi o meu sonho, Agora sou mãe a tempo inteiro das minhas três crias e nunca me senti tão exausta 🙂

Estás emigrada por que razão?

Estou emigrada por várias razões, sendo que a mais flagrante é a de que no meu país de nascença não vivia bem, passava dificuldades financeiras…muitas. Já tinha emigrado antes com os meus pais para o Canadá, onde estudei e onde tirei o meu curso. Acabei por ficar lá mais de 10 anos e só regressei a Portugal porque estava perdidamente apaixonada pelo homen com quem mais tarde viria a casar. Mas estou emigrada também porque não sentia que pertencia a Portugal, porque acho que Portugal neste momento não é um bom país para se criarem crianças, porque não sinto que as pessoas sejam valorizadas e reconhecidas lá…porque queria os meus filhos com mente aberta para um dia mais tarde poderem trabalhar e viver em qualquer parte do mundo, sem que se sintam destroçados por ter de mudar de país e/ou de cultura. O meu objectivo primordial é tornar os meus filhos aquilo que sou…cidadãos do mundo.

Como foi o processo de escolha do país de destino?

Escolher a Escócia foi um acaso…aconteceu. Reino Unido era o sítio para onde queria vir, mas a Escócia apareceu com uma proposta de emprego que fizeram ao meu marido, e que aceitámos com muita vontade, pois este país sempre foi um sonho para mim. Não estava enganada. Escócia é maravilhosa de tão linda…um verdadeiro paraíso na terra.

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O que mais te custou na adaptação ao novo país?

A mim não me custou nada! 🙂 De verdade…não me custou mesmo nada…estava habituada ao frio, adoro o frio e a ideia de Invernos rigorosos é algo que me cativa. Eventualmente, custou-me o facto de ter de passar tanto tempo em casa com os miúdos durante o Inverno. A pior adaptação foi para a Laura que teve algumas dificuldades em lidar com o frio. Nada que não se tenha resolvido com um fato da neve 🙂

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Que conselhos podes dar a quem esteja a pensar emigrar com a família toda atrás?

Bom, nós fomos muitas vezes chamados de loucos…a família da parte do meu marido teve algum receio por virmos os cinco todos ao mesmo tempo… mas efectivamente se assim não tivesse sido, não sei se teríamos chegado a vir. Acho que é difícil a mudança quando não se tem rede, quando não se tem apoio, quando não se tem dinheiro para nos aguentarmos 2 ou 3 meses num país estranho, com todas as despesas que daí advêm. Nós pudemos vir os cinco de uma só vez, o que psicologicamente foi mais fácil, mas logisticamente foi bastante complicado. Passámos as primeiras três noites num quarto de hotel…2 adultos, 2 crianças e um bébé de 3 meses…foi deveras complicado. Compreendo que não seja possível para todas as famílias fazerem o mesmo, mas o primeiro conselho que dou é que não pensem que emigrando (para aqui nomeadamente) é pêra doce. Demora pelo menos entre 3 a 8 semanas a encontrar o primeiro emprego, mesmo que esse emprego seja a servir cafés…o mercado de arrendamento aqui é feroz, não é simples alugar uma casa….depois sozinho as forças falham, mas acima de tudo manter o focus e pensar que o que vem depois é muito melhor. E sem dúvida nenhuma que tem de se trazer algum, bastante, dinheiro no bolso. Principalmente para Edimburgo que é uma cidade turística e consequentemente, bastante cara.

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Quantas vezes vens a Portugal? E como suavizas a saudade?

Ainda não fui a Portugal 🙂 Nem sequer está nos meus planos mais próximos, confesso. Um dia talvez irei de férias, neste momento isso nem sequer se põe em questão. As saudades são mais dos miúdos, as pessoas sentem falta deles…são pequenos, estão num mundo novo, com pessoas e experiências novas … são miúdos ainda. Usa-se o skype, os telefones, as mensagens escritas e o facebook 🙂

O que retiras de bom da emigração e da vossa nova vida?

Emigração é sempre bom se não for apenas pela razão monetária. Se emigrarmos porque queremos, porque sentimos que precisamos por este ou aquele motivo, é sempre bom. Novas experiências, novas pessoas, uma cultura diferente, conversas mais diversificadas, uma nova forma de olhar o mundo, explorar tudo o que for possível no novo país … dar bases novas aos nossos filhos, uma liberdade de escolha diferente, poder ensiná-los que mudar nem sempre é mau….que o nosso país é aquele onde nos sentimos bem, onde somos bem tratados e onde podemos sorrir com vontade.

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Tens esperança de voltar para Portugal?

Não! Mais do que não ter esperança, não tenho vontade.

O que é para ti ser mãe?

Essa pergunta é tão difícil … Ser mãe é ser tanta coisa. Ser mãe é cuidar, e abracar, e amar, e limpar lágrimas e partilhar sorrisos, e limpar baguncas e ajudar a desarrumar, é partilhar vida, afectos, ensinar a levantar quando caem…ser mãe é chorar lágrimas de sofrimento quando um filho não está bem, e lágrimas de felicidade quando esse filho melhora… ser mãe é zangarmo-nos com eles para que pela vida fora outros se zanguem menos…e ouvir desabafos infantis de cara séria quando por dentro mal conseguimos conter a gargalhada…é fazermos a comida favorita deles e deixarmos que se sujem de terra, e permitir que comam chocolates mesmo antes do jantar, porque um dia não são dias..:) E ensinarmos que o pai mesmo não estando em casa o dia todo, é a pessoa mais importante na vida deles, e cultivar um amor feroz pelo pai e pela mãe…é permitirmos que tragam para dentro de casa um caracol que apanharam na rua, apenas porque é “fofinho”…e ajudá-los na escola, moldando o caminho, mas permitindo que sejam eles a fazerem as suas escolhas…é deixar que errem, ajudar a apanhar os cacos e ensiná-los a decidir quando às vezes nem vale a pena colar esses mesmos cacos. Ser mãe é tanta coisa que me é impossivel descrever apenas metade… ser mãe é ter sempre medo de não se saber ser mãe…

Gostas de cerejas?

Adoro cerejas!!! 🙂

Obrigada querida Susana pela tua disponibilidade e gentileza. Foi muito bom ter-te por cá, bem como à tua família linda! Um beijinho 🙂