Neste blog, os pais terão sempre um lugar especial.

Hoje temos um pai, de quatro, que precisou de emigrar. Hoje fala-se de emigração e de saudades. Apresento-vos o Alexandre.

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          Fala-nos um pouco de ti e da tua família.

Começo este desafio, com um esclarecimento; sou mais de falar do que de escrever! Daí que, talvez não consiga dar a melhor imagem de mim mesmo, escrevendo sobre mim. Gosto mais de falar. Conheceste-me no âmbito profissional. Vivemos algumas histórias juntos, onde muitas vezes e em várias situações, eramos nós mesmos que “actuávamos” (sou contra o acordo ortográfico). Não sou muito diferente daquilo que viste, enquanto pessoa singular ou em família. Gosto da boa disposição, gosto de estar em grupo, com família e/ou amigos. Gosto de viver cada e todos os momentos com intensidade. Gosto da minha família. Como sabes, depois da morte do meu filho, a família, a vida, tudo ficou com outro significado. Qual? Não sei; ainda não sei! Tento todos os dias encontrar a resposta ou a melhor resposta. Agora tive de emigrar. Novo conceito de vida e de família, tive que reformular. Agora sinto mais a falta dela (família). Tento compensar esta falta com as conversas diárias via Skype (um amigo precioso do emigrante), com a contagem decrescente dos dias que faltam para os voltar a tocar, com a chegada do fim do mês para ver a cor do dinheiro. Somos uma família engraçada, que faz inveja (não sei porquê) a algumas pessoas, tentamos ser coerentes com a vida e com os outros, queremos viver a nossa vida intensamente e aproveitar cada momento, pois sabemos na primeira pessoa que o dia de amanhã poderá ser muito diferente do que é hoje. A minha mulher é a Paula, com quem convivo há 30 anos, educadora de infância por vocação e convicção; conhecemo-nos em 1983, casámos em 86, tivemos o primeiro filho em 87. Depois vieram mais 3, com um intervalo de 10 anos entre a segunda e a terceira. Hoje a Ana tem 23 anos, seguiu os passos da mãe, estando a terminar o mestrado em educação básica; a Gui (Filipa) tem 13 anos e está no 7º ano e o Guilherme que tem 10 anos está no 5º ano.

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          Estás emigrado por que razão?

Tal como a maioria dos demais 200 mil portugueses que estão em Angola, estou emigrado por não haver emprego em Portugal. Situação que, politicas à parte, os últimos (des)governos e (des)governantes nos colocaram. Saí da MSD por opção, como sabes, mas com a esperança de ainda arranjar emprego noutra empresa na mesma ou outra área. Tinha na altura 44 anos, vinte de experiência profissional, um título académico, muita vontade de começar de novo. Mas não suficiente. Três anos à procura de emprego, muita promessa, a fazerem-me sentir velho e inútil, ver sucessos de quem “lambe botas” e algumas “surpresas” de quem pensava eu ser amigo. Ainda tentei um negócio na área da restauração, mas a “crise”, a troika e as políticas do governo fizeram com que ao fim de 11 meses tivesse que fechar o negócio, perdendo 60 mil euros. Depois de tudo isto, tive que equacionar a hipótese de emigrar, pois era uma “matéria que estava a dar”.

          Como foi o processo de escolha do país de destino?

A escolha do país de destino foi “natural”. Estava a falar com um amigo, director de uma multinacional, que não tinha vagas na sua empresa, na hipótese/necessidade de emigrar e ele sabia de uma empresa, em Angola, que estava à procura de um comercial com experiência na área hospitalar,para a área da ortopedia, cirurgia e “medical devices”. Caso eu estivesse interessado, pôr-me-ia em contacto com a empresa. Menos de dois meses depois estava a embarcar na TAAG rumo a Luanda.

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           O que mais te custou na adaptação ao novo país e emprego?

O que mais me está a custar é a ausência/privação da família. Tudo o resto também teve de passar por um processo de adaptação mas, dado o meu feitio e a necessidade, não são relevantes e até ajudam a passar os dias. Enumero nesta matéria o trânsito selvagem e caótico de Luanda, e algumas grandes faltas de condições básicas de vida e infrastruturas. Compreensível para quem viveu 30 anos seguidos de guerra, e só leva 10 anos de pós-guerra …

          Como matas as saudades dos teus filhos, da tua família?

Mato as saudades dos filhos e da mulher pensando neles várias horas por dia, vendo-os presentes nas coisas boas que me vão acontecendo e falando diariamente com eles via Skype (passando a publicidade).

          Quantas vezes vens a Portugal?

Só vai fazer 1 ano em Julho que emigrei. O acordo com a empresa consagra duas viagens por ano a Portugal: em Agosto e em Dezembro, contemplando Natal e passagem de Ano. Mas irei mais vezes a Portugal às minhas expensas.

          Apesar das saudades e da distância, consegues retirar algo de bom da emigração?

O melhor que tiro da emigração é o dinheiro que ganho. A seguir, o que fica das novas amizades e das novas experiências que vou vivenciando. Tenho também a sorte de ter cá em Angola alguns amigos e conhecidos (que já são amigos) de Viseu, com quem vou partilhando alguns bons momentos.

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            Tens esperança de voltar para Portugal?

Vou voltar a/para Portugal. Não sei, ainda, quando e se com a esperança de arranjar emprego! Até agora nada. Aqui vão-se desenhando alguns potenciais bons projectos, que vou gerindo ao correr da pena. Enquanto for economica e emocionalmente sustentável a minha estada aqui, vou ficando. Mas não penso ou não quereria ficar para além dos 50 anos de idade (estando eu nos 47).

          O que mudou na tua vida desde que és pai?

Desde que fui pai, e de todas as 4 vezes, o que mudou foi tudo. Minimizando a questão, mudou a postura e o conceito de vida. A mudança começou com o casamento, onde deixei de pensar a solo e comecei a pensar a dois, depois a três, etc. Viver cada dia com o objectivo de proporcionar a cada novo elemento da minha vida o melhor e, no que toca aos filhos, dar-lhes o melhor ensinamento e as melhores bases para que possam ter uma boa vida, pois a existência deles é da minha responsabilidade. Quero referir que esta “boa vida” não é sinónimo de facilidade nem de bens materiais.

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          O que é para ti ser pai?

É uma resposta difícil. Ser pai é, para mim, viver em função da(s) responsabilidade(s) que gerei. É viver em função de e para os filhos.

          Gostas de cerejas?

De cerejas, fruta, não gosto. De ti, gosto muito;)

 

Obrigada Alex pela tua gentileza em colaborares no blog. És um óptimo pai! Beijinhos!